Falece John Berylson, presidente do Millwall: exemplo de proprietário, adorado pela torcida
O americano John Berylson era um dos proprietários mais amados da Football League e deixou como legado sua postura à frente do clube, ao valorizar demais a torcida e respeitar a instituição
John Berylson, proprietário e presidente do Millwall, faleceu nesta terça-feira, aos 70 anos. O clube da segunda divisão do Campeonato Inglês confirmou a morte, provocada por um acidente. A notícia causou enorme comoção na comunidade dos Leões, diante da relação de carinho que existia com o proprietário. Embora americano, Berylson era visto como um dirigente que entendia os anseios da torcida. O magnata teve um tratamento bastante carinhoso com o Millwall ao longo de 17 anos à frente do clube e também lutou pelos interesses da comunidade. Ao longo de sua gestão, os alviazuis podem não ter alcançado a Premier League, mas atravessaram um importante período de estabilidade e feitos pontuais. Guardadas as devidas proporções, a perda de Berylson ao Millwall se assemelha ao que o Leicester City viveu sem Vichai Srivaddhanaprabha.
Formado em Harvard, Berylson fez sua fortuna a partir de fundos de investimentos nos Estados Unidos. O empresário com raízes em Boston tinha como sua grande paixão os Red Sox no beisebol. No entanto, o grande empreendimento do americano nos esportes aconteceu no futebol, em Londres. A aproximação do Millwall ocorreu a partir de 2006. Em março de 2007, a companhia Chestnut Hill Ventures passou a injetar dinheiro nos Leões. Tal posição alçou Berylson como acionista majoritário e também presidente dos londrinos. Sua gestão seria importante desde aquele primeiro momento, especialmente após anos de administração conturbada. Seu primeiro grande feito veio com o acesso na terceira divisão do Campeonato Inglês em 2009/10.
O Millwall emendou cinco campanhas consecutivas na Championship e teve uma caminhada até as semifinais da Copa da Inglaterra em 2012/13. Apesar do rebaixamento sofrido em 2014/15, os Leões voltariam à segundona duas temporadas depois, com o acesso comemorado em 2016/17. Seria uma grande ocasião em Wembley, com a conquista dos playoffs. Desde então, o Millwall se restabeleceu como um time de meio de tabela na Championship. Quase sempre pintou na metade de cima da tabela, mesmo sem alcançar os playoffs. Seguia em mente o sonho de conquistar o primeiro acesso ao Campeonato Inglês desde 1989/90. Outro destaque ficava para as campanhas nas copas nacionais, com mais duas aparições nas quartas da Copa da Inglaterra. Oponentes de peso como o Leicester recém-campeão e o Everton ficaram pelo caminho.
A defesa do estádio do Millwall e das raízes do clube
De qualquer maneira, o desempenho em campo nem era o que elevava o moral de Berylson. O proprietário sempre foi querido por valorizar a torcida e entender a importância da comunidade ao redor do clube. Por volta de 2016, políticos da região onde os Leões estão localizados tentaram comprar os terrenos nos arredores do Estádio The Den para a construção de novos empreendimentos imobiliários. No entanto, o projeto tinha suas nebulosidades, com uma empresa envolvida sediada em paraíso fiscal, e existia a acusação de que o plano principal era o de expulsar famílias da região. A própria posição do Millwall estava pressionada e minaria as estruturas do clube. Os londrinos corriam o risco de mudar de região, a 120 quilômetros de sua sede original.
John Berylson se colocou ao lado da comunidade no imbróglio. O presidente do Millwall defendia os interesses do clube, claro, com ideias de expansão das categorias de base e das infraestruturas em geral. No entanto, também se posicionava ao lado das famílias que preferiam continuar na região e tinham seus laços locais centrados inclusive ao redor dos Leões. A resistência deu resultado, com a desistência do projeto político em 2019. As iniciativas do Millwall se fortaleceram, inclusive com uma expansão na capacidade das arquibancadas. Por isso, Berylson era visto como um herói local.
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O que fazia de Berylson o “proprietário ideal”
O posicionamento público de Berylson era outro ponto bastante elogiado pela torcida do Millwall. Não era o tipo de proprietário que tentava se promover sobre o clube. Definitivamente não era um aventureiro. Pintava como o ideal do que se espera de um dono de clube e as manifestações de apoio da torcida endossavam isso. Berylson nutria uma postura cordial e próxima dos torcedores. Um dos momentos que reforçou tamanho respeito veio durante a pandemia. Berylson contornou as limitações e os desafios financeiros diante dos Leões. Tirou dinheiro do próprio bolso para sustentar os londrinos, diferentemente do que se via no restante dos clubes menores, com donos sem interesse e equipes em falência. Mais importante, também realizou ações sociais para auxiliar as necessidades da comunidade. E isso ainda garantindo resultados satisfatórios no meio da tabela da Championship. Sua imagem se fortaleceu.
“Berylson é presente sem ser arrogante, generoso sem insistir em onipotência e ambicioso sem qualquer desejo de colocar em risco o futuro financeiro do clube”, descrevia uma reportagem do iNews de abril de 2023, sobre a estabilidade do Millwall na Championship. A matéria ressaltava como o proprietário, ao longo da última década, garantiu £69 milhões em fundos para apoiar o clube. Deste montante, 96% foi gasto para cobrir dívidas. Existia inclusive uma dependência, o que deixa suas interrogações diante da notícia da morte.
Berylson podia não ter nascido em Londres. Não era um fanático pelo Millwall desde a infância. Contudo, os demais torcedores viam o proprietário como um deles. O amor que demonstrou pela equipe em diferentes momentos demonstrava como ele compreendia e compartilhava os sentimentos da torcida. Se os Leões se sobressaem como uma equipe modesta muito por causa de sua torcida fanática, o empresário encontrou um jeito de exaltar esses traços e não se afastar disso. Não à toa, os próximos dias devem ser cercados de comoção em The Den. A torcida do Millwall certamente se empenhará para oferecer uma despedida calorosa a Berylson. Foram 17 anos de uma relação que ficará marcada na identidade dos alviazuis.
A nota de pesar do Millwall
“É com o coração partido de forma coletiva e com o mais profundo pesar que anunciamos a morte de nosso amado proprietário e presidente, John Berylson. John, que completou 70 anos no mês passado, perdeu sua vida num trágico acidente na manhã desta terça-feira e os pensamentos de todos no clube estão com sua esposa, Amy, e com seus três filhos – Jennifer, James e Elizabeth – bem como com o restante da família Berylson”.
“A morte repentina e trágica de John inquestionavelmente impactará em todos aqueles que tiveram a sorte de conhecê-lo. Ele era realmente um grande homem, incrivelmente devotado à sua família e uma pessoa com notável generosidade, cordialidade e bondade. Ele viveu uma vida cheia de histórias, cheia de cor e de alegria, e era infinitamente atencioso com os outros, com um desejo infinito de compartilhar seu enorme conhecimento e experiência para auxiliar as pessoas”.
“Sob a liderança e a orientação apaixonadas de John, o Millwall Football Club desfrutou de um tremendo sucesso e estabilidade. Desde que ele se envolveu com o clube em 2006, ele presidiu alguns dos maiores momentos da história do Millwall e sua influência em fornecer apoio foi imensurável. John continuava a falar ansiosamente sobre a próxima temporada e sobre sua visão para o futuro. Qualquer sucesso daqui para frente estará em sua memória e honra. Esse será seu legado”.
“John se deleitava com o status e a mentalidade de azarão do Millwall. Ele se relacionava fortemente com esses valores e essa identidade, e adorava os torcedores do Millwall. Era extremamente leal a todos os seus funcionários. Tanto eles quanto a torcida sentirão sua falta além da medida. Descanse em paz, John, e obrigado. Você foi amado e adorado”.



