Desafios de Mourinho são tão grandes quanto o sonho de treinar o Manchester United
O dia em que José Mourinho chorou, segundo o livro de um jornalista espanhol sobre sua passagem pelo Real Madrid, foi quando o Manchester United escolheu David Moyes como sucessor de Alex Ferguson. O português, provocador, sempre reservou palavras de respeito para o clube e para o lendário treinador escocês, mesmo quando disputava títulos com os Red Devils. Achou que seu currículo único de conquistas seria imbatível na competição pelo cargo principal de um dos clubes mais importantes do mundo. Ser preterido foi decepcionante, mas três anos de futebol são muito tempo para rever conceitos e modificar conjunturas. Mourinho é o novo técnico do Manchester United.
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Há meses, esse era o cenário mais provável para o clube de Old Trafford, e a contratação de Mourinho tornou-se uma inevitabilidade no momento em que Louis van Gaal foi demitido. Fora da Champions League pela segunda vez em três anos, não há mais espaço para correr riscos. Ainda mais diante de uma Premier League que promete ser uma das mais disputadas dos últimos tempos, com o Manchester City de Guardiola, o Chelsea de Conte, o Arsenal de Wenger e o Liverpool de Klopp; com o jovem Tottenham de Pochettino; e ainda com o Leicester e o West Ham podendo surpreender novamente. O Manchester United não poderia se dar ao luxo de permitir que Van Gaal completasse seu contrato, depois de duas temporadas de um futebol muito fraco.
O que deve ter dado bastante satisfação para Mourinho, considerando o argumento que usava em 2013 para se candidatar ao cargo, foi o motivo dado pelo principal executivo do clube inglês, Ed Woodward, para justificar sua contratação. “José é simplesmente o melhor treinador do jogo hoje em dia. Ele venceu troféus e inspirou jogadores em países ao redor da Europa e, claro, conhece a Premier League muito bem, com três títulos. Seu histórico de sucesso é ideal para levar o clube à frente”, afirmou.
We are delighted to announce Jose Mourinho is our new manager! Full statement: https://t.co/PDiHMIWnpd #WelcomeJose pic.twitter.com/eZ8NBSz2up
— Manchester United (@ManUtd) May 27, 2016
O currículo dele já era recheado o bastante três anos atrás quando a resistência dos caciques do Manchester United era sobre a personalidade do treinador, que nos momentos ruins tende a preservar a sua imagem em vez de proteger a do clube. Mas a decisão foi de lhe dar uma chance porque o casamento pode ser bom para os dois lados. Mourinho, fã das câmeras, assume um dos clubes mais midiáticos do mundo. E se era grande o sonho de treinar o Manchester United, seus desafios em Old Trafford são maiores ainda.
Devolvê-lo ao patamar necessário

Como já dissemos, se tudo progredir da maneira esperada, a Premier League terá pelo menos seis fortes equipes brigando pelos primeiros lugares, e o Manchester United simplesmente não pode ser coadjuvante novamente. A questão financeira é importante – investimento alto para gerar altas receitas -, mas o orgulho dos torcedores pesa ainda mais. Acostumaram-se com a briga constante pelo título inglês e pelas fases agudas da Champions League durante a Era Ferguson.
Nas três temporadas desde a aposentadoria do treinador escocês, o Manchester United sequer chegou a ser um candidato real a conquistar a Premier League. Ficou duas vezes fora da Champions League, e na vez que a disputou, caiu para a Liga Europa, na qual foi eliminado pelo rival Liverpool. Nas copas nacionais, a uma única campanha vitoriosa foi a da FA Cup deste ano. É tempo demais abaixo do patamar em que Ferguson deixou o clube, depois de 27 anos de lutas. Cabe a Mourinho devolver o Manchester United a ele.
Montagem do elenco

Contratar os melhores jogadores do mundo quando se está fora da Champions League costuma implicar algum tipo convencimento, seja mais dinheiro ou a promessa de que a ausência é passageira. O Manchester United conseguiu atrair Di María na sua primeira temporada longe da elite da Europa, e com o seu renome mundial, não deve ter grandes problemas nesse sentido. A questão, para Mourinho, é decidir quem fica.
O contrato de Michael Carrick, um dos remanescentes da Era Ferguson, está chegando ao fim. Ashley Young e Antonio Valencia, também dessa época, estavam esquecidos e foram recuperados por Van Gaal. Contratações como Marcos Rojo, Morgan Schneiderlin e mesmo Bastian Schweinsteiger não deram o resultado esperado. Depay, até um pouco injustamente para um jogador de 22 anos, já está sendo considerado um flop pelo dinheiro que foi desembolsado nele. Wayne Rooney voltou a jogar bem apenas recentemente.
A grande dúvida, porém, é Juan Mata. O espanhol foi um dos poucos que se salvou no trabalho de Van Gaal, mas foi justamente Mourinho quem permitiu que ele fosse vendido para o Manchester United. Não estava satisfeito com seus atributos físicos e com o trabalho de equipe que exercia sem a bola. Dará uma segunda chance ao talentoso espanhol?
Mourinho não se livrará de todos os jogadores que estão com desempenhos decepcionantes, mas dificilmente ficará com todos eles no elenco, considerando que terá mais algumas centenas de milhões de libras para gastar. Seu primeiro trabalho será tomar as decisões corretas sobre quem fica, quem sai e quem chega.
Trabalhar com jovens

De todos os pecados de Van Gaal, não dar chance a jovens não foi um deles. Jogadores como Lingaard, Rashford e Martial foram os grandes destaques da temporada do Manchester United e estão em franco crescimento. No entanto, Mourinho não se destacou, ao longo da sua carreira, por revelar jovens promessas. Prefere jogadores já estabelecidos.
No seu último trabalho no Chelsea, permitiu as saídas de Romelu Lukaku e Kevin de Bruyne, dois jogadores que se provaram no mais alto nível do futebol europeu. O Wolfsburg lucrou muito com sua venda para o Manchester City, e o Everton pode seguir o mesmo caminho caso se confirme o desejo de Lukaku de deixar o clube de Liverpool. Os dois são considerados os principais erros de avaliação de Mourinho.
Ele usou um Arjen Robben de 20 anos na sua primeira passagem por Stamford Bridge, deu chances a Morata e Jesé no Real Madrid e jogou a final da Champions League, pelo Porto, com um Carlos Alberto de 19 anos no time. A questão com ele não é aversão a jovens; apenas a pouca paciência para eles se desenvolverem.
Jogar um futebol ofensivo

“Ataque, ataque, ataque” era o grito que saía das arquibancadas de Old Trafford nos momentos em que o time de Van Gaal parecia precisar de um mapa para encontrar o gol adversário. Além dos resultados, o que mais irritou a torcida foi o futebol pouco atraente que o time desempenhou nos dois anos em que o holandês se sentou no banco de reservas do Manchester United.
Principalmente porque criou-se uma cultura exigente de futebol ofensivo durante os anos de Alex Ferguson, e Van Gaal definitivamente não correspondeu às expectativas. O Manchester United marcou apenas 49 gols em 38 rodadas da atual edição da Premier League e pareceu muitas vezes satisfeito com a vantagem mínima no placar.
Apesar de ter recebido o injusto rótulo de retranqueiro, Mourinho sabe vencer com um futebol ofensivo. Seu Chelsea marcou 72 gols nos dois títulos ingleses de 2005 e 2006, ficando em segundo e primeiro lugar na lista de melhores ataques da Inglaterra naquelas temporadas, respectivamente. Seus dois títulos italianos pela Internazionale também foram conquistados com o setor ofensivo mais produtivo do país. Seu Real Madrid foi campeão espanhol marcando 121 gols.
Mourinho é pragmático. Arma seu time da maneira que considera ser a que lhe dá mais chances de vencer a partida. Em alguns jogos, isso significa estacionar o ônibus; em outros, atacar com todas as forças. Mas a torcida do Manchester United terá pouca paciência com a primeira estratégia.
Imagem ligada ao Chelsea

Suas rusgas na Inglaterra sempre foram mais acentuadas em relação a Arsène Wenger e o Arsenal. Cultivou uma relação mais próxima de Alex Ferguson, a quem sempre demonstrou muito respeito. Não o bastante para a torcida esquecer que sua imagem ainda está muito ligada ao Chelsea, um dos principais rivais domésticos do Manchester United na década passada.
Seu retorno a Stamford Bridge, depois do trabalho no Real Madrid, foi considerado uma volta para casa. A torcida abraçou Mourinho como se o português fosse um deles. Após sua demissão, passou algumas partidas manifestando revolta pela decisão de Abramovich e apoio ao treinador. É inegável que Mourinho é muito associado ao Chelsea.
Isso não impede que ele trabalhe no Manchester United, ou em outro clube inglês, mas é mais um aspecto com o qual precisa lidar. Tem que conquistar o coração de novos torcedores, ao mesmo tempo que tenta apagar a imagem ruim que deixou na sua última temporada pelo Chelsea, quando foi demitido com o clube patinando na parte de baixo da tabela.



