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Irmãos Touré surgiram juntos, mas seguiram trajetórias diferentes

Uma das famílias mais famosas no futebol na atualidade, os Tourés têm uma peculiaridade interessante. Os três irmãos, Kolo, Yaya e Ibrahim nunca fizeram sucesso ao mesmo tempo e seguiram trajetórias distintas, apesar de terem sido revelados pelo mesmo clube, o tradicional ASEC Mimosas, da Costa do Marfim, que também apresentou outros jogadores importantes do país – Kalou, Gervinho, Romaric, Ya Konnan e Eboué.

Enquanto Kolo deixou sua terra natal para defender o Arsenal, um dos maiores clubes da Inglaterra, em 2002, com apenas 20 anos, Yaya e Ibrahim se aventuraram em ligas menores. Com 18 anos, Yaya começou a trilhar o seu caminho na Europa pelo pequeno Beveren, da Bélgica, em 2001, e se juntou ao Metalurh Donetsk, dois anos depois. Nessa mesma época, o irmão mais novo, Ibrahim, também foi contratado pelo clube ucraniano.Ele era considerado um talento em potencial do futebol marfinense. Afinal, o garoto de apenas 17 anos já estava na Europa e era irmão de Kolo, que começava a despontar no Arsenal, mas não foi assim que aconteceu.

Após dois anos na Ucrânia, Yaya foi para o Olympiakos e em seguida transferiu-se para o Monaco. Apesar de não ter realizado grandes façanhas, o meio-campista teve passagens satisfatórias pelos dois clubes, principalmente no francês. Enquanto seu irmão rodava a Europa, Ibrahim permaneceu no Metalurh e em 2006 resolveu tentar a sorte no Nice. Ele estava no mesmo país que Yaya, mais uma vez, embora em um clube diferente.

Nesse intervalo, o irmão mais velho, Kolo, se consolidou como titular do Arsenal. Com boas exibições, o zagueiro era um dos melhores da Premier League entre 2003 e 2007, e levantou os últimos títulos dos Gunners, que desde 2004 tentam acabar com o incômodo jejum. Kolo fez parte do invicto campeão inglês em 2004, e também ergueu os canecos da Copa da Inglaterra e da Supercopa.

Em 2007, no entanto, a trajetória dos três irmãos sofreu uma reviravolta. Por € 10 milhões, o Barcelona resolveu apostar em Yaya Touré. Muitos cornetaram o Barça na época e não entendiam o motivo de se apostar tão alto em um meio-campista que tinha vivido uma boa temporada pelo Mônaco, mas que não tinha grandes feitos na carreira.

No mesmo ano, Ibrahim também deixou a França. Por conta de uma grave lesão na coluna, o atacante teve poucas oportunidades no Nice, e ao se recuperar, viajou para a Síria. A viagem acabou rendendo num acerto com o Al-Ittihad, de Aleppo, que já estava interessado no jogador desde os tempos de Metalurh.

Nos três anos seguintes, a vida dos irmãos não foi fácil. Kolo ainda era titular na maioria das partidas, mas não tinha o brilho dos anos anteriores pelo Arsenal, sofreu com lesões e um time enfraquecido pela perda de jogadores importantes e ausência de troféus. Apesar de tudo isso, o zagueiro foi para o Manchester City, em 2009. Ao mesmo tempo, Yaya fazia parte de um time histórico e encantador do Barcelona, mas jogou pouco e, quando titular, era mais exigido na defesa. Ibrahim, por sua vez, não fez muita coisa pelo Al-Ittihad e se transferiu para o Misr Lel Makasa, do Egito.

Em 2010, o destino reservou uma mudança de patamar para um dos irmãos. Por € 28 milhões, Yaya Touré deixou o Barça e assumiu a camisa 42 do Manchester City para jogar ao lado do irmão Kolo e viver a melhor fase da sua carreira. Com Roberto Mancini como técnico, foi descoberto um Yaya Touré que pode jogar com mais liberdade, encostando no ataque e mostrando muita qualidade técnica. Gols, belas jogadas criadas, qualidade no passe e a já conhecida força física fizeram do meio-campista um dos melhores da Premier League.

Yaya foi fundamental no fim do jejum de 44 anos e no título do Campeonato Inglês na temporada 2011/12, enquanto Kolo era reserva de Kompany e Lescott, que formaram uma excelente dupla ao longo da campanha. Continuou sendo uma das estrelas do City e da Premier League nos anos seguintes, e, nesta temporada, com Manuel Pellegrini, mostrou mais uma qualidade: as cobranças de falta. Ele foi eleito o melhor jogador da África pelo terceiro ano seguido e, provavelmente, será escolhido pela quarta vez consecutiva.

Kolo, por outro lado, trocou a reserva no Manchester City para ficar no banco do Liverpool. No entanto, a carreira do defensor de 32 anos já está na fase do declínio. A prova mais recente é a falha bizarra e a “assistência” para Anichebe marcar o gol de empate do West Bromwich contra os Reds no fim de semana.

Já o irmão mais novo, Ibrahim, que completará 29 anos em setembro, deixou o Egito no ano passado para voltar à Líbia e defender o campeão nacional, Al-Safa. Mesmo sem o sucesso esperado e a pressão por ser irmão de dois futebolistas consagrados, Ibrahim segue acreditando que ainda terá grandes dias na Europa e vai defender a seleção da Costa do Marfim. Ao contrário dos dois irmãos, Ibrahim ainda não teve chances com a camisa dos Elefantes.

Apesar das trajetórias distintas e a distância, os irmãos mantiveram a ligação e trocam pelo menos três telefonemas por semana. Ainda sonham em, quem sabe um dia, encerrarem as suas carreiras no ASEC Mimosas, juntos, mais uma vez.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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