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Calma no olhar de Van Dijk esconde passado de dificuldades que forjaram o melhor zagueiro do mundo

A calma no olhar de Virgil van Dijk quando o adversário está com a bola faz parecer que seu trabalho é o mais simples do mundo. Isso está longe de ser verdade, mas é justamente esta serenidade que lhe permite tomar as melhores decisões e se destacar. E é também ela que faz o Liverpool ir à final da Champions League contra o Tottenham com um senso de segurança com que poucos times podem contar. “Eu não fico mais nervoso.”

A fala acima foi dita pelo zagueiro holandês em recente entrevista ao jornal inglês Guardian, quando perguntado como estavam seus nervos tão perto da decisão da Liga dos Campeões.

“Com a experiência, o nervosismo não existe. Quando fiz minha estreia pelo Liverpool, contra o Everton, eu estava mais empolgado do que nervoso. Surpreendi a mim mesmo naquela dia com a minha calma”, relembra o jogador de 27 anos, que fez sua primeira partida pelos Reds em janeiro de 2018, marcando o gol da vitória no dérbi de Merseyside, e, desde então, transformou completamente a defesa da equipe dirigida por Jürgen Klopp.

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O clichê de que o medo de perder tira a vontade de ganhar (alô, pofexô!) é especialmente verdade no futebol, algo que, por exemplo, Gareth Southgate aprendeu de sua carreira e leva para o seu trabalho como técnico da seleção inglesa. E algo que Van Dijk já dominou. “Se você está nervoso, você pensa: ‘Não quero cometer erros ou entregar a bola’. Mas aí você limita suas próprias qualidades. Ao longo dos anos, eu desenvolvi a mentalidade de que existem muitas coisas mais importantes na vida (que o futebol).”

O holandês conta que, antes da final da Champions League da temporada passada, contra o Real Madrid, não estava nem um pouco nervoso. “Não sei o que é, é simplesmente algo que aprendi com os anos e é algo que me deixa muito feliz.”

Se dentro de campo, antes da missão ser alcançada, as emoções de Van Dijk estão todas sob controle, após grandes triunfos ele sabe se soltar. A virada histórica contra o Barcelona na semifinal da atual edição da competição, revertendo derrota de 3 a 0 no jogo de ida com uma goleada por 4 a 0 na volta, em Anfield, deixou o zagueiro sem dormir direito. “Talvez duas horas. Foi completamente maluco. Desde o momento que chegamos ao estádio, você tinha a sensação de que poderia ser algo especial. Quando Divock Origi marcou o gol no começo, dava para sentir a fé. Tudo foi perfeito naquela noite. Não foi como se tivéssemos sorte. Nós merecemos completamente (a vitória), porque todo mundo diria que um time com 3 a 0 de desvantagem para o Barcelona não conseguiria fazê-lo (a Roma tem uma ou duas palavras a dizer sobre isso). Que o Messi marcaria um gol. E, se eles marcassem, seria quase impossível. Mas conseguimos. Foi maluco. Não dá para descrever. Espero que possamos concluir agora e criar uma memória ainda maior.”

Caso o Liverpool de fato vença a Champions League, duas das primeiras partidas da temporada seguinte seriam as Supercopas da Inglaterra e da Europa. “Podemos vencer três títulos em três jogos. É algo por que lutamos. Chegamos perto na Premier League, mas agora temos uma chance de vencer a Champions League, a grande competição”, projeta o holandês, que não considera que uma derrota seria o fim do mundo. “A única coisa que podemos fazer é dar nosso melhor e não ter arrependimentos caso eles sejam o melhor time.”

Adversidade e paciência

Quando chegou ao Liverpool em janeiro de 2018, Van Dijk já era um jogador pronto. Com 26 anos, acumulava passagens por Groningen, Celtic e Southampton, um trajeto que fez muita gente questionar o número recorde de £ 75 milhões pagos por um zagueiro – isso e o preço em si, é claro. Mas não demorou muito para que o holandês provasse seu valor. Cerca de um ano e meio depois, com as atuações que já soma pelo Liverpool e seu impacto no time, a fortuna já parece uma barganha. E, para chegar a esse status, o melhor jogador da última Premier League teve que ser forjado na dificuldade.

Van Dijk teve um caminho diferente de parte significativa dos principais grandes talentos da Holanda, não passou pela escola do Ajax. Inclusive, Marc Overmars, diretor de futebol dos Ajacieden, dispensou a oportunidade de contratar o zagueiro. “Eles escolheram Mike van der Hoorn, que hoje joga pelo Swansea. Ele foi muito bem na época. Agora é fácil dizer: ‘E se?’”, reflete.

Van Dijk quando defendia o Groningen (Getty Images)

Aos 20 anos, em seu primeiro clube como profissional depois de não conseguir subir à equipe principal do Willem II, Van Dijk alcançou seu espaço no Groningen, mas isso também não veio sem muita luta. O zagueiro chegou a trabalhar duas noites por semana como lavador de louças para complementar a renda. “Acho que é um bom exemplo de nunca desistir, seguir lutando por seus sonhos. Cada passo da minha carreira foi de trabalho duro. Dei meu máximo, mas ainda tenho mais pela frente em todos os aspectos do meu jogo. Talvez eles estivessem certos na época. Como um jogador mais jovem nas categorias de base de um clube de meio de tabela, o próximo passo é sempre um dos quatro principais times. Esse era o meu plano também, mas não aconteceu.”

Sua chegada ao Groningen lhe ensinou a ter paciência. Ele queria tudo muito rápido, mas teve que iniciar no sub-23 do time – mesmo lá, estava no banco de reservas. Van Dijk lembra que vivia discutindo com o treinador por causa de sua situação. “Mas aprendi muito daquele período, cresci como ser humano. Foi a primeira vez em que estive sozinho, e tive que aprender a lidar com as coisas não acontecendo do jeito que eu queria.” O período de adversidades incluiu ainda duas semanas no hospital após seu apêndice estourar, levando a uma peritonite que, brevemente, pôs sua vida em perigo. Van Dijk chegou até mesmo a escrever um testamento deixando o que tinha para sua mãe.

De Glasgow para Liverpool

Antes de rumar à Inglaterra para defender o Southampton em 2015, o zagueiro passou duas temporadas no Celtic. Ele lembra que clubes de maior expressão no continente europeu o esnobaram por “acreditarem que o padrão não era tão alto na Escócia”. O holandês preferiu responder em campo, virando mais um exemplo de que o salto entre ligas de diferentes níveis não precisa ser necessariamente um problema.

Hoje ele pode dizer que a resposta foi dada – e com sobras. Eleito melhor jogador da Premier League na temporada 2018/19 por seus próprios colegas de trabalho e competição, Van Dijk, aos 27 anos, fez o bastante para que a afirmação de que ele é o melhor zagueiro do mundo soe como um argumento bastante razoável. “Fiquei muito orgulhoso de vencer o troféu da PFA (Associação dos Futebolistas Profissionais), porque normalmente um atacante ou meio-campista é que vence. Daqui a anos, vou lembrar e ter ainda mais orgulho.”

Seu trabalho incrível individualmente e também o de sua equipe, que alcançou 97 pontos em 38 jogos, não foram suficientes para encerrar a fila nacional que agora vai para seu 30º ano. Mas isso não impede o jogador de reconhecer o valor em seu oponente ao comentar sobre para quem foi o seu voto de melhor do torneio.

“Raheem (Sterling) evoluiu bastante, e, por isso, eu votei nele. Eu poderia ter votado em outros quatro ou cinco jogadores do City, porque eles foram excepcionais.”

“Mas eles também poderiam ter votado em quatro ou cinco de nossos jogadores. Talvez o Trent (Alexander-Arnold), Sadio (Mané), Gini (Wijnaldum)”, completou. A experiência lhe ensinou também a manter o vestiário contente.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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