Inglaterra

Futebol total?

Guus Hiddink parecia a escolha lógica para o Chelsea logo após Avram Grant ser demitido. O holandês poderia dividir as atenções entre o clube londrino e a Rússia – ele já fizera isso com Austrália e PSV, duas equipes com sedes muito mais distantes geograficamente – e já tinha forte ligação com Roman Abramovich, que pagava metade de seu salário na seleção eslava. O dirigente acabou preferindo Felipão, mas, com a saída do brasileiro, o neerlandês foi novamente lembrado. E, dessa vez, assinou o contrato.

Logo em sua apresentação, Hiddink disse que o Chelsea ainda sonha com o título da Liga dos Campeões e do Campeonato Inglês. Para isso, o técnico precisa rapídamente impor seu trabalho e dar um padrão de jogo à equipe. Mas, considerando o histórico do holandês, o que se pode esperar?

Hiddink não foge à sua origem ao montar seus times. A preferência clara é por equipes que atuem de modo compacto, com movimentações em bloco quando possível e setores do campo (defesa, meio-campo e ataque) sem definição tão clara. A posse de bola também é valorizada, como modo de impor ao jogo seu ritmo, ao invés de se pautar pelo do adversário. Como comandante de um grupo, ele mostrou ter alguma habilidade ao levar uma seleção holandesa rachada entre brancos e negros às semifinais da Copa de 1998.

A vantagem do técnico holandês é que ele não costuma adotar uma mesma estratégia às suas equipes. Dentro do possível, ele adapta a formação de modo que use a maior quantidade de talentos. No entanto, isso era quase uma obrigação em times com limitação técnica, casos de Coreia do Sul, PSV, Austrália e Rússia. Nos Blues, é possível montar um 11 forte com talentos no banco.

Se o treinador se mantiver fiel a seu estilo, dá para imaginar um Chelsea que tem como centro nervoso o talento de seus meio-campistas mais versáteis, como Lampard e Essien (que não deve demorar mais tanto tempo para retornar de contusão). Como modo de aumentar a marcação na saída de bola do adversário, Drogba pode ganhar um companheiro no ataque, mas Anelka não seria o principal candidato pela falta de velocidade.

Tudo muito bonito, mas esse Chelsea precisaria de muito tempo de preparação, não apenas para ganhar entrosamento, mas também para dar aos jogadores o preparo físico exigido para tamanha compactação e para aparar as rusgas internas no clube. E, chegando à reta final da temporada, tempo de treino é o que Hiddink menos terá à disposição.

Considerando essas circunstâncias, o holandês pode partir para uma solução mais simples. Uma possibilidade seria recolocar a equipe em um esquema de posições bem definidas, que facilitem a compreensão imediata dos jogadores, e criar nuances aos poucos. Outra opção é, de cara, dar mais espaço para o elenco opinar – como ocorreu na temporada passada, com Avram Grant – e apenas depois ir colocando seu estilo.

Com seu currículo, ele é respeitado na Europa e talvez desperte menos desconfiança de jogadores, torcedores e imprensa que Felipão. Isso pode lhe dar alguma tranquilidade para trabalhar, até porque o momento mais duro da temporada – o impacto inicial da crise e a percepção de que o Chelsea pode se apequenar em longo prazo – foi vivido pelo brasileiro. O problema é que, mesmo assim, Hiddink tem pouco tempo. Ainda mais se quiser fazer um time com a sua cara.

Medo dos dois lados; prejuízo só do Celtic

A temporada 2008/09 no futebol escocês é das mais melancólicas. O Rangers foi eliminado na segunda fase preliminar da Liga dos Campeões pelo fragilíssimo Kaunas, da Lituânia. O Celtic ficou na última posição em um grupo que tinha o Aalborg. Com esse desempenho, nenhum dos dois teve o direito de jogar a Copa Uefa. No Campeonato Escocês, ambos colecionam decepções e a briga pelo título está tão equilibrada quanto fraca.

Toda essa carga negativa foi vista no dérbi de Glasgow deste domingo. O jogo que reuniu líder e vice-líder, separados por apenas dois pontos, deveria ter a busca pela vitória como prioridade. Não foi assim. Dois times inseguros colocaram a preocupação em não perder acima de tudo. E praticamente não houve futebol.

Os Bhoys forma melhores no primeiro tempo, mas os Gers reagiram e tiveram ligeiro domínio depois do intervalo. No geral, houve poucas oportunidades de gols para os dois lados e a torcida – predominantemente do Celtic, time da casa – vaiou os jogadores após o apito final.

Quem saiu perdendo, no fundo, foi o Celtic. Apesar de ter mantido a liderança, os alviverdes perderam a oportunidade de usar sua torcida para recolocar a diferença em cinco pontos. É fundamental manter essa vantagem em mais de uma vitória porque ainda há uma quarta edição do clássico de Old Firm na temporada, e este será na casa do Rangers. Além disso, um eventual empate em pontos dá, por enquanto, folgada vantagem aos azuis no saldo de gols (hoje está em 35 a 27).

Para quem gosta apenas de emoção, o Campeonato Escocês parece que terá um final emocionante, com os dois times brigando rodada a rodada e tendo uma quantidade razoável de tropeços pelo caminho (o que sempre aumenta a incerteza). No entanto, esse equilíbrio apenas será um raro lado positivo de uma temporada melancólica, com times inseguros e em mau momento.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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