Inglaterra

Dever cumprido

A Inglaterra deixa a Eurocopa com a sensação de ter cumprido o seu dever. Diante das perspectivas no início do torneio, a eliminação nas quartas de final esteve longe de ser uma decepção. O time limitado, mas consciente de suas possibilidades, chegou a alimentar as expectativas dos torcedores, durante a competição, de que poderia até mesmo chegar longe. Ao fim, a primeira colocação na fase de grupos e a eliminação nos pênaltis saíram na medida para o futebol que o English Team apresentou.

A partir de agora, os ingleses já podem iniciar seu planejamento para o futuro. Apesar da satisfação com a Euro, o caminho da seleção é nebuloso. A geração da qual se esperava muito renderá, no máximo, até a Copa do Mundo de 2014. E os nomes que despontam terão que ganhar muita rodagem para ao menos tentar assumir o protagonismo em dois anos. Entre as duas safras, uma lacuna com bons coadjuvantes e Rooney, de quem ainda se espera algo.

O primeiro passo da Football Association será pensar qual a estratégia para o comando do time. Roy Hodgson fez um grande trabalho, especialmente quando se pensa no tempo que o treinador teve para gerir o elenco e atenuar os problemas vividos nos últimos meses. O grupo se mostrou compromissado com a proposta de jogo do técnico. E, pessoalmente, Hodgson teve escolhas acertadas, especialmente na opção por John Terry, de excelentes atuações, na queda de braço com Rio Ferdinand.

Nada indica que Hodgson deixará o comando da seleção inglesa nos próximos meses. A questão é se o comandante será capaz de desenvolver um planejamento nos próximos anos. Em seu currículo, somente um de seus trabalhos durou mais de três anos, no Malmö, ainda na década de 1980. Para uma missão em curto prazo, tendo que trabalhar especialmente com o emocional dos jogadores, Hodgson se mostrou o nome ideal. Resta saber se ele servirá também para montar uma equipe de verdade.

A adoção do 4-4-2 como sistema de jogo não foi tão funcional assim aos ingleses. Deu certo quando o time precisava se defender, mas se mostrou bastante deficiente quando a equipe precisava buscar os resultados. O meio de campo não funcionou e, não à toa, a seleção teve a terceira pior posse de bola do torneio. Basicamente, o English Team apostou em lançamentos e passes verticais para subir ao ataque, além de investidas pelos lados, o que não teve muito sucesso. Ficar dependente da bola parada ou de lampejos isolados durante as Eliminatórias com certeza não é a melhor opção. E, neste ponto, Hodgson terá que trabalhar as opções que tem em mãos para criar um padrão de jogo que se imponha.

A base a se montar

A princípio, os jogadores que formaram a Euro deverão ser mantidos no elenco por mais algum tempo. Dois dos mais experientes do elenco, Steven Gerrard e John Terry estão em alta. Gerrard finalmente superou as comparações com Lampard na equipe nacional e deve ser mantido como capitão, desde que suas condições físicas permitam isso. O meio-campista foi, sem dúvidas, o melhor jogador inglês no torneio. E Terry, depois de uma temporada de atuações apenas regulares com o Chelsea, poderá prolongar sua carreira na seleção graças à Euro. Scott Parker, outro do grupo que passou dos 30 anos de idade, também mostrou ter condições de ancorar o meio de campo.

Rooney, em especial, não foi o salvador ou o homem decisivo que se aguardava ansiosamente. Porém, o camisa 10 também não pode ser colocado como culpado pela queda. O atacante buscou bastante o jogo e, muito por conta do esquema tático adotado, acabou sendo mais um operário no English Team. Com a equipe sem ligação, Rooney ficou estafado de tanto voltar para chamar o jogo – depois da partida, Leonardo Bonucci chegou a comentar que a marcação sobre o inglês foi facilitada por seu cansaço a partir do segundo tempo. Além de ter talento reconhecido, o astro demonstrou muita vontade. Só precisa ter seus predicados mais bem usufruídos pelo sistema de jogo.

E, se juntado aos antigos líderes, Joe Hart ajuda a compor uma nova hierarquia na seleção. O goleiro chegou a demonstrar insegurança em alguns momentos, mas nunca deixou a Inglaterra em apuros. Contra a Itália, em caso de classificação, merecia receber o bicho dobrado, além de também ter feito defesas importantes na primeira fase. Não seria surpreendente se, na ausência dos veteranos, o camisa 1 assumisse a braçadeira de capitão.

Menos preponderantes, mas eficientes, Glen Johnson e Joleon Lescott saíram do torneio com moral elevada e, se não seguirem como titulares, certamente se manterão no elenco por mais um tempo. Para a defesa, outros nomes que não apareceram em campo ainda podem ascender, como Leighton Baines e o cortado Gary Cahill. A única grande decepção foi mesmo Ashley Young, que, de um jogador decisivo nos amistosos preparatórios, se escondeu durante todo o tempo quando o confronto realmente valia algo.

Para o futuro, as atenções deverão se concentrar na evolução que a nova geração terá. A Euro foi valiosa para que Danny Welbeck e Alex Oxlade-Chamberlain provassem que estavam prontos para a seleção, embora distantes do protagonismo. Theo Walcott foi um ótimo substituto, dissipadas as ilusões já longínquas que seria um craque. Já Andy Carroll, de boa partida contra a Suécia e débil nas quartas de final, precisa conquistar seu espaço no Liverpool para dar um passo à frente na equipe nacional.

Dos que ficaram de fora, nomes como Kyle Walker, Tom Cleverley e Jack Rodwell também prometem ganhar suas oportunidades nos próximos anos. A maior dúvida fica sobre Jack Wilshere, apontado pela maioria dos ingleses como o craque capaz de conduzir o English Team, assim como (guardadas as devidas proporções) fazem Andrea Pirlo na Itália ou Bastian Schweinsteiger na Alemanha. Antes disso, entretanto, o meio-campista precisa superar seus problemas físicos e provar que a grande forma apresentada em seu surgimento no Arsenal não foi mero acaso.

Se parte das promessas forem cumpridas e a equipe encontrar seu encaixe, os ingleses poderão até criar as expectativas de recuperarem certo destaque nas competições internacionais e se recolocarem na condição de candidatos aos títulos – ainda que o favoritismo de outras épocas pareça fora de alcance. Do contrário, é bom se prepararem para seguir fora dos holofotes. E, como já aconteceu na Ucrânia, só com muita dedicação conseguirão algum destaque.

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Equipe Trivela

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