Invasão do Norte

O assunto não é novo, mas voltou à pauta no final da temporada passada: Dominando como dominam a liga escocesa, não seria mais negócio para Celtic e Rangers jogarem a Premier League inglesa? Quem voltou ao assunto foi Phil Gartside, principal executivo do Bolton. A ideia de Gartside, na verdade, é criar uma “segunda divisão” da Premier League. Nela é que seriam admitidos os escoceses.
Começando pelo começo: hoje, as principais divisões do futebol inglês estão divididas entre duas ligas: a Premier League, que congrega os times da primeira divisão, e a Football League, que administra a segunda, terceira e quarta divisões (Champíonship, League One e League Two).
O sistema tem origem em 1992, quando os clubes da primeira divisão deixaram a Football League para fundar a Premier League. Apesar de serem, em tese, ligas diferentes, há um sistema de promoção e rebaixamento entre ambas – assim como há entre a Football League e a Conference, o topo do sistema chamado de “non-league”. Quando um clube é rebaixado, é obrigado a “vender” suas cotas da Premier League para um que tenha sido promovido da Football League.
O que mudou em 1992, então? Além do fato de que a administração das duas ligas passou a ser independente, o que mais mudou foi o contrato de televisão. Como uma liga dos time da elite inglesa, a Premier League se tornou ao campeonato de futebol mais assistido do mundo, o que gerou uma montanha de dinheiro para seus sócios. E é aí que mora a preocupação do “chairman” do Bolton – que, é claro, não está pensando em dividir nada, mas em não perder sua parte do bolo se for rebaixado.
É bom lembrar que, embora venham sendo um clube de razoável sucesso nos últimos tempos, os Wanderers passaam a temporada 87/88 na quarta divisão, e só chegaram á Premier League em 1995, na qual só se estabilizou a partir de 2002. Estabilidade que foi testada em 2007/08, segundo ano sem Sam Allardyce, quando o clube escapou por pouco de cair. Como não há nada que indique que seu time tem fôlego para se estabelecer como sócio permanente do clube da elite, Gartside teve a engenhosa ideia de aumentar o cluube. E dividi-lo em dois.
A ideia, em princípio, é estranha. Significaria, na verdade, desmembrar a segunda divisão da Football League e integrá-la à Premier League, e diminuir o número de clubes dos dois primeiros níveis para 18 – que é, aliás, o número máximo de clubes recomendado pela Fifa para cada liga. Os dois escoceses – a chamada “Old Firm” – se integrariam a esse segundo nível.
Como qualquer proposta de negócio, e esta é uma questão puramente de negócios, a questão é saber quem ganha e quem perde. Ao contrário das propostas anteriores, entretanto, não se trata só de saber o impacto da chegada de dois novos sócios, ao clibe, mas também de avaliar a ideia de mudar a segunda divisão.
Em princípio, ganha, evidentemente, a Old Firm, que passaria a enfrentar alguns dos melhores clubes do mundo ao invés de jogar contra o Hamilton Academical. O outro lado da questão é que Rangers e Celtic passariam alguns anos sem chegar à Champions League, se é que algum dia voltariam a ela. Do ponto de vista financeiro, há vantagem para ambos, ainda que a Liga Europa passe a ser a competição continental a que possam aspirar.
Para os clubes da Premier League, interessa a entrada de Celtic e Rangers na liga? Não, e é por isso que esta ideia nunca prosperou e dificilmente um dia prosperará. Ainda que os escoceses começassem em um segundo nível, é razoável, pela força de sua torcida, pela tradição de suas camisas e pelo dinheiro que entraria em seus caixas, iimaginar que, em pouco tempo, fariam frente ao chamado “segundo time”: Everton, Aston Villa, Tottenham, etc. Que dizer, então, dos que estão ainda mais abaixo? Por que o Wolves ou o Blackburn iria querer mais um time para competir consigo?
A resposta poderia estar na ideia da “Premier League B”, de Gartside. O Bolton, por exemplo, poderia abrir mão de lutar por posições européias em nome da estabilidade de estar na Premier League – ainda que em seu degrau de baixo. Mas por que uma “Premier League B” seria melhor do que o Championship? Por que, em tese, seus clubes fariam parte da divisão de um bolo muito maior.
Não há, entretanto, nenhuma garantia de que, com o tempo, a “Premier League A” não vá se cansar de dividir o que é seu, e, de novo, a segunda divisão seja excluída da festa. Com um agravante, se vingasse a proposta de Gartside: quatro vagas a menos, já que é pouco provável que Rangers e Celtic não subissem no primeiro ano e ficassem no primeiro nível.
Isso tudo para não falar do problema político – a Fifa concordaria? –, do geográfico – o Portsmouth tendo que viajar ainda mais ao norte – e do esportivo. Gartside disse que levaria a proposta à Premier League em maio, mas o assunto simplesmente sumiu do noticiário algumas semanas depois. Ainda que personalidades como Arsène Wenger e Martin O’Neill tenham falado em apoio à ideia.
O assunto vai e volta, a mudança não acontece, mas os escoceses não desistem. Quem sabe um dia eles não conseguem convencer os vizinhos ricos a dividir um pouco de seu caviar.
Quadrilha
Não adiantou o chororô de David Moyes: o Everton acabou cedendo, e aceitou uma proposta do Manchester City por Joleon Lescott: 22 milhões de libras. Dinheiro demais por um jogador que não tem esse potencial todo – muito menos a liderança que os Citizens podem precisar mais à frente. Para os Toffees, é um bom dinheiro, e o fim da novela. Contratar um bom zagueiro deve ser mais fácil do que voltar aos trilhos – o time perdeu as duas primeiras partidas que disputou, uma delas para o Burnley.
Burnley, aliás, que ganhou a segunda de três – a primeira fora contra ninguém menos do que o Manchester United. United, por sua vez, que massacrou o Wigan na casa do adversário, espantando pelo menos por algum tempo as dúvidas de que poderia sofrer mais do que o necessário sem Cristiano Ronaldo.
E já que vamos no melhor estilo “Quadrilha” (João mava Teresa, que amava Raimundo…), o Wigan, depois de surpreender o Aston Villa na primeira rodada, acabou batido pelo Wolves em casa na segunda, antes do massacre vermelho. Ao que parece, a vida na Premier League não vai ser tão tranqüila quanto parecia.
Na parte de cima da tabela, quatro times venceram todos os seus jogos: Tottenham e Chelsea, que já jogaram três, Arsenal e Man City, que jogaram duas. O líder, incrível, é o Tottenham. Apesar disso, e de ser um time rico e com bons jogadores, é mais fácil fazer sol em Londres do que achar alguém que acredite que o Tottenham pode ser campeão.
Quem acompanha o futebol inglês sabe por que: os Spurs tradicionalmente ou começam bem e depois caem, ou começam mal para depois se recuperar. Nesta temporada, entretanto, a equipe parece estar vivendo uma feliz fase em que alguns de seus melhores jogadores resolvem “florescer” ao mesmo tempo. Jermaine Defoe é o melhor exemplo disso. Mas Luka Modric é quem mais promete.
Além disso, com Bassong no elenco o Tottenham passa a ter defesa, mesmo sem Dawson e os dois eternamente quebrados King e Woodgate. Corluka pode jogar como central, e Hutton entra na direita.
Embaixo, ainda não ganharam pontos o Portsmouth (em três jogos), Everton, Blackburn, Bolton (dois jogos) e Aston Villa (um jogo). O Portsmouth viu nova reviravolta na história de sua compra: agora é Peter Storey, atual executivo-chefe do clube, o favorito a comprá-lo. Assunto que, se não se resolver logo, tende a acabar em inevitável rebaixamento do Pompey.



