Inglaterra

Faltou uma margem de erro

O Arsenal joga, sem dúvida, o futebol mais atraente da Premier League. O time de Arsène Wenger também tem um amplo estoque de talento no elenco. Mesmo tendo vendido Henry, a equipe liderou o Campeonato Inglês por um bom tempo e foi uma das gratas surpresas da primeira metade da temporada. Mas depois da derrota para o Manchester United no último fim de semana, ficou claro que, pela terceira vez seguida, os Gunners vão terminar a temporada de mãos vazias.

Quem é o culpado pelo ‘fracasso’ (entre aspas porque o resultado final da temporada não ficou abaixo do que era esperado no começo do campeonato)? Naturalmente, a tendência é apontar o dedo para o técnico Arsène Wenger e sua convicção quase religiosa de que deve manter um estilo de jogo bonito.

Sim, Wenger tem culpa pelo Arsenal não ganhar títulos há três anos. Mas isso não tem nada a ver com a maneira de seu time jogar – até porque os Gunners mostraram suficiente pragmatismo em diversos momentos importantes, principalmente no começo da temporada. O erro do francês aconteceu na montagem do elenco para esta temporada.

Quando se monta um projeto – seja no futebol, seja em outras áreas – é muito importante levar em consideração os riscos, ou seja, tudo o que pode dar errado. E Wenger não fez isso. Ele montou um time muito bom, com talento de sobra para brigar por títulos. Mas não contou que, durante uma temporada longa, essa equipe sofreria com contusões e que, além disso, seus principais astros precisariam de um descanso em alguns momentos.

Por exemplo, a contusão de Eduardo da Silva, no fim de fevereiro, prejudicou muito a equipe. O croata não chegava a ser titular, mas quando saiu de ação reduziu a zero as opções a Adebayor no ataque. Problema parecido aconteceu com as contusões de Hleb e Rosicky ao longo da temporada – e, mais recentemente, com Sagna. Com isso, os jogadores que não se machucaram, como por exemplo o astro Fàbregas, foram submetidos a uma carga excessiva de jogos e viram seu desempenho cair.

Sabendo disso, dá para entender por que o Arsenal chegou a fevereiro com cinco pontos de vantagem na liderança do Campeonato Inglês e depois despencou. Nas primeiras 41 partidas da temporada, os Gunners tiveram aproveitamento de quase 80% (30V, 8E, 3D). Nas últimas 13, foram pífios 33% (2V, 7E, 4D).

Mais do que a queda na Liga dos Campeões ou a derrota para o Manchester United no último fim de semana, o momento que marcou a virada para baixo na temporada dos Gunners aconteceu em fevereiro. E, curiosamente, foi na FA Cup, competição que não era importante para a equipe. Com um time misto, o Arsenal foi goleado pelo Manchester United por 4 a 0 – a segunda goleada frente a um rival em menos de um mês, já que o time havia levado 5 a 1 do Tottenham na League Cup. O vexame, seguido pela horrível contusão de Eduardo uma semana depois, acabou com o bom momento psicológico da equipe, que não se recuperou mais.

Agora, as perspectivas para o Arsenal são as menos animadoras dos últimos dez anos. Wenger ainda tem muito crédito com torcida e diretoria, mas precisa ganhar alguma coisa na temporada que vem. O que surpreende é, depois de todos os problemas enfrentados neste ano, o técnico insistir em dizer que só vai fazer uma contratação neste verão europeu. Isso é mais grave ainda porque o time corre o risco de perder vários jogadores, entre os quais Lehmann, Gilberto Silva, Senderos, Hleb, Flamini e até Fàbregas. Num elenco carente de opções, qualquer saída faz falta – pior ainda quando se trata de nomes chave, como os três últimos da lista.

O técnico francês fez um excelente trabalho levando o Arsenal até aqui gastando relativamente pouco em contratações. Mas agora ele precisa perder o medo de abrir a carteira e aproveitar a receita extra gerada pelo novo estádio do clube para contratar jogadores. Mais do que craques, faltam nomes para ‘compor o elenco’, ou seja, jogadores que não são astros, mas conseguem segurar a onda para dar um descanso aos titulares nos jogos mais fáceis. Melhor ainda se esses reforços forem nomes experientes, com vários títulos no currículo – coisa que também vem fazendo falta desde a saída de nomes como Bergkamp, Campbell e Vieira.

Não custa lembrar que, nesta temporada, o Arsenal não deu azar com as contusões. O número de jogadores machucados ficou dentro da média. O que aconteceu é que o time não teve a mesma sorte de 2003/4, quando praticamente ninguém se contundiu seriamente. Se Arsène Wenger continuar esperando uma temporada ‘limpa’ como aquela para voltar a ganhar títulos, corre o risco de esgotar a paciência da torcida e da diretoria.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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