Deu Manchester United, e daí?

A grandeza de um clube não some com facilidade. Muitas equipes grandes em história e tradição se apequenam com os anos. Mas, quando sentem o gosto de ser grandes, assumem o papel com naturalidade. É por isso, por exemplo, que mesmo times grandes que estão em baixa têm seus melhores momentos em clássicos locais. É por isso, também, que o Uruguai joga tão bem contra o Brasil e mal contra a Venezuela. E foi por isso que o Tottenham venceu a Copa da Liga na temporada passada e, nesta, só caiu nos pêanltis diante do Manchester United.
É verdade que os Red Devils tiveram alguns reservas em campo. Mesmo assim, é uma equipe inegavelmente mais forte. No entanto, o gosto da final, de decidir uma competição em Wembley lotado, cai bem a uma tradicional força como os Spurs. Por isso, os londrinos jogaram com desenvoltura raras vezes vista no Campeonato Inglês.
No geral, pode-se dizer que o Tottenham foi um pouco melhor. No 0 a 0 do tempo normal e da prorrogação, o goleiro vermelho Foster foi mais acionado que Gomes. Modric fez uma bela partida no meio-campo (lembrando um pouco o jogador que comandava a seleção croata na boa campanha da Eurocopa 2008), assim como King e Dawson deram muita segurança ao miolo de zaga. Aaron Lennon também se destacou, mas apenas no primeiro tempo.
Tudo isso adiantou pouco na disputa de pênaltis, na qual Foster defendeu a cobrança de O’Hara e Bentley chutou para fora. O Manchester United não desperdiçou nenhuma oportunidade e venceu por 4 a 1. Não foi o mais justo, e talvez não tenha sido o melhor para a competição.
A Copa da Liga é um torneio que vive uma certa crise de identidade. O torneio foi criado na década de 1960, quando quase todos os clubes profissionais já tinham instalado sistema de iluminação em seus estádios e ficava mais fácil de realizar jogos noturnos nas datas vagas de meio de semana. O fato de ser uma competição apenas com equipes da Football League, ou seja, as profissionais, servia como fator de se diferenciar da FA Cup.
Convenhamos, a diferenciação é muito tênue, até porque as equipes amadoras da FA Cup servem para dar charme à competição, mas o título sabidamente ficará com alguma das quatro principais divisões do futebol inglês (as profissionais). Assim, a Copa da Liga sempre teve a cara de uma “FA Cup de araque”, cujo apelo é dar uma vaga na Copa Uefa e, para clubes médios e pequenos, ter a chance de comemorar algum título.
Mal comparando, a Copa da Liga tem, na Inglaterra, uma importância equivalente aos estaduais do Brasil. Para um time poderoso, que luta por títulos no campeonato nacional e em torneios internacionais, é apenas um motivo para reafirmar sua força. Para uma equipe grande e tradicional que anda em baixa e não tem condições de conquistar a liga nacional, vencer a Copa da Liga – ou o estadual – é a única possibilidade real de glória.
Assim, o título do Manchester United neste domingo, servirá só para o clube dizer que o time ainda pode fazer uma “quíntupla coroa” na temporada, contabilizando as eventuais conquistas de Premier League, FA Cup, Liga dos Campeões e Mundial de Clubes. Para o Tottenham, vencer seria motivo de muita festa. A Copa da Liga receberia uma valorização maior, pelo menos de seu campeão.
Mais estrangeiros para seleções britânicas
Vieira nasceu no Senegal, mas defende a seleção francesa. Camoranesi é argentino de nascimento e criação, mas joga pela Itália. Asamoah saiu de Gana para vestir a camisa da Alemanha. O brasileiro Marcos Senna se transformou em figura importante na equipe espanhola e Portugal tem como meia titular o paulista Deco. Usar jogadores naturalizados se transformou em algo comum na Europa, mesmo nos países em que há razoável oferta de bons jogadores. Menos na Inglaterra.
O fato de os ingleses usarem poucos estrangeiros em sua seleção tem ligação com um acordo de cavalheiros feito com as federações de Escócia, Irlanda do Norte e Gales. Como essas quatro nações fazem parte de um mesmo país – o Reino Unido –, o trânsito de pessoas sempre foi muito grande de um para o outro sem que houvesse restrição, até porque o passaporte é o mesmo para todos. Para evitar que a Escócia montasse um time cheio de norte-irlandeses, a Inglaterra recrutasse talentos escoceses e galeses ou outras combinações, ficou acordado que as seleções britânicas usariam apenas jogadores nascidos ou com ligação sanguínea – de pais ou avós – nos territórios por elas representados.
Quando o futebol europeu – e o mundo, em um contexto mais amplo – se tornou mais aberto ao trânsito de indivíduos, a regra começou a se fragilizar. Várias seleções europeias começaram a utilizar jogadores nascidos em outros países. Em muitos casos, uma decisão legítima: alguns atletas mudaram de país ainda jovens e criaram real vínculo com sua nova nação. Para evitar os casos não tão legítimos assim, a Fifa determinou que os jogadores só poderiam defender uma equipe de um país diferente do que nasceu se tiver vínculo sanguíneo ou morar dois anos (depois aumentado para cinco) no novo país.
As restrições da entidade não impediram que vários jogadores mudassem de país, como mostrado três parágrafos acima. Mas o acordo de cavalheiros continuou impedindo as seleções britânicas a usarem talento de forasteiros.
Isso pode estar no fim. A federação escocesa já anunciou que pretende articular com suas congêneres galesa, norte-irlandesa e inglesa para colocar o futebol do Reino Unido no mesmo padrão estabelecido pela Fifa. Assim, cinco anos de residência já serviriam para um jogador defender uma seleção britânica.
Dois jogadores já se especulam que possam “virar escoceses”: os meias Andrew Driver, do Hearts, e Nacho Novo, do Rangers. O primeiro nasceu na Inglaterra, mas vive desde a adolescência na Escócia. O segundo, espanhol, mora há oito anos na Escócia e, por isso, já tem possibilidade de requisitar um passaporte britânico e atende à exigência da Fifa para defender uma seleção de outro país.
Não parece haver muita oposição à “naturalização futebolística de Driver, mas a situação de Novo é polêmica. O meia chegou à Escócia com 21 anos (ou seja, não foi futebolisticamente formado no Reino Unido) e, em outubro de 2008, as federações britânicas já haviam se reunido e concordado em manter o acordo de cavalheiros. No entanto, a federação escocesa parece ter mudado de posição e citou o espanhol como possível reforço.
Se os escoceses forem bem sucedidos e mudarem os termos do acordo com os vizinhos, haverá alteração no perfil das seleções britânicas. Até por pudor, não se imagina uma naturalização desenfreada de jogadores. Mas cairá a última resistência de purismo na ideia de que um jogador tem de defender a seleção do país em que nasceu.



