Inglaterra teve recorde de demissões de técnicos na primeira metade desta temporada

Cada vez mais a imagem da Inglaterra como país cujo futebol dá mais tempo para seus treinadores tem sido desfeita. Conforme o investimento e o dinheiro de televisão cresceram na Premier League, aumentou também a pressão por parte de dirigentes por resultados rápidos, e a consequência disso é que os treinadores têm menos tempo para se provarem aptos para seus cargos. Tanto é que, pelo terceiro ano seguido, o número de técnicos demitidos na primeira metade de temporada das quatro primeiras divisões inglesas bateu recorde.
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Segundo a BBC, o número nos primeiros seis meses da temporada 2015/16 foi de 29 técnicos demitidos entre os 92 times das quatro primeiras divisões da Inglaterra, dois a mais do que os 27 demitidos no mesmo período em 2014/15. O recorde de demissões em uma temporada inteira pertence a 2001/02, quando 53 treinadores perderam seus empregos, mas, se a atual campanha seguir o ritmo apresentado no primeiro semestre, a tendência é de que esse recorde também seja quebrado.
A BBC produziu um gráfico (que você pode ver abaixo) em que mostra que, após uma queda no número de demissões nas primeiras metades das temporadas entre 2006/07 e 2011/12, o número só cresceu de lá para cá, batendo recordes sistematicamente desde 2013/14. Os atuais técnicos empregados na Premier League têm, em média, apenas 2,13 anos no comando de suas equipes, e isso porque o número é impulsionado para cima por Arsène Wenger, que completará 20 anos à frente do Arsenal em agosto deste ano.

Depois do francês, o segundo treinador mais longevo na primeira divisão inglesa é Eddie Howe, do Bournemouth, desde outubro de 2012 no clube. E vale pontuar que esta é apenas a primeira temporada da equipe na elite do futebol inglês, o que significa dizer que Howe ainda não passou tempo suficiente pelas pressões exercidas na Premier League, o que só deve aumentar a partir de 2016/17, quando o dinheiro do novo acordo pelos direitos de televisão chegar (isso, é claro, se o Bournemouth conseguir se manter na primeira divisão).
A demissão de José Mourinho, nesta temporada, foi um bom exemplo do pensamento corrente em relação a técnicos na Premier League. O português era ídolo no clube, respaldado pela diretoria, adorado pelos torcedores mesmo em meio a uma crise técnica e ainda assim perdeu o emprego, prejudicado pelo mau relacionamento com alguns atletas e, claro, pela falta de resultados na segunda metade do ano passado.
Em novembro, Manuel Pellegrini criticou a mudança na cultura do futebol inglês. “Há muitos anos na Inglaterra, a maioria dos clubes na Premier League tinha paciência com os seus treinadores. Isso está mudando. E não apenas para os técnicos jovens. É difícil para todos os técnicos. Quanto mais tempo você fica no clube, melhor é para o técnico e para o clube. Ter um técnico como Arsène Wenger, do modo como ele trabalha por um longo tempo, isso significa que o clube irá melhorar”, argumentou o chileno. Pelo menos por enquanto, a reversão desse quadro parece difícil, e os efeitos da mudança de paradigma só poderão ser observados com maior precisão daqui a muitos anos. Enquanto isso, os técnicos seguem trabalhando com uma pressão enorme por resultados, e essa circunstância pode ter seu próprio efeito.



