Em pedaços

Um time sem argumentos para segurar o adversário e, por isso, submisso a sua própria inferioridade. A equipe que enfrentou o Manchester United neste domingo, em Old Trafford, bem parecia o West Bromwich Albion ou o Stoke City. Era o Chelsea, o clube que mais gastou dinheiro em reforços nos últimos cinco anos, que conquistou duas Premier Leagues e é o atual vice-campeão inglês e europeu.
Nos 3 a 0 deste domingo, os Blues estiveram apáticos, como se o resultado não fosse algo importante. Sem tirar os méritos dos Red Devils, mas o comportamento azul denotou algo muito mais grave que dificuldade técnica em jogar com o adversário. Mostrou que, psicologicamente, o elenco londrino parece perdido e sem motivação.
Não é difícil entender os motivos. De acordo com a imprensa inglesa, Roman Abramovich perdeu alguns bilhões de euros no estouro da crise financeira mundial. Ele ainda não precisa comprar menos frutas na feira ou vetar o McDonald’s (ou Burger King) dos filhos por causa disso, mas talvez tenha cortado um pouco despesas como a brincadeira com time de futebol.
Essa mudança de comportamento do milionário russo já havia ocorrido no começo da temporada passada, mas, agora, ele radicalizou, pois aproveitou o mercado de verão para enxugar o elenco. A única grande contratação prevista, Robinho, não se efetivou por falta de vontade do Real Madrid em negociar com os Blues e o clube não trouxe ninguém de peso.
Pior do que deixar o técnico (Felipão) sem opções, isso passa o recado de que a era de bonança pode estar acabando. Nos 3 a 0 do Manchester United, o Chelsea esteve alheio à partida. Não que os jogadores tenham deliberadamente entregado o jogo, mas a falta de concentração e motivação baixa o nível de rendimento de qualquer profissional, em qualquer área de atividade. Em um ambiente de altíssimo nível de competição como o futebol inglês, essa queda fica mais nítida e tem consequências mais sérias.
Como a situação dos Blues nos campeonatos que disputa (FA Cup, Liga dos Campeões e Campeonato Inglês) não é das piores, ainda dá para reagir e terminar o ano disputando algum troféu. Mas, para isso, Felipão terá de dar um choque psicológico na equipe, algo muito mais difícil na Inglaterra do que em Portugal ou Brasil. Para isso, precisa identificar quem está com a cabeça mais focada no campo para “fechar o grupo” e voltar a ser competitivo.
Méritos aos vencedores
Há algumas semanas, esta coluna já defendia a tese de que o Manchester United era o favorito ao título inglês, ainda que a briga parecesse polarizada em Chelsea e Liverpool. No último fim-de-semana, os Red Devils fizeram 3 a 0 sobre os Blues e, com o empate dos Reds contra o frágil Stoke City, assumiram a liderança por pontos perdidos (ou seja, se vencerem os jogos em atraso assumem a ponta). Claro, já se fala mais abertamente que os mancunianos são candidatos fortes ao título.
O que mais impressiona é a solidez da equipe dirigida por Alex Ferguson. Ainda que não esteja atuando de modo brilhante como na temporada passada, o United perde poucos pontos tolos. Basta ver a lista de tropeços do time no atual Campeonato Inglês: empate em casa com Newcastle, empates fora com Chelsea, Everton, Tottenham e Aston Villa, derrotas fora para Liverpool e Arsenal. Salvo o 1 a 1 com os Magpies em Old Trafford, na primeira rodada, todos os resultados foram comprensíveis.
Em um torneio de pontos corridos, é muito difícil parar uma equipe que vence invariavelmente as equipes mais fracas e começa a se soltar contra as mais fortes (os 3 a 0 sobre o Chelsea não deixa mentir). A não ser que um fato novo (como desgaste físico que ainda não foi sentido ou alguma instabilidade interna) mude o ritmo da equipe. Até porque o elenco vermelho é bastante completo.
A chegada de Berbatov deu muito mais poder ao ataque, pois tem um artilheiro por vocação para resolver quando Tevez e Rooney não encontram espaço. Nani e Anderson se tornam opções cada vez mais viáveis no meio-campo. Até na zaga, que dependia demais de Ferdinand e Vidic, está bem resolvida. Contra os Blues, o Ferdinand estava contundido e o jovem Evans entrou sem causar uma perda de segurança defensiva.
Os 3 a 0 sobre o Chelsea de Felipão não foram consequência apenas da falta de concentração dos londrinos. Houve muito de mérito do atual bicampeão inglês, um time que, no momento, é favorito ao tri.



