Coventry e Luton revivem os dez anos consecutivos de confrontos na elite inglesa
Adversários nos playoffs de acesso da Championship, Coventry City e Luton Town foram adversários recorrentes na elite durante as décadas de 1980 e 1990
Adversários na decisão dos playoffs de acesso da Championship neste sábado, Coventry e Luton sonham com o retorno à elite do futebol inglês, da qual estão afastados há respectivamente 22 e 31 anos. Mas, mais do que isso, o confronto faz rememorar os embates entre os dois clubes nos períodos em que ambos conviveram na categoria máxima da liga, em especial o decênio de 1982 a 1992, em que os Hatters viveram sua maior sequência na elite. A época também foi marcante para ambos devido às conquistas copeiras – as únicas na história de cada clube. Lembramos aqui todos os duelos e como foi aquele momento para ambos.
O panorama dos clubes
O Luton Town teve três períodos na elite inglesa. O primeiro deles se estendeu por toda a metade final da década de 1950, entre as temporadas 1955/56 e 1959/60, quando o clube ainda alcançou a final da FA Cup em 1959, sendo derrotado pelo Nottingham Forest. A curta segunda passagem se limitou à temporada 1974/75, ano em que os Hatters encontraram o Coventry pela primeira vez na elite, perdendo ambas as partidas. Até retornarem para seu período mais longo na divisão principal do país: dez anos, entre 1982/83 e 1991/92.
Nesse decênio, os melhores momentos vieram bem no miolo, quando a equipe pôde alçar voos maiores do que simplesmente brigar contra a degola e por três anos seguidos terminou em nono, sétimo e nono lugar nas temporadas de 1985/86, 1986/87 e 1987/88. O desempenho nas copas também foi bem interessante: o Luton chegou às semifinais da FA Cup em 1985 (eliminado pelo Everton) e foi duas vezes finalista da Copa da Liga, levando a taça em 1988 ao vencer o Arsenal e ficando com o vice em 1989 diante do Nottingham Forest.
Apesar de fundado dois anos antes do Luton (1883 contra 1885), o Coventry City é um clube de história mais recente – ou menos antiga – dentro da Football League, tendo sido admitido apenas em 1919, enquanto o adversário já fazia parte dessa estrutura desde o fim do século anterior. E teve apenas uma passagem pela primeira divisão, embora muito mais longa: foram nada menos do que 34 anos consecutivos na elite, entre o acesso obtido na temporada 1966/67 e o descenso ocorrido em 2000/01, já após a instituição da Premier League.
Durante essa era, as melhores campanhas foram espalhadas: os Sky Blues obtiveram uma sexta colocação em 1969/70 e dois sétimos lugares, em 1977/78 e em 1988/89). Já na parte de baixo da tabela, o clube se celebrizou pelas escapadas milagrosas do rebaixamento – em nada menos que oito ocasiões a salvação veio na última rodada. Por outro lado, também vivenciou sua glória copeira ao conquistar a FA Cup de 1987, eliminando o Manchester United de Alex Ferguson e batendo o Tottenham na prorrogação na final em Wembley.

Os dois clubes também tiveram nomes proeminentes em seus quadros diretivos durante esses períodos, embora algumas de suas decisões dividissem opiniões dentro e fora das agremiações. O acesso do Coventry, por exemplo, foi o ponto culminante de uma revolução empreendida no clube pelo técnico Jimmy Hill. Ex-meia do Fulham e da seleção inglesa e importante líder sindical, assumiu o comando do time logo ao pendurar as chuteiras em 1961 e mudou, entre outras coisas, a cor do uniforme, que passou de azul para azul-celeste.
Hill guiou os agora apelidados Sky Blues da terceira à primeira divisão, mas deixou o clube pouco depois do início da temporada de estreia na elite para trabalhar na televisão. Voltaria em abril de 1975 como diretor e logo chegaria a presidente do Coventry. Nesse período, sua principal obra foi a reforma do estádio de Highfield Road, que em 1981 se converteria no primeiro “all-seater” da Inglaterra, isto é, com assentos para todos os torcedores, antecipando-se ao que o Relatório Taylor exigiria mais tarde, após o desastre de Hillsborough.
Ícone midiático no país por ter apresentado na BBC o popular programa esportivo “Match Of The Day” durante 15 anos (entre 1973 e 1988), Jimmy Hill deixaria a presidência do Coventry em 1983, um ano antes de David Evans assumir o mesmo cargo no Luton. Integrante do quadro de diretores dos Hatters desde 1977, o dono de uma empresa de limpeza industrial chegaria ao posto principal do clube em novembro de 1984 e, a partir de meados do ano seguinte, começaria a implementar uma série de medidas que geraram controvérsia no país.
A primeira foi a troca do gramado natural pelo sintético no estádio de Kenilworth Road, antes do início da temporada 1985/86, a exemplo do que o Queens Park Rangers havia feito anos antes (e do que o Oldham e o Preston fariam no ano seguinte). O piso, considerado duro, também recebeu críticas por provocar queimaduras nos atletas e permitir um quique da bola enganoso e fora do normal. Mas outras duas decisões de Evans levariam a um debate ainda mais inflamado pelo país afora, num momento crítico do hooliganismo na ilha.
Em 13 de março de 1985, num jogo contra o Luton pela FA Cup, grupos de hooligans do Millwall depredaram Kenilworth Road, invadiram o gramado e se digladiaram com os cerca de 200 policiais que faziam a segurança da partida, num rastro de destruição que se estendeu pelas ruas de Luton e até pelos trens no retorno a Londres, deixando 47 feridos. Transmitido ao vivo para todo o país, o conflito provocou um clamor generalizado para que se combatesse de modo implacável o que já vinha sendo chamado na Europa de “doença inglesa”.

Foi a deixa para que Evans levasse adiante sua ideia de implementar um sistema de entradas feito exclusivamente pelos chamados “membership cards”, cartões magnéticos enviados a torcedores cadastrados. Essa medida seria colocada em vigor a partir da temporada 1986/87, juntamente com outra que daria o que falar: o banimento a torcedores visitantes. A Football League tentaria fazer o clube suspender a proibição para jogos da Copa da Liga. O Luton, no entanto, se recusou e foi prontamente excluído daquela edição do torneio.
A partir da temporada seguinte, o banimento seria suavizado para uma restrição a 500 ingressos distribuídos pelo Luton apenas para alguns clubes. Enquanto isso, a Football Association adotaria o princípio da reciprocidade, aceitando que outros clubes também banissem torcedores do Luton em seus jogos da FA Cup. Em 1987, Evans seria eleito para o Parlamento britânico pelo Partido Conservador, deixando a presidência do Luton em junho de 1989. Sem ele, aos poucos sairiam de cena o gramado sintético e os banimentos de visitantes.
Tanto no caso do estádio “all-seater” do Coventry quanto no da proibição de torcedores visitantes pelo Luton havia uma crítica semelhante feita de maneira constante por pessoas ligadas ao jogo: a atmosfera nas partidas era sensivelmente prejudicada. Além disso, as conquistas nas copas não se traduziram em vagas europeias devido à exclusão dos clubes ingleses pela Uefa, decretada após a tragédia de Heysel, em 1985. Assim, os Sky Blues ficariam de fora da Recopa de 1987/88, bem como os Hatters não jogariam a Copa da Uefa de 1988/89.
De todo modo, nesse decênio compreendido entre as temporadas 1982/83 e 1991/92, Coventry e Luton escreveram histórias marcantes e curiosas em seus 20 confrontos pela liga inglesa (com 12 vitórias do Coventry, seis do Luton e apenas dois empates) e no único duelo pela Copa da Liga (vencido pelo Luton), os quais relembramos a seguir.
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1982/83
Campeão da segundona em 1981/82, o Luton teve dificuldades para se manter na elite, apesar da boa safra de talentos que apresentava. Assim, quando enfrentou o Coventry pela primeira vez, em 20 de novembro de 1982, ocupava a 18ª colocação entre 22 clubes e começava a atravessar uma sequência de oito partidas sem vencer. Para piorar, havia a baixa do defensor Mal Donaghy (titular da Irlanda do Norte na Copa de 1982), ausente após incríveis 155 jogos consecutivos pela liga. Jogando em casa, o Coventry acabou vencendo.
Após um primeiro tempo com placar em branco, os Sky Blues abriram 2 a 0 no começo da etapa final, mas o Luton reagiu e empatou. Porém, duas falhas do goleiro Jake Findlay decidiram o jogo a favor do Coventry, que venceu por 4 a 2, com dois gols de Steve Whitton, um de Paul Dyson e um de Garry Thompson. Brian Horton e Brian Stein fizeram os do Luton. Quando chegou o jogo de volta, em 1º de janeiro de 1983, os Hatters seguiam na 18ª posição ao passo que os Sky Blues haviam arrancado da 13º para a sexta colocação.

E o melhor momento do Coventry fez com que a equipe dirigida pelo experiente Dave Sexton se impusesse também em Kenilworth Road, marcando com Steve Whitton e James Melrose antes do intervalo e contando com boas defesas do goleiro Les Sealey – que mais tarde se tornaria ídolo no próprio Luton – para manter a vantagem. O gol de honra dos donos da casa, porém, viria numa falha do arqueiro, da qual Mal Donaghy se aproveitaria para diminuir a vitória do Coventry para 2 a 1. A equipe de West Midlands fazia sua dobradinha.
O Coventry escaparia da degola na penúltima rodada ao bater o Stoke fora de casa por 3 a 0. Já o Luton garantiria a sobrevivência num épico: o confronto direto com o Manchester City em Maine Road na última rodada, vencido por 1 a 0 nos minutos finais com um golaço do iugoslavo Radomir “Raddy” Antic (que mais tarde se tornaria respeitado treinador), rebaixando os Citizens. Vitória comemorada de maneira efusiva pelo técnico David Pleat, invadindo o campo assim que o apito final assegurou a permanência de sua equipe.
1983/84
Os dois times vinham em bom momento quando se enfrentaram no jogo de ida em 3 de dezembro de 1983: o Luton era o quinto e o Coventry, o sexto. Mas os Sky Blues vinham embalados, numa sequência invicta que chegaria a nove jogos. E depois de derrotarem o Luton por 4 a 2 dentro de Kenilworth Road, aplicariam 4 a 0 no Liverpool (que naquela temporada seria tricampeão inglês, tetra da Copa da Liga e campeão da Copa dos Campeões) e pularia para a quarta posição a apenas três pontos dos Reds de Joe Fagan, ponteiros da tabela.
A vitória sobre o Luton foi construída em contragolpes, graças aos buracos na defesa dos Hatters. O baixinho atacante Terry Gibson fez dois gols, com o meia Micky Gynn e o ponta Dave Bennett completando. Para o Luton marcaram Stuart Pearce (contra) e Trevor Aylott. O segredo daquele Coventry arrasador, que tinha um certo Sam Allardyce na zaga? Aulas de dança contemporânea com a bailarina Stella Mae, do English Dance Theatre. Ideia do técnico Bobby Gould para que os jogadores coordenassem melhor seus movimentos.
Depois da goleada sobre o Liverpool, no entanto, o Coventry perdeu o compasso: nas 25 partidas pela liga até o fim da temporada, a equipe venceria apenas quatro e perderia 14, trocando a briga por uma vaga na Copa da Uefa por uma luta desesperada contra o rebaixamento. O empate em 2 a 2 com o Luton em Highfield Road no dia 5 de maio de 1984 veio em meio a uma série de pesadas goleadas sofridas (4 a 1 Manchester United, 8 a 2 Southampton, 5 a 0 Liverpool). Antes do jogo, o Coventry era o 17º, a três jogos do fim do certame.
O Luton também decaíra, mas de maneira bem menos dramática: ocupava agora a 12ª colocação, já distante da ameaça de descenso. E ficaria duas vezes na frente do placar, com gols de Radomir Antic e Brian Stein. Mas o Coventry iria buscar a igualdade com Terry Gibson marcando no fim, na sobra de um escanteio. Uma semana depois, na última rodada, os Sky Blues se salvariam da queda ao vencerem o Norwich por 2 a 1 em casa e ouvirem pelo rádio o empate do Birmingham (que cairia) com o Southampton também em casa, 0 a 0.
1984/85
A primeira vitória do Luton no confronto pela elite veio em 26 de dezembro de 1984, na rodada de Boxing Day. Os dois andavam mal naquela altura e figuravam na zona de rebaixamento antes da partida: os Hatters ocupavam a penúltima colocação e os Sky Blues, a antepenúltima. Mas o Luton se aproveitaria do péssimo desempenho do Coventry fora de casa até ali (oito derrotas em dez jogos como visitante) para vencer por 2 a 0 com um belo gol de Brian Stein e outro de Ray Daniel e saltar para fora do Z-3, empurrando o Ipswich.
Os Hatters, que com aquele triunfo somavam apenas cinco em 21 jogos até aquele momento, até demorariam um pouco, mas logo se aprumariam, estabilizando-se no meio da tabela e acabando na 13ª colocação. Já o Coventry viveria mais uma temporada de desespero. Com três partidas por fazer, somava 41 pontos. O Norwich, primeiro fora do Z-3, já havia terminado sua campanha com 49. Ou seja: os Sky Blues precisariam vencer todas – vitória já valia três pontos na liga inglesa de então – para não descerem ao inferno da segundona.
E o jogo do meio era contra o Luton em casa, no dia 23 de maio de 1985. Antes, o Coventry teria o lanterna Stoke fora de casa: já condenados há séculos, os Potters não ofereceram resistência e perderam por 1 a 0. Então viriam os Hatters, que criaram chances para abrir o placar antes de os donos da casa tomarem o controle do jogo mais na base do abafa. Até que, aos 38 minutos da etapa final, o zagueiro Brian Kilcline apanhou um rebote da entrada da área e chutou para marcar o gol da dramática vitória do Coventry por 1 a 0.
Ao apito final, a torcida da casa invadiu o campo, aliviada pelo time seguir vivo na briga contra a queda. Na última partida, o Coventry ainda teria a enorme sorte de receber um Everton mutilado por sete desfalques e já de porre pela comemoração das conquistas da liga e da Recopa europeia. A tranquila goleada de 4 a 1 fez com que os Sky Blues completassem sua missão e chegassem aos 50 pontos, condenando o Norwich, campeão da Copa da Liga em Wembley naquela temporada, a uma inesperada queda para a segunda divisão.
1985/86
O Luton estabeleceu seu recorde de pontos na elite (66) naquela temporada, a primeira após a instalação do gramado sintético em Kenilworth Road e a última sob o comando do técnico David Pleat antes de sua saída para o Tottenham em maio de 1986. E mesmo assim perdeu ambos os confrontos para o Coventry. Os seis pontos, aliás, foram cruciais para que os Sky Blues escapassem mais uma vez do descenso: ao final, o time somou 43 contra 41 do primeiro dentro do Z-3, o Ipswich, campeão da Copa da Uefa cinco anos antes.
A derrota no jogo de ida, em Kenilworth Road, foi a primeira do Luton no novo gramado, a primeira em casa na campanha da liga e uma das apenas três que o clube sofreria diante de sua torcida na temporada. O chute do meia Dave Bowman aos 35 minutos do primeiro tempo desviou na defesa e passou por entre as mãos do goleiro Les Sealey (ex-Coventry), dando aos Sky Blues a vitória por 1 a 0 no dia 16 de novembro de 1985. Enquanto isso, do outro lado, Steve Ogrizovic fechou a meta para impedir o empate e a reação dos donos da casa.

Quando os dois clubes se reencontraram, em Highfield Road no dia 19 de abril de 1986, o Luton já havia subido para a sétima colocação, enquanto o Coventry estava a um ponto e a uma posição acima da zona de rebaixamento. Dentro de campo, porém, parecia que a situação era a inversa: os Hatters não deram sequer um chute a gol e foram amplamente dominados pelos Sky Blues, que venceram novamente por 1 a 0, gol de Nick Pickering, e poderiam ter triunfado por um placar mais amplo, se não tivessem desperdiçado tantas chances.
Nos dois últimos jogos, o Luton venceria o derby contra o Watford em casa por 3 a 2 e empataria em 1 a 1 na visita ao Manchester City, terminando na nona colocação, sua melhor desde 1958. Já o Coventry, que passara a temporada toda rondando a zona de rebaixamento, se livraria da degola mais uma vez na última partida, no dia 3 de maio, ao derrotar o já salvo e desinteressado Queens Park Rangers por 2 a 1 de virada em Highfield Road.
1986/87
A temporada 1986/87 foi inesquecível para ambos: o Luton obteve sua melhor colocação na elite (sétimo lugar) e o Coventry conquistou seu único troféu, a FA Cup. Nos duelos pela liga, porém, só deu Luton, que venceu em casa e fora. Na altura do jogo de ida, no dia 1º de janeiro de 1987, os Sky Blues até estavam um posto à frente (sétimo contra oitavo dos Hatters). Mas Brian Stein marcou numa rara chance para decretar a vitória do Luton por 1 a 0 – a única em Highfield Road no período e a primeira do clube no estádio desde 1930.
O triunfo marcaria o início de uma reação dos Hatters, que somaram cinco vitórias e dois empates em sete jogos pela liga nos dois primeiros meses do ano. No meio dessa sequência, ainda tirariam o Liverpool na FA Cup com uma vitória categórica por 3 a 0 no segundo replay. Quando chegou o jogo da volta contra o Coventry, no dia 18 de abril, a equipe ocupava uma ótima quarta colocação, só atrás de Everton, Liverpool e Tottenham. Uma cabeçada de Brian Stein e um belo chute de Mike Newell selaram mais a nova vitória do Luton por 2 a 0.
Era o troco dos Hatters pela dobradinha do Coventry na temporada anterior. No fim das contas, o Luton desceria ao sétimo posto – ótima classificação de qualquer forma – enquanto o adversário se estabilizaria em décimo. Os Sky Blues, porém, fechariam a temporada com a conquista inédita da FA Cup superando Bolton, Manchester United, Stoke, Sheffield Wednesday e Leeds antes de bater o Tottenham por 3 a 2 na prorrogação na final em Wembley, impondo aos Spurs sua única derrota em nove decisões na história da competição.
1987/88
O troco do troco: na temporada vitoriosa do Luton na Copa da Liga, o Coventry venceu ambos os confrontos pelo Campeonato Inglês. O primeiro foi logo pela segunda rodada, e o Coventry voltou a vencer na grama sintética de Kenilworth Road, como havia feito em 1985. Um pênalti bastante contestado de Darron McDonough em David Speedie e convertido pelo zagueiro Brian Kilcline deu a vitória aos Sky Blues por 1 a 0. Entre as duas partidas pela liga, porém, haveria o duelo pela Copa da Liga, disputado em Filbert Street, estádio do Leicester.
A partida foi tirada de Kenilworth Road devido às restrições dos Hatters a torcedores visitantes. Por ironia, acabaria levada a uma cidade mais próxima de Coventry do que de Luton. Do público total de pouco mais de 11 mil torcedores, apenas 1.500 eram do clube “mandante”. O Luton, porém, nem se importou e venceu por 3 a 1, tendo como destaque o atacante Mick Harford, autor de dois gols e que só não completou sua tripleta por perder um pênalti no último minuto, salvo por Steve Ogrizovic. O ponta Micky Weir anotou o outro.

Entre 10 de fevereiro e 12 de março de 1988, num intervalo de 32 dias, o Luton faria dez partidas, sendo oito por copas (três pela FA Cup, a ida e a volta das semifinais da Copa da Liga e outras três pela desprestigiada Full Members’ Cup). O cansaço pela maratona de decisões cobraria seu preço no segundo confronto com o Coventry, no dia 15 de março em Highfield Road, o terceiro jogo fora de casa seguido pela liga. Diante disso, os Sky Blues não têm trabalho para golear por 4 a 0, gols de Gary Bannister, Brian Kilcline, Cyrille Regis e Steve Sedgley.
Com o resultado, o Coventry daria um salto da 14ª posição para tomar o nono lugar do Luton, que caiu para décimo. Os Hatters perderiam a final da Full Members’ Cup para o Reading e cairiam nas semifinais da FA Cup diante do Wimbledon (que seria campeão, vencendo o Liverpool na decisão). Mas compensariam conquistando a Copa da Liga no dia 24 de abril batendo o Arsenal por 3 a 2 em Wembley com direito a virada nos minutos finais. Na liga, terminariam em nono com a mesma pontuação do Coventry, que ficaria um lugar abaixo pelo saldo.
1988/89
Antes do primeiro confronto, em Highfield Road no dia 12 de novembro de 1988, os dois vinham de quatro jogos sem ganhar pela liga, mas o Coventry se garantia em sétimo graças ao bom início de temporada com quatro vitórias nos seis primeiros jogos. O Luton, porém, só vencera dois jogos (curiosamente contra Everton e Liverpool), avizinhava-se da zona de degola e ficaria em situação mais complicada com a vitória dos Sky Blues por 1 a 0, gol do zagueiro Graham Rodger – que se transferiria para os próprios Hatters ao fim da temporada.
O Coventry engrenaria após aquele resultado e faria uma de suas melhores campanhas na elite. Em dezembro, chegaria a alcançar a terceira colocação. Mas dera vexame na FA Cup logo no mês seguinte, ao cair para o Sutton United, da non-league, numa zebra histórica. Quando reencontrou o Luton, dessa vez em Kenilworth Road, ainda ocupava um ótimo sexto lugar. Já os Hatters haviam entrado no Z-3 e só estavam à frente de Newcastle e West Ham. Além disso, seis dias antes tinham perdido a final da Copa da Liga para o Nottingham Forest.
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O duelo foi bem movimentado. O Luton saiu na frente com uma cabeçada de John Dreyer após escanteio. O Coventry igualou num chute de Cyrille Regis que desviou em Steve Foster. Os donos da casa recuperaram a vantagem depois que Danny Wilson teve um pênalti defendido por Steve Ogrizovic, mas ele próprio pegou o rebote e marcou. No fim, numa saída em falso do goleiro Alec Chamberlain, David Smith decretou o empate em 2 a 2. Mas a repercussão foi nula: afinal, era 15 de abril de 1989, dia da tragédia de Hillsborough.
1989/90
Os dois haviam começado bem a temporada: o Coventry ocupava a quinta posição e o Luton era o sétimo. Mas os Sky Blues ficariam em situação ainda melhor após vencerem por 1 a 0 o primeiro duelo em Highfield Road no dia 16 de setembro de 1989. Um gol de Gary Bannister, superando a linha de impedimento (mal)feita pelos Hatters decidiria o jogo, mas o Luton perderia ótima chance de igualar num pênalti sofrido pelo sul-africano Roy Wegerle (que mais tarde defenderia a seleção dos Estados Unidos) que Danny Wilson bateu para fora.
A vitória alçou o Coventry à terceira colocação. Mas logo o time começaria a alternar entre séries de bons e maus resultados, que o puxaram mais para o meio da tabela. Quando voltou a enfrentar o Luton, no entanto, estava de novo em alta, era o sexto colocado, vindo de quatro vitórias nos últimos cinco jogos. Os Hatters viviam fase oposta: haviam enfileirado 11 jogos sem ganhar pela liga entre o início de novembro de 1989 e meados de fevereiro de 1990, caindo também em todas as copas (FA, da Liga e a esquecida Zenit Data Systems Cup).
O mau momento havia levado inclusive à demissão, em janeiro, do técnico campeão da Copa da Liga Ray Harford, no cargo desde junho de 1987. O escocês Jim Ryan entrou em seu lugar e estava no comando quando os dois times voltaram a medir forças em Kenilworth Road em 7 de março de 1990. Um gol de Kingsley Black fez o Luton ir ao intervalo em vantagem, mas no início da etapa final, o Coventry virou com Kevin Drinkell e Cyrille Regis. Os Hatters, porém, buscaram a virada da virada com Phil Gray e Iain Dowie e venceram por 3 a 2.
A reação valeu a saída temporária do Luton da zona da degola, ultrapassando o Manchester City. O time voltaria a frequentar o Z-3 naquela campanha e chegaria a estar praticamente condenado, mas escaparia ao vencer suas três últimas partidas e contar com a derrota em casa do Sheffield Wednesday para o Nottingham Forest na rodada decisiva, no dia 5 de maio. Já o Coventry acabaria a temporada em 12º e de forma melancólica, vencendo apenas um dos últimos 10 jogos e sendo goleado em casa pelo Liverpool por 6 a 1 na despedida.
1990/91
Uma temporada em que ambos andaram mal. Acabaram salvos, porém, por uma reformulação do campeonato anunciada antes do início da temporada: a liga decidiu voltar, a partir de 1991/92, com o número tradicional de 22 clubes na primeira divisão em vez dos 20 de então e, com isso, naquela temporada apenas os dois últimos seriam rebaixados. O resultado foi que, mesmo por vezes amargando longas sequências ruins, nem Coventry nem Luton figuraram em momento algum na zona de descenso – no máximo, um posto acima.
Embora viesse ligeiramente acima na classificação em relação ao Coventry (11º contra 15º lugar), o Luton chegava para o primeiro confronto, no dia 22 de setembro de 1990, vindo de uma goleada de 6 a 1 sofrida na visita ao Queens Park Rangers e precisava reagir. E conseguiria ao vencer por 1 a 0 num gol de Iain Dowie raspando de cabeça uma bola alçada para a área por Kingsley Black. Aquele seria o último confronto disputado no gramado sintético em Kenilworth Road. O chamado “Sporturf” sairia de cena ao fim daquela temporada.
As trajetórias das duas equipes se inverteriam entre um confronto e outro. O Coventry, que até o Natal só havia vencido três de suas 18 partidas, arrancou uma boa sequência sob novo comando – o zagueirão Terry Butcher, ex-seleção inglesa, assumiu como jogador-técnico em novembro – e chegou até a ficar seis jogos invicto entre março e abril de 1991, terminando em 16º. Já o Luton acumularia nada menos que 15 derrotas em 22 jogos a partir da meados de dezembro de 1990 e só confirmaria a salvação do descenso na última rodada.
Uma dessas 15 seria o jogo da volta contra o Coventry em Highfield Road no dia 13 de março de 1991. Os Hatters até que viviam seu melhor momento naquela fase crítica: nos quatro jogos que precederam o confronto, haviam vencido Liverpool e Nottingham Forest em casa e o Aston Villa fora, só perdendo para o Manchester City em Maine Road. Confiantes, saíram na frente dos Sky Blues com Graham Rodger na “lei do ex”. Mas cederiam a virada por 2 a 1 na etapa final com gols de Brian Borrows de pênalti e Andy Pearce de cabeça.
1991/92
Na última temporada do Luton na elite até hoje, ele teria exatamente o Coventry como principal adversário na reta final da briga pela salvação. O primeiro confronto da temporada, no entanto, veio já na segunda rodada, e a goleada do Coventry por 5 a 0 em Highfield Road em 21 de agosto de 1991 indicaria o calcanhar de Aquiles dos Hatters naquela campanha: o horrível desempenho como visitante. Se a campanha como mandante foi de parte de cima da tabela, fora de casa o Luton não ganhou nenhum jogo e somou só cinco pontos.
Foi uma tarde desastrosa para os Hatters. Dois gols de Kevin Gallacher aproveitando lambanças da defesa colocaram o Coventry em vantagem. Entre um e outro, o meia Sean Farrell, do Luton, foi expulso. E ainda antes do intervalo, Robert Rosario anotou o terceiro pegando rebote da trave. Na etapa final, Dave Smith e Paul Furlong fecharam a goleada. O Luton só venceria a primeira na temporada no sexto jogo, batendo o Southampton por 2 a 1. Mas logo ficaria 11 jogos sem ganhar entre o meio de setembro e o meio de dezembro.
E quem seria o adversário a encerrar o jejum de vitórias dos Hatters, lanternas do campeonato? O Coventry, no jogo de volta em Kenilworth Road (agora com grama natural) em 20 de dezembro de 1991. O único gol na vitória do Luton por 1 a 0, marcado pelo atacante Mick Harford, sairia numa daquelas típicas jogadas de confusão na área e furadas da defesa em confrontos de equipes da parte de baixo da tabela. Para os Sky Blues, que se aproximavam cada vez mais da zona de descenso, era a sétima derrota nos últimos oito jogos.
Em 6 de janeiro de 1992, o Coventry demitiria Terry Butcher e contrataria o veterano Don Howe, que adotaria um esquema mais defensivo. Se com o antigo treinador a equipe cumpria campanha oscilando entre vitórias e derrotas (mais estas do que aquelas), com o novo inicialmente passaria a acumular empates – enfileiraria quatro 0 a 0 consecutivos entre fevereiro e março de 1992. Mas logo começaria também a perder e entraria em viés de queda na tabela, até se instalar de vez na 19ª posição, com o Luton logo acima, em 20º.
Em 18 de abril, o Coventry recebeu o Everton e perdeu por 1 a 0, enquanto o Luton ficou no 1 a 1 com o Manchester United também em casa, reduzindo a diferença entre eles – ou entre os Sky Blues e a zona de rebaixamento – para apenas dois pontos faltando três jogos. Dali a dois dias, os dois perderiam como visitantes (o Coventry para o Leeds e o Luton para o Queens Park Rangers). Já no dia 25, ambos venceriam em casa (o Coventry bateu o West Ham e o Luton, o Aston Villa). E a brincadeira de gato e rato foi até a última rodada.
Na data decisiva, a dupla jogaria fora de casa: o Coventry pegaria o rival regional Aston Villa, nono colocado, ao passo que o Luton tinha tarefa aparentemente mais tranquila contra o Notts County, vice-lanterna e já condenado. Os Hatters saíram na frente com gol do zagueiro Julian James e logo passaram a sonhar com a primeira vitória como visitante e a salvação. Mas os Magpies chegariam à virada com dois gols do atacante Rob Matthews, arrastando o Luton para a segundona com eles. Mesmo batido pelo Villa por 2 a 0, o Coventry se salvaria.





