Gota d’água para aposentadoria precoce de Agger foi clássico em que jogou dopado
Certamente se você acompanhou a Premier League entre 2006 e 2014 lembra de Daniel Agger. Ou, pelo menos, de seu nome. Embora o dinamarquês tenha ficado no Liverpool por oito temporadas, apenas na primeira foi titular absoluto. E não por falta de qualidade. Agger tem 31 anos de idade e há dois meses abandonou a braçadeira de capitão da seleção dinamarquesa e os gramados. De vez. Com 31 anos. Não por falta de vontade. Os problemas físicos os quais o zagueiro tenta driblar há muito tempo o impediram de ser melhor do que era. De seguir fazendo aquilo que ele gostava. E quando o corpo pede trégua, não há como continuar. Muito embora ele tenha insistido e persistido por diversas vezes. E foi sobre isso que ele falou em entrevista ao jornal dinamarquês Jyllands-Posten. Além de ter aproveitado para falar sobre seus treinadores no tempo em que Anfield foi sua segunda casa.
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Revelado pelo Brondby, time da Dinamarca, Agger era um beque de alta mobilidade e muita segurança. Um bom zagueiro. Sua primeira temporada no Liverpool, em 2006/2007, foi a única em que ele esteve fisicamente inteiro. Foi, também, a única que foi titular incontestável nos Reds de Rafa Benítez, tendo jogado 43 jogos e, inclusive, a final da Champions League, contra o Milan. Agger era apontado como o sucessor de Sami Hyypia quando o treinador espanhol solicitou sua contratação. Mas as frequentes contusões o propiciaram períodos insustentáveis para começar jogando. Aliás, para continuar jogando. No entanto, o motivo pelo qual o defensor deixou o clube inglês foi um pequeno conflito que teve com o técnico Brendan Rodgers em 2013/14, sua última temporada no Liverpool. Segundo o dinamarquês, havia uma distância muito grande entre os dois e não havia mais clima para continuar. Depois de 232 jogos com a camisa vermelha, voltou para o Brondby.
Mesmo lá, as lesões continuaram a persegui-lo. Agger sofre da síndrome de hipermobilidade articular, a qual acomete pessoas que têm ligamentos e estruturas articulares frouxos. Ou seja, a pessoa que tem essa síndrome está mais propensa a movimentos inadvertidos e corre maior risco de contusões como distensões e luxações. Mas o jogador não queria reconhecer os limites de seu próprio corpo. Diversas vezes quando lesionava, o zagueiro não se dava por vencido. Não ia para o departamento médico aceitando que aquela era sua condição. Na maioria das vezes, se empanturrava de anti-inflamatórios e outros medicamentos para controlar as fortes dores que sentia. Treinava e jogava literalmente dopado. Tudo isso para saciar sua vontade de estar em campo. Teve um episódio que Agger revelou ao veículo dinamarquês em que sua vida foi colocada em risco em função do uso excessivo de remédios. Ele poderia ter morrido de overdose.
Uma semana antes de um clássico contra o Copenhague, em 2015, o defensor sofreu uma lesão que o colocou como dúvida para a partida. Desesperado para jogar, Agger extrapolou na dose do medicamento que lhe foi indicado para ir ao jogo. O efeito colateral do excesso do remédio o deixou letárgico, sem qualquer possibilidade de exercer a atividade que fosse. Mas ele passou por cima das consequências enchendo seu corpo de cafeína. E foi para a partida. Antes de chegar ao estádio, Daniel dormiu durante todo o trajeto. Teve de ser acordado por seu companheiro de equipe Martin Ornskov, quem o falou, mais tarde, que nunca tinha visto nada como aquilo antes de um confronto. Ainda sonolento e faltando pouco para a bola rolar, Agger tomou mais pílulas de cafeína e alguns energéticos. Entrou em campo totalmente fora de si. “Era como se minha visão não estivesse sincronizada com o que estava acontecendo a minha volta”, contou. Não durou nem meia hora no gramado.
Esse acontecimento foi a gota d’água. Todos seus colegas de time perceberam. Sua esposa ficou furiosa e muito preocupada. Agger, enfim, reconheceu suas limitações. Aceitou que se sacrificar para estar em campo colocava em risco não só sua saúde, como também o desempenho de sua equipe. Seu corpo foi gradualmente se quebrando, lesão após lesão. Há dois meses, com uma idade abaixo da média com a qual jogadores costumam se aposentar, o dinamarquês anunciou que não jogaria mais futebol. A verdade é que ele nunca deveria ter comprometido sua saúde física e mental dessa maneira. Agora, ele convive com problemas na coluna, dores constantes e estima que era capaz de realizar apenas 70% ou 80% de sua capacidade durante suas duas últimas temporadas no Liverpool e em um nível ainda mais baixo no Brondby. Além de suas duras condições físicas, Agger falou sobre quase ter ido parar no rival de Liverpool e seus técnicos enquanto jogador dos Reds.
Sobre quase ter ido jogar no Everton
“David Moyes perguntou para mim e meus pais se ele poderia nos encontrar depois de um jogo do Brondby ao qual ele foi assistir. Lógico que nós concordamos. Depois da partida, eu encontrei meus pais e esperei ele e Per Steffensen [seu empresário] chegarem. Mas Per me ligou para dizer que Moyes não me encontraria mais. Ele estava voltando ao aeroporto porque achava que eu não estava preparado para a Premier League. Poucos meses depois eu assinei com o Liverpool”.
Rafa Benítez
“Ele foi, sem dúvidas, o melhor técnico na parte tática que me comandou. Ele poderia mudar a formação e a tática três vezes em um único jogo. Nós praticávamos os diferentes sistemas que ele propunha, então nós sabíamos o que fazer em cada um. Também me lembro quando nós perdíamos por 1 a 0 do Barcelona no Camp Nou. Benítez estava lá [empurrando suas mãos para baixo como se estivesse dizendo “vamos manter a calma”]. Alguns de nós estávamos um pouco em pânico e pensávamos que tomaríamos um chute no traseiro, mas o treinador foi muito legal. Ele apenas ficou lá na linha dizendo: “vamos com calma, continuem o que estão fazendo”. E, no final, vencemos por 2 a 1, de virada”.
Roy Hodgson
“Eu perdi completamente a vontade de trabalhar porque seus treinamentos eram muito difíceis de aguentar. Não fisicamente, mas mentalmente. Era sempre a mesma coisa. Dia após dia. Geralmente eram oito atacantes jogando contra mim e Martin Skrtel [aparentemente para deixar Fernando Torres marcar e reconquistar sua confiança]. Meu treino e do Skrtel era muito pesado, porque estávamos em dois e tínhamos que marcar oito jogadores, enquanto eles só ficavam tocando a bola. Eles mal corriam um quilômetro. Isso era bem desestimulante”.
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