InglaterraPremier League

Fim da megalomania?

A abertura da janela de transferências entra em sua reta final, restando quatro semanas para que o prazo dos clubes ingleses para novas contratações se encerre. E, até o momento, chama atenção a sonolência do Manchester City no mercado. Depois de € 580 milhões de euros torrados nas últimas quatro temporadas, o clube ainda não gastou nenhum centavo em reforços. Até o momento, as únicas novidades no elenco são Roque Santa Cruz e John Guidetti, que estavam emprestados, retornaram e ainda não se sabe se continuarão.

Apesar da falta de ação, é difícil imaginar que os Citizens sigam zerados até 31 de agosto. As especulações acontecem e, como se sabe, dinheiro não é problema para o Abu Dhabi United Group. Entretanto, a situação atual também ajuda indicar um rito de passagem dentro do Etihad Stadium. Se entre 2008 e 2011 os montantes foram empregados em um projeto megalomaníaco, o título inglês faz o clube apostar na continuidade.

Obviamente, a gastança ajudou o City a contar com um elenco muito acima dos rivais na Inglaterra. Para se ter uma ideia, o valor de mercado médio de cada atleta do clube é de € 19 milhões. O concorrente a chegar mais próximo desse número é o Manchester United, com média de € 15,3 milhões. Provas do investimento feito pelos donos, mas também da valorização com o título no último Campeonato Inglês, estimada em € 30 milhões.

Para a próxima temporada, o bicampeonato na Premier League é um dos objetivos, embora o principal alvo deverá ser o sucesso na Liga das Campeões. A taça pode até não vir, mas uma campanha pelo menos até as semifinais – com algum tradicional ficando pelo caminho, de preferência – já será bem-vinda.

E o que poderá fazer a diferença em relação ao desastre registrado em 2011/12 é exatamente o conhecimento que Roberto Mancini terá sobre seu grupo. Será essencial que a equipe saiba dosar forças entre a EPL e a competição continental, ao menos para uma passagem segura pela primeira fase. Além disso, o Man City terá que ter uma mentalidade própria para os jogos fora de casa na Champions, que tiveram papel central na derrocada do clube na última edição do torneio.

Entre as ações no mercado, os Citizens deverão ser pontuais. Pensando no elenco que Roberto Mancini tem atualmente em mãos, as principais necessidades são mais para compor elenco do que propriamente para ganhar efetivamente um espaço entre os titulares. Um reserva confiável para Kompany e Lescott deveria estar entre as prioridades, assim como um meia que não deixasse o clube dependente do estado de espírito de Nasri.

Outra alternativa que deveria ser pensada é a chegada de um novo volante. Com um cabeça de área mais confiável que Nigel De Jong, Yaya Touré poderia ser utilizado com mais frequência como meia central, posição em que rendeu demais na reta final da Premier League. Um dos nomes aventados pela imprensa inglesa é o de Daniele De Rossi, mas a saída do meio-campista da Roma, por enquanto, parece remota.

Já a especulação mais quente é sobre a compra de Robin van Persie. Nesta segunda-feira, Roberto Mancini afirmou que não imagina que o holandês seja contratado nas próximas semanas. Para que o negócio seja viabilizado, contudo, o clube deverá se desfazer de um dos atacantes que já possui.

A chegada de van Persie, em tese, minimizaria um dos maiores entraves do clube no final da temporada. Pelo que demonstrou com o Arsenal nos últimos meses, o atacante não tem problemas para chamar a responsabilidade e decidir partidas difíceis – o que faltou no City, especialmente em meados do segundo turno. Além disso, o estilo de jogo não impediria o holandês de atuar ao lado de Sergio Agüero, unanimidade no setor.

Resta saber quem pagaria pela chegada de van Persie. Por mais encrencas que arrume, Tevez reconquistou seu espaço na reta final da EPL e continua com papel central na dinâmica do grupo. Já Mario Balotelli deverá reivindicar ainda mais espaço com a boa participação na Euro. Edin Dzeko, mesmo tendo características singulares em comparação com seus concorrentes, é quem está mais próximo da porta de saída.

E, de qualquer maneira, van Persie poderá trazer mais um problema para Roberto Mancini gerir os egos em seu elenco – o que, convenhamos, foi sua fraqueza ao longo de sua última temporada. Caberá ao treinador avaliar o que vale mais: trabalhar com o grupo que tem em mãos ou ganhar um talento extra, mas colocando em risco o início da temporada ao reorganizar o time com a chegada do melhor jogador do último Campeonato Inglês.

Curtas

– A seleção britânica caiu antes do esperado nos Jogos Olímpicos. Após um início ruim, o time até melhorou na segunda etapa, mas perdeu chances demais. Já na disputa por pênaltis, Sturridge, que não vinha bem no jogo, desperdiçou sua cobrança e consumou a eliminação.

– Entre os mais jovens, Joe Allen, Scott Sinclair e Jack Butland (apesar da falha contra a Coreia) deixaram o torneio bem cotados. Quanto aos veteranos, Craig Bellamy mostrou que ainda tem gás para ser um jogador útil e Micah Richards saiu-se bem como zagueiro.

– Já Giggs, a estrela da companhia, foi o líder que se esperava, embora as condições físicas não tenham ajudado. O papel do veterano poderá ajudar a fazer uma ponte com a FA após a aposentadoria no Manchester United.

– Somando três derrotas consecutivas na pré-temporada, o Chelsea deverá gastar ainda mais em novos reforços. A questão, porém, não deve estar em quem joga. Roberto Di Matteo deverá encontrar o encaixe do elenco com uma motivação diferente para uma temporada completa – o que promete não ser tão simples.

– De uma maneira geral, a última semana no mercado de transferências foi pouco movimentada. As únicas novidades de maior relevância foram Steven Pienaar em definitivo no Everton, além de Ron Vlaar no Aston Villa.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo