Corrida a dois

Um a um, os candidatos vão caindo. Primeiro, foi o Arsenal, que perdeu pontos estúpidos em casa e foi ficando para trás. Depois, o Aston Villa, que ninguém via realmente como um concorrente viável. Agora, o Chelsea. Assim, a disputa pelo título inglês já fica com cara de segundo turno de eleição: com todo mundo praticamente fora e apenas dois postulantes vivos. No caso, Manchester United e Liverpool.
A posição mais confortável é do United. A bem da verdade, os Red Devils já se colocam como favorito destacado – algo que essa coluna já dizia quando o time ainda era terceiro colocado na tabela –, com dois pontos que virtualmente podem se tornar cinco de vantagem sobre o segundo colocado. Além disso, o confronto direto com os Reds será em Old Trafford.
Nas condições atuais do campeonato, parece improvável que os mancunianos venham a perder o ritmo. O time atual parece menos espetaculoso que o da temporada passada, mas uma análise mais profunda indica que pode ser mais eficiente. E, por isso, mais difícil de superar em longo prazo.
Na temporada 2007/08, o Manchester United centrava seu jogo na velocidade de Cristiano Ronaldo e Rooney, muitas vezes coadjuvados por Tevez e Giggs. Hoje, a equipe tem um futebol um pouco mais lento, com Ronaldo menos inspirado e jogadas que muitas vezes têm como referência um atleta lento: Berbatov.
Isso não significa que a equipe esteja mais lenta e previsível. Pelo contrário. Com esse novo estilo, o Manchester United ficou mais consistente como um todo, sobretudo na defesa. Contra o Everton, Carrick foi um monstro no meio-campo, se deslocando por todos os cantos para fechar o setor e levar a bola aos companheiros de frente.
Um sinal dessa solidez é que Van der Sar completou 12 jogos sem sofrer gols. Considerando que o último sofrido (contra o Arsenal) foi aos 3 minutos do segundo tempo, já são 1.122 minutos sem buscar a bola na própria rede. É a maior marca da história da liga inglesa, contando todas as divisões (o recorde anterior era de Steve Death, que ficou invicto por 1.104 minutos pelo Reading na quarta divisão de 1978/79).
Esse momento do Manchester United deixa pouca margem para imaginar tropeços na reta final, como quase ocorreu na temporada passada (quando os Red Devils quase foram atropelados pelo Chelsea). Apenas uma equipe muito forte e com talentos capazes de quebrar a lógica dos números e da tática pode superar essa tendência.
É nesse ponto que o Liverpool reserva suas esperanças. Contra o Chelsea, os Reds mostraram que podem sombra ao rival. Os liverpudlianos contam novamente com Fernando Torres, afastado por várias semanas devido a uma contusão, e recuperaram seu poder de decisão no ataque. Com Robbie Keane na frente, a fagulha de talento ficava por conta de Gerrard. O meia é craque, mas nem sempre está no ataque para decidir as partidas.
O problema é que ainda é pouco. O time precisa de um banco de reservas mais forte, ainda mais porque tem condições de ir longe na Liga dos Campeões. Para piorar, a única grande especulação de mercado envolvendo o Liverpool tem o time vermelho como vendedor. No caso, a eventual venda de Keane para o Tottenham.
Mesmo com todos esses buracos, o Liverpool se mantém a uma distância aceitável do líder e pode imaginar uma disputa acirrada nas rodadas finais, ainda mais se vencer o confronto direto em Old Trafford. É a chance de o Campeonato Inglês ter alguma emoção até o final, porque a classificação já se dividiu em blocos e há pouca briga por vagas na Liga dos Campeões e da Liga Europa.
Mercado da crise
A janela de transferência de inverno tem refletido o momento de crise econômica mundial. Com exceção de Tottenham e Manchester City, dois times com muito mais dinheiro do que resultados e carentes de uma reação para salvar a temporada, os clubes têm sido discretos nos investimentos.
O mercado chega a seu último dia com muitos empréstimos, contratações de jogadores desconhecidos ou de atletas encostados em suas equipes anteriores. Ou seja, nada muito espetacular. Mesmo o Arsenal, que precisaria de um reforço para bater o Aston Villa na luta por um lugar na LC, e o Liverpool, que poderia apostar em mais um ou dois nomes para superar o Manchester United na disputa do título, estão quietos.
Uma contratação de última hora pode mudar essa realidade (aliás, confira o ao vivo do último dia do mercado para saber se algo rolou), mas o cenário geral é de discrição. Veja o que já aconteceu:
Arsenal
Chegou: ninguém
Saiu: Jay Simpson (West Brom), Rui Fonte (Crystal Palace) e Quincy Owusu-Abeyie (Cardiff City)
Aston Villa
Chegou: Emile Heskey (Wigan)
Saiu: Wayne Routledge (Queen’s Park Rangers) e Sam Williams (Walsall)
Blackburn
Chegou: Gaël Givet (Olympique de Marselha-FRA), Nick Blackman (Macclesfield Town) e El-Hadji Diouf (Sunderland)
Saiu: Eddie Nolan (Preston North Eend), Sergio Peter (Sparta Praga-TCH) e Frank Fielding (Rochdale)
Bolton
Chegou: Ariza Makukula (Benfica-POR), Sebastien Puygrenier (Zenit-RUS) e Mark Davies (Wolverhampton)
Saiu: Heidar Helguson (Queen’s Park Rangers) e Kevin Nolan (Newcastle)
Chelsea
Chegou: Gokhan Tore (Bayer Leverkusen-ALE)
Saiu: Wayne Bridge (Manchester City), Jack Cork (Watford), Scott Sinclair (Birmingham City), Carl Magnay (Milton Keynes Dons) e Carlo Cudicini (Tottenham)
Everton
Chegou: ninguém
Saiu: Lee Molyneux (Southampton) e John Ruddy (Crewe Alexandra)
Fulham
Chegou: Giles Barnes (Derby County)
Saiu: Hameur Bouazza (Birmingham City), Lee Cook (Queen’s Park Rangers), Seol Ki-Hyeon (Al Hilal-ARS), Thomas Moncur (Wycombe) e Jimmy Bullard (Hull City)
Hull City
Chegou: Manucho (Manchester United), Kevin Kilbane (Wigan) e Jimmy Bullard (Fulham)
Saiu: Dean Windass (Oldham), Wayne Brown (Leicester City) e Stelios Giannakopoulos (Larissa-GRE)
Liverpool
Chegou: ninguém
Saiu: Jermaine Pennant (Portsmouth)
Manchester City
Chegou: Wayne Bridge (Chelsea), Craig Bellamy (West Ham), Nigel de Jong (Hamburg) e Shay Given (Newcastle)
Saiu: Javan Vidal (Aberdeen-ESC), Tal Ben Haim (Sunderland), Paul Marshall (Blackpool) e Sam Williamson (Wrexham)
Manchester United
Chegou: Zoran Tosic (Partizan-SER), Adem Ljajic (Partizan-SER) e Ritchie De Laet (Stoke City)
Saiu: Adem Ljajic (Partizan-SER), Manucho (Hull City), Tom Cleverley (Leicester), Sam Hewson (Hereford United) e David Gray (Plymouth Argyle)
Middlesbrough
Chegou: Marlon King (Wigan)
Saiu: Jonathan Grounds (Norwich), Seb Hines (Derby County), Tom Craddock (Luton Town) e Mido (Wigan)
Newcastle
Chegou: Peter Lovenkrands (sem clube) e Kevin Nolan (Bolton)
Saiu: Shay Given (Manchester City)
Portsmouth
Chegou: Jermaine Pennant (Liverpool), Nadir Belhadj (Lens-FRA), Theofanis Gekas (Bayer Leverkusen-ALE), Hayden Mullins (West Ham) e Pele (Porto-POR)
Saiu: Lassana Diarra (Real Madrid-ESP), Jermain Defoe (Tottenham)
Stoke City
Chegou: James Beattie (Sheffield United) e Matthew Etherington (West Ham)
Saiu: Tom Soares (Charlton), Ryan Shotton (Tranmere), Carl Dickinson (Leeds United) e Nathaniel Wedderburn (Notts County)
Sunderland
Chegou: Tal Ben Haim (Manchester City)
Saiu: Liam Miller (Queen’s Park Rangers), Ross Wallace (Preston North End), Graham Kavanagh (Carlisle), Roy O'Donovan (Blackpool), Pascal Chimbonda (Tottenham) e El-Hadji Diouf (Blackburn)
Tottenham
Chegou: Jermain Defoe (Portsmouth) Wilson Palacios (Wigan), Carlo Cudicini (Chelsea) e Pascal Chimbonda (Sunderland)
Saiu: Kevin-Prince Boateng (Borussia Dortmund-ALE), Paul Stalteri (Borussia Mönchengladbach-ALE), Troy Archibald-Henville (Exeter City), David Button (Bournemouth) e Charlie Daniels (Leyton Orient)
West Brom
Chegou: Jay Simpson (Arsenal) e Marc-Antoine Fortuné (Nancy-FRA)
Saiu: Bartosz Slusarski, Sherjill MacDonald (Roeselare-BEL) e Lee Baker (Kidderminster)
West Ham
Chegou: Savio Nsereko (Brescia-ITA) e Radoslav Kovac (Spartak Moscou-RUS)
Saiu: Craig Bellamy (Manchester City), Julien Faubert (Real Madrid-ESP), Lee Bowyer (Birmingham City), Matthew Etherington (Stoke City), Kyel Reid (Wolverhampton), Joe Widdowson (Grimbsy Town) e Hayden Mullins (Portsmouth)
Wigan
Chegou: Mido (Middlesbrough), Ben Watson (Crystal Palace) e Hugo Rodallega (Necaxa-MEX)
Saiu: Marlon King (Middlesbrough), Luke Ashworth (Leyton Orient), Lewis Montrose (Cheltenham) e Wilson Palacios (Tottenham)



