Por que contratação de Igor Thiago foi ‘fora de rota’ de sensação da Premier League
Atacante brasileiro mantém legado bem-sucedido de artilheiros no clube e reforça a importância da estabilidade
Não é fácil para um jogador estrangeiro se destacar na Premier League. Rotina, aspectos culturais e talvez até o idioma podem ser barreiras no dia a dia e interferir no campo. As coisas são muito distintas, mas Igor Thiago já havia enfrentado processo de adaptação a novos países duas vezes e não preocupou tanto o Brentford neste sentido.
Aliás, esse foi um dos pontos considerados na decisão do clube inglês de “mudar a rota” na contratação do brasileiro. A equipe que sempre buscava atacantes em divisões inferiores da Inglaterra (vide Ollie Watkins e Ivan Toney) ou na França (a exemplo de Wissa e Mbeumo) decidiu aplicar 33 milhões de euros para tirar Igor Thiago do Club Brugge.
O jogador revelado pelo Cruzeiro desembarcou na Bélgica depois de defender o Ludogorets, da Bulgária.
A quantia investida pelo Brentford tem valido a pena. Nesta quarta-feira (7), ele marcou duas vezes na vitória contra o Sunderland e se tornou o brasileiro que mais balançou as redes em uma temporada de Premier League, com 16 gols.
Anteriormente, o recorde era detido por Roberto Frimino (2017/18, Liverpool), Gabriel Martinelli (2022/23, Arsenal) e Matheus Cunha (2024/25, Wolves), com 15 gols em uma temporada da competição.
Metodologia do Brentford ajuda Igor Thiago a se destacar
O desempenho não seria possível sem um “alinhamento perfeito”. Igor Thiago chegou ao Brentford em julho de 2024 e teve seu primeiro ciclo marcado por lesões. Fez apenas oito jogos e não contribuiu em gols no período.
O Brentford não ficou no prejuízo. Wissa e Mbeumo estavam no time e se encarregavam de ajudar nos tentos. Somados, os jogadores balançaram as redes 40 vezes pela equipe em 2024/25.
Nesta temporada, a dupla se despediu dos Bees, e então a melhor escola para lançar centroavantes na Premier League fez mais um aluno notável.
Igor Thiago superou os problemas físicos e se tornou um dos protagonistas de Keith Andrews graças à metodologia em vigor no Gtech Community Stadium.

O Brentford passou 74 anos fora da elite inglesa e só retornou na campanha 2021/22. Ivan Toney sucedeu Neal Maupay e Ollie Watkins e era o jogador da posição na época. Anotou 12 gols na competição.
Na temporada seguinte, foi o terceiro maior artilheiro da Premier League com 20 tentos, superando atletas como Mohamed Salah (19), Callum Wilson (18) e Watkins (15). Só perdeu para Haaland (36) e Harry Kane (30).
Toney foi suspenso no ciclo seguinte por violar 232 regras referentes a apostas e voltou aos gramados em janeiro de 2024. Àquela altura, a escola do Brentford já estava preparada com Wissa e Mbeumo.
O congolês foi responsável por marcar 12 gols dos Bees e seguido de perto pelo vice-artilheiro da ocasião, o camaronês que somou nove.
Mbeumo foi ainda melhor em 2024/25, ao balançar as redes 20 vezes. Seu então colega, Wissa, fez 19.
O sucesso de Igor Thiago mostra, portanto, que o Brentford tem alguns fatores que ajudam seus atacantes a prosperar. O “The Athletic” atribui isso a duas características.
A primeira é a estabilidade do clube. Thomas Frank comandou a equipe entre 2018 e 2025 depois de passar quase dois anos como auxiliar técnico (entre 2016 e 2018). Ele foi sucedido no cargo principal por Keith Andrews, que também era assistente no time.
As mexidas caseiras propiciam que táticas e exigências já sejam familiares aos jogadores. Além disso, rostos conhecidos colaboram na manutenção dos vínculos.
No caso de Igor Thiago, a ligação com Andrews foi fundamental. O treinador ressaltou que sempre fazia o possível para incluir o brasileiro nos treinos que preparava enquanto auxiliar na campanha passada, quando o camisa 9 ainda estava lesionado.
— Em clubes maiores com mais elenco e mais jogos, isso seria menos possível, e a competição por vagas seria mais brutal — salientou o jornalista Liam Tharme no artigo do “The Athletic”.

Isso também proporcionou a Igor Thiago aprender com Wissa e Mbeumo da mesma forma que a dupla teve Toney como professor, reforçando o modelo de sucesso do Brentford.
O segundo fator diferencial é o estilo. Andrews tem características semelhantes às de Frank, que são focadas em jogar em torno do atacante. O jornalista enfatizou que o trabalho sem bola de Igor Thiago é menor neste caso, o que justificaria ele ter mais cortes do que desarmes e interceptações, por exemplo.
O estilo contribui ainda para que o jogador mantenha mais energia e possa usar e abusar de um de seus principais atributos: a versatilidade.
Zagueiro e capitão do Brentford, Nathan Collins destacou isso ao afirmar na “BBC Sport” que o brasileiro é “difícil de marcar” e “tem um pouco de tudo”
— Ele é um dos jogadores mais trabalhadores que eu já vi e merece tudo o que conquista — disse ele.
A declaração ocorreu depois do jogo contra o Everton, marcado por um hat-trick do ex-Cruzeiro. A partida decretou o fim do jejum de seis jogos do camisa 9 sem balançar as redes.
Com o apoio interno e a metodologia eficaz, Igor Thiago segue à caça de Haaland no topo da lista de artilheiros da Premier League enquanto ajuda o clube a se manter bem na primeira divisão. Além disso, está no radar de Carlo Ancelotti na seleção brasileira.



