Irmãos no insucesso

Desde 1966, o melhor desempenho da seleção inglesa em um torneio foram as semifinais da Copa de 90 e da Euro 1996 – em ambos os casos o English Team foi derrotado nos pênaltis pela Alemanha, que acabou campeã. Em 90, a equipe ainda foi derrotada na decisão de 3º lugar, que não ocorreu em 1996.
A eliminação de 1996, entretanto, dói muito mais: ao contrário da de 1990, na Itália, a de seis anos depois aconteceu em pleno estádio de Wembley. Naquele 1 a 1, Alan Shearer abriu o placar aos 3 minutos. E Gareth Southgate perdeu o sexto pênalti cobrado naquele dia, o único – e definitivo – a não ser convertido por qualquer dos dois times.
Southgate e Shearer foram irmãos no fracasso mais uma vez neste final de semana. O ex-atacante e atual técnico do Newcastle viu sua equipe perder para o Aston Villa em Birmingham, quando um empate o teria livrado do Championship; e o ex-zagueiro e hoje técnico do Boro também viu seu time derrotado, pelo West Ham, em Londres, embora, em seu caso, apenas uma goleada pudesse livrar sua equipe da queda.
Embora apenas 20 dias separem os nascimentos de ambos, em 1970, as semelhanças param por aí. Enquanto Southgate encerrou sua segunda temporada completa como treinador do Middlesbrough, Shearer teve apenas oito semanas no comando do Newcastle, seu primeiro trabalho como treinador. Enquanto a ex-equipe de Juninho foi candidata a cair quase que desde o início do campeonato, a embicada para baixo do ex-time de Mirandinha aconteceu no final. Além disso, os Magpies têm uma história de 78 temporadas e quatro títulos da primeira divisão, ao passo que o máximo que o Boro já conquistou em sua história foi a League Cup de 2004.
Se, entretanto, a história do Newcastle é maior e mais importante que a do vizinho nortista, as perspectivas para o futuro parecem mais sombrias. Os Magpies são considerados uma equipe “rica”, principalmente por causa de sua numerosa torcida e de seu amplo estádio, para 52 mil pessoas, cuja ocupação média é superior a 50 mil pessoas desde que o estádio passou a ter esta capacidade.
Assim, a perda de arrecadação com a queda de divisão poderia não ser tão problemática, Isto se o clube não tivesse folha de pagamento pródiga em jogadores como Michael Owen, Obafemi Martins e Damien Duff, que, além de terem altos salários, não devem despertar tanto interesse de compradores.
Além disso, a situação da propriedade do clube é estranha. Seu dono, Mike Ashley, o comprou em 2007, e, embora o Newcastle já viesse ladeira abaixo, só contribuiu para que a velocidade da queda fosse maior. Ashley, um bilionário do ramo de materiais esportivos, sempre se comportou como torcedor, e, no final de 2008, quando Kevin Keegan renunciou ao cargo de treinador reclamando que não tinha controle sobre as transferências do clube, simplesmente pôs o clube à venda – só para depois ter que dizer que não arrumou comprador e que por isso não queria mais vender.
Apesar de seu dono bilionário, a situação financeira da equipe é delicada, com salários altos, multas contratuais antigas e antecipações de recebimento de patrocínios (ouvi alguém dizer “Flamengo”?). Apesar de Ashley ter pago muito mais dívidas do que imaginava pagar quando comprou o clube, não se sabe até onde vai sua disposição de enterrar dinheiro em St. James Park.
O Middlesbrough, por outro lado, vem de uma relativamente longa estabilidade de comando fora de campo. Seu atual dono, Steve Gibson, está lá desde 1993, e é o seu principal executivo desde 1994. Neste período, o clube teve três técnicos: Bryan Robson, que saiu após o final da temporada 2001, Steve McClaren, que deixou o clube para ser técnico do Inglaterra, e Southgate. Apesar dos maus resultados e da pressão para mandar o ex-zagueiro embora, Gibson em nenhum momento cogitou a possibilidade, deixando claro que preferia ver o clube cair para a segunda divisão do que demitir seu treinador.
Se no curtíssimo prazo o torcedor pode sofrer com a queda, pelo menos sabe que o clube tem uma linha administrativa coerente, e que já gerou resultados. Como nunca deu passos maiores do que poderia, o Boro vive uma tranqüilidade administrativa que garante uma temporada 2009/10 no mínimo competitiva. Certeza que o torcedor do Newcastle não pode ter.
Assim como o West Brom, Middlesbrough e Newcastle são favoritos aos primeiros lugares dão Championship na próxima temporada. A diferença, entretanto, é que, para os dois primeiros, um fracasso em retornar imediatamente será apenas um belo aborrecimento. Para o gigante do norte inglês, entretanto, existe um fantasma chamado Leeds United cantando o tempo todo. Os problemas financeiros do Newcastle, até onde se sabe, estão longe dos do Leeds. O tamanho do clube e suas ambições, porém, fazem com que uma olhadinha freqüente para Elland Road não faça nenhum mal.
Mais (ou menos) do mesmo
A temporada inglesa de futebol chega ao fim (atenção: não chega, falta a FA Cup!) com a sensação de que foi mais um ano de “mais do mesmo”. Mesmo campeão dos últimos dois anos, mesmos classificados para a LC, mesmos times no meio da tabela, e, com exceção da despromoção do Newcastle, nenhuma real surpresa entre os rebaixados.
Talvez a permanência de Stoke e Hull possa ser apontada com algo imprevisível, mas não se pode dizer que seja algo totalmente impensável no começo do campeonato.
A sensação, porém, pode ser um pouco enganosa. Embora o Manchester United tenha conquistado o título com folgas, pela primeira vez em 19 anos o Liverpool esteve a ponto de ameaçar a conquista.
Além disso, o desmoronamento do Chelsea, só contido com a saída de Felipão, pode indicar que seu rico proprietário “cansou do brinquedinho”, e não vai mais queimar dinheiro com futebol. Por fim, embora os quatro primeiros tenha sido os mesmos “de sempre”, durante a maior parte da temporada o quarto colocado foi o Aston Villa, e o Arsenal acabou com menos pontos entre si e o quinto colocado – no final, o Everton – do que entre si e o terceiro.
Merece menção honrosa o Everton, que segue em sua linha de regularidade sem extravagâncias e, mais uma vez, chega ao quinto lugar. E o Aston Villa, que esteve perto de conseguir furar a barreira do “Top Four”. Além disso, tanto Hull quanto Stoke surpreenderam ao conseguirem a permanência. O Hull o fez na última rodada, é verdade, mas, no caminho, venceu o Arsenal no Emirates e empatou com Liverpool e Chelsea nas casas adversárias. O Stoke, por outro lado, terminou a temporada em 12º, além de ter tirado quatro pontos do Liverpool e também ter ganho do Arsenal.
A recuperação do Tottenham? Esta não merece menção nenhuma: não fez mais que a obrigação, e ainda acabou desperdiçando uma boa chance de chegar à Liga Europa. O Tottenham precisa, isso sim, tomar um pouco do remédio do Everton antes de querer almejar vôos mais altos. Foi o que a atual temporada mostrou.



