Estêvão está certo em estar incomodado no Chelsea? Avaliamos
Joia brasileira perdeu espaço no início da temporada com Xabi Alonso e vive um dilema que envolve jogador, treinador e clube
Quando Carlo Ancelotti foi acompanhar o Chelsea no Stamford Bridge, não imaginava que precisaria procurar Estêvão no banco. Destaque no primeiro ano do italiano na seleção brasileira, o jovem foi convocado na primeira lista pós-Copa do Mundo. Mesmo quase sumido do time de Xabi Alonso.
Quatro meses antes, o brasileiro terminava sua primeira temporada na Inglaterra em alta. Agora, aos 19 anos, começa o segundo ano no país tentando descobrir onde exatamente cabe no novo Chelsea. O cenário não é de ruptura, mas é incômodo.
Estêvão disputou apenas 18 minutos nas três primeiras rodadas da Premier League, sempre saindo do banco, e sequer entrou na vitória sobre o Brighton. Foi titular na Copa da Liga, o “torneio dos reservas”, mas saiu no intervalo. Seu dilema parece ir além da dualidade entre jogar como ala ou camisa 10 — pode ir até a promessas quebradas pelo clube.
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A polêmica sobre onde Estêvão deveria jogar no Chelsea
Ter 18 minutos em três jogos é pouco para alguém que, na temporada anterior, disputou 36 partidas, foi titular em 20, e participou de 11 gols. Foi, inclusive, o maior artilheiro adolescente do clube em uma temporada na era Premier League.
Mas a questão mais importante não é apenas por que Estêvão não joga. É onde ele deveria jogar. Neste momento, existem dois caminhos:
- aceitar virar ala, disputar espaço com Pedro Neto e provar que consegue ser mais do que um meia criativo;
- ou esperar uma oportunidade por dentro, justamente onde ele e seu estafe acreditam que está o futuro de sua carreira.
O problema é que, no Chelsea atual, o caminho pelo meio passa por dois intocáveis: Cole Palmer e Morgan Rogers. E isso transforma a situação de Estêvão em um problema que não é exclusivamente dele.
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Em março de 2025, meses antes da transferência ser concluída, André Cury, seu agente, explicou por que o Chelsea havia vencido a disputa pelo jogador do Palmeiras: foram os únicos que viam Estêvão como camisa 10. Segundo o empresário, isso foi determinante para o projeto de carreira que ele e o jogador imaginavam.
Cury defendia que colocar Estêvão permanentemente aberto restringiria seu repertório. O garoto havia crescido jogando como meio-campista nas categorias de base e, embora tenha explodido no profissional pela direita, seu entorno continuava enxergando nele características de um camisa 10: capacidade de receber entre linhas, condução, drible curto, último passe e, principalmente, liberdade para aparecer em diferentes regiões do campo.
Isso reflete no incômodo atual. Não porque o Chelsea tenha necessariamente quebrado uma promessa formal — afinal, não há evidência pública de que o clube tenha garantido contratualmente que Estêvão seria titular ou que atuaria exclusivamente pelo meio. Mas houve, sim, uma expectativa criada no processo de contratação.
O Chelsea se apresentou como quem via Estêvão de uma maneira diferente dos concorrentes. O clube não estava apenas comprando o ponta-direita do Palmeiras, mas um jogador que poderia evoluir para ocupar uma função mais central. E é aí que a chegada de Xabi Alonso muda a história.
Xabi Alonso parece gostar de Estêvão, o problema é outro
É fácil simplificar a história: de um lado, Estêvão, o talento brasileiro; do outro, Xabi Alonso, o treinador que insiste em deixá-lo no banco. Os acontecimentos recentes não sustentam uma leitura tão simples.
Alonso fez questão de defender publicamente o brasileiro. Depois da derrota para o Arsenal, o técnico afirmou que Estêvão está “totalmente envolvido”, elogiou sua atitude diária e disse que conta 100% com o jogador. Mas há uma clara barreira: a forma como ele dispõe o time.
O sistema preferido de Alonso tem dois meias atrás do centroavante. O 3-4-2-1 do treinador forma um quadrado no meio-campo: dois volantes e dois meias entrelinhas, responsáveis por receber entre setores com liberdade. Foi justamente por isso que Morgan Rogers se tornou uma contratação tão importante.
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Ele é esse meia ofensivo atrás do atacante, carregando a bola, quebrando linhas e atacando espaços. Rogers custou 117 milhões de libras, tornando-se a contratação britânica mais cara da história. A situação pode ser resumida de maneira cruel: Estêvão quer jogar justamente onde o Chelsea tem duas das suas peças mais valiosas. Cole Palmer ocupa naturalmente um dos espaços de criação. Rogers foi contratado para ocupar o outro.
A ideia já apareceu no início da temporada. Palmer e Rogers são os dois jogadores posicionados por trás do atacante no desenho ofensivo, enquanto a amplitude é entregue aos alas. Eles foram escolhidos porque oferecem características diferentes: Palmer tem capacidade de organizar e encontrar passes no último terço; Rogers acrescenta condução, força física e capacidade de romper linhas carregando a bola.
O Chelsea quer que os dois convivam. A amizade entre os dois, construída desde as seleções de base da Inglaterra, também ajudou a tornar a parceria um dos elementos centrais do projeto. E os primeiros sinais foram positivos.
Estêvão, nesse cenário, não está simplesmente atrás de um jogador, mas de uma estrutura. Para jogar como camisa 10, ele precisa tirar Palmer ou Rogers. E, neste momento, não há uma razão evidente para Alonso fazer isso.
De quem é a responsabilidade agora: Chelsea, Alonso ou Estêvão?
É tentador colocar o clube no papel de vilão e existe argumento para isso. O Chelsea sabia, quando contratou Estêvão, que havia uma expectativa em torno de seu desenvolvimento como meia. O empresário deixou isso público. O clube aceitou a narrativa e levou o brasileiro para Londres.
Só que aquele Chelsea não é exatamente o de hoje. Quando Estêvão escolheu o clube, o projeto esportivo tinha outro treinador e necessidades. Agora, Alonso construiu uma equipe com uma estrutura diferente. Dentro dela, a posição que Estêvão imaginava ocupar já está preenchida.
O Chelsea não contratou Rogers para bloquear Estêvão. Contratou Rogers porque acredita que é uma peça de altíssimo nível para o futebol de Alonso. O problema é que as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. O clube pode ter acreditado sinceramente no potencial de Estêvão como camisa 10 e, depois, concluído que precisava contratar outro jogador para aquela função.
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A pergunta, então, não é apenas se o Chelsea mentiu. É se o clube assumiu responsabilidade suficiente pela consequência de sua própria decisão. Porque, se Estêvão foi convencido a ir para Londres justamente pela possibilidade de se desenvolver por dentro, é legítimo perguntar se o Chelsea deveria ter planejado melhor a sucessão de posições antes de colocar 117 milhões de libras em outro jogador para o mesmo espaço.
Por outro lado, seria injusto ignorar que Estêvão ainda tem 19 anos e que o Chelsea não lhe deve uma titularidade automática. E existe um caminho que pode resolver parte do problema imediatamente: Estêvão pode tentar conquistar a ala direita.
Pedro Neto começou a temporada ocupando esse espaço e tem sido uma peça importante para Alonso. Mas o brasileiro tem uma vantagem que não pode ser ignorada: aberto, ele transforma a posição em outra coisa.
Estêvão não fica parado na linha lateral. Seu movimento característico é receber pela direita, trazer a bola para o meio, atacar o defensor e procurar a entrada na área ou o passe para quem aparece por dentro. No segundo jogo da temporada, contra o Luton pela Copa da Liga, Alonso chegou a utilizar um 4-2-3-1, e Estêvão atuou pela direita justamente com liberdade para entrar por dentro.
O problema é que, para Alonso, a posição também exige trabalho sem bola. E, quando o desenho vira uma estrutura com alas, a exigência física aumenta. João Paulo Sampaio, dirigente da base do Palmeiras que participou da formação de Estêvão, afirmou ao “The Athletic” que o jogador poderia cumprir essa função, mas lembra que ele nunca foi formado como ala e não tinha físico para isso.
E se Estêvão tiver que esperar?
O segundo caminho é mais difícil, mas talvez seja aquele que mais respeita o jogador que ele quer se tornar: Estêvão pode esperar. Uma lesão de Palmer ou Rogers, queda de rendimento ou mudança de sistema. A desvantagem é que o Chelsea não disputa competições europeias nesta temporada. Isso reduz consideravelmente o número de jogos e oportunidades naturais de rotação.
Seria simplista dizer que Alonso precisa “dar um jeito” de colocar Estêvão. Mas também concluir que, porque Palmer e Rogers funcionam, Estêvão precisa simplesmente aceitar ser reserva. Existe um espaço intermediário. Um Estêvão que parte da direita, cai por dentro, troca posições com Palmer, aparece entre linhas e, em determinados momentos, funciona quase como um terceiro meia. A questão é se Alonso está disposto a chegar até esse ponto.
Enquanto isso, Estêvão é um dos jogadores em quem o Brasil deposita suas expectativas para 2030. Carlo Ancelotti o convocou novamente para os amistosos contra Austrália e Índia e já deixou claro o tamanho da admiração que possui pelo atacante. Por isso, surgirá a pergunta se o cenário persistir: como um jogador tratado como uma das grandes esperanças da Seleção pode passar semanas no banco?
26 CONVOCADOS! 🇧🇷
A Seleção está pronta para novos desafios: dois jogos contra a Austrália e o primeiro confronto da história contra a Índia.
25/09 | Austrália
29/09 | Austrália
03/10 | ÍndiaISSO É BRASIL! 🇧🇷#BateNoPeito pic.twitter.com/Yht5SuOHjr
— brasil (@CBF_Futebol) September 9, 2026
A resposta, entretanto, não precisa ser que o Chelsea está desperdiçando Estêvão. Pode ser que o jogador esteja diante de seu primeiro grande desafio de adaptação na Europa. No fim, são três perguntas diferentes:
- Para Estêvão: vale mais a pena disputar uma posição que não ama ou esperar pela posição que acredita ser sua?
- Para o Chelsea: se realmente acreditou que Estêvão era um camisa 10, até onde está disposto a adaptar seu projeto para que ele tenha a oportunidade de provar isso?
- E para Alonso: um treinador de ideias fortes deve fazer o jogador se adaptar ao sistema ou adaptar o sistema ao jogador excepcional que tem nas mãos?
O início da temporada ainda não permite conclusões definitivas. Estêvão tem 19 anos, Alonso está construindo um novo Chelsea e o futebol raramente respeita os desenhos feitos no papel meses atrás.
Estêvão pode esperar que a porta do meio se abra. Pode tentar se esgueirar pela ponta. Ou pode descobrir, como tantos grandes jogadores antes dele, que a evolução da carreira passa justamente por aprender a ser aquilo que ainda não sabe se quer ser.