Inglaterra

Há 20 anos, o Newcastle abria 12 pontos na ponta da Premier League. E, ainda assim, perdeu

A atual temporada da Premier League anda imprevisível como poucas vezes nas últimas décadas. O dinheiro da televisão ajudou os clubes médios a aumentarem suas forças, enquanto os favoritos à taça se mantiveram no mesmo patamar ou até caíram de nível. Equilíbrio que resulta em poucos pontos de diferença. Há 20 anos, entretanto, a tabela indicava um cenário praticamente definido em janeiro. O Newcastle abria 12 pontos de vantagem sobre o Manchester United, segundo colocado, e já era proclamado como virtual campeão. Ledo engano. Aquele campeonato terminou com uma das maiores reviravoltas do futebol europeu.

Em 20 de janeiro, o Newcastle impôs a confortável diferença na primeira colocação. Venceu o Bolton por 2 a 1, com um jogo a mais que o Manchester United. E vinha de campanha impressionante nas 23 rodadas anteriores: os Magpies haviam vencido 17 jogos e perdido apenas três. Mesmo a derrota para os Red Devils três semanas antes, com gols de Roy Keane e Andy Cole, não tirou o sono dos líderes. O sonho do título era concreto em St. James’ Park, com o clube que não levantava a taça da liga desde 1927.

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Não apenas pela forma, a confiança do Newcastle se justificava pelo grande time que Kevin Keegan possuía sob o seu comando. Les Ferdinand voava no ataque, bem acompanhado por Rob Lee, Peter Beadsley e David Ginola. E as expectativas cresciam ainda mais, diante das negociações avançadas por Faustino Asprilla, ídolo do Parma e referência da seleção colombiana. Manter a dianteira larga em mais 15 rodadas parecia apenas protocolo aos Magpies. Por mais que Liverpool e Manchester United também contassem com os seus predicados, tirar a diferença não dependia apenas das próprias forças.

Entretanto, a fase fantástica do Newcastle logo desapareceu. A partir de abril, os alvinegros emendaram uma sequência de apenas duas vitórias em oito rodadas. O suficiente para que o Manchester United engolisse os concorrentes. Sir Alex Ferguson tinha aos seus cuidados um timaço, da defesa ao ataque: Schmeichel, Irwin, Steve Bruce, Roy Keane, Beckham, Giggs, Andy Cole. E o artilheiro Cantona. De volta ao time em outubro, após cumprir suspensão pela famosa voadora no torcedor do Crystal Palace, o craque francês viveu um dos melhores semestres de sua carreira, fundamental na arrancada dos Red Devils. A partir de 21 de janeiro, anotou 14 gols em 20 partidas. Inclusive o que decidiu o confronto direto com o Newcastle, em março, deixando o United a um ponto dos ainda líderes – em noite na qual Schmeichel também fechou o gol.

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A virada na tabela se consumou três rodadas depois, quando o Arsenal derrotou o Newcastle por 2 a 0. E o que se viu, a partir de então, foi uma tentativa em vão dos alvinegros de voltar ao topo. Ferguson questionou publicamente o nível de motivação dos Magpies. Acabou respondido no ar por Kevin Keegan, antes da última rodada. O técnico do Newcastle que “adoraria superá-lo”. Não aconteceu. O United venceu o Middlesbrough por 3 a 0 e terminou com quatro pontos de vantagem, depois que o Newcastle só empatou com o Tottenham por 1 a 1. Virou piada. Naquela temporada, os Red Devils ainda levariam a dobradinha nacional, vencendo o Liverpool por 1 a 0 na final da Copa da Inglaterra. Mais uma vez, com um gol decisivo de Cantona.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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