Copero y peleador

Reina é reserva direto de Casillas na seleção espanhola. Arbeloa nem é convocado para a lateral direita da Fúria, onde está Sergio Ramos, um dos melhores do mundo na posição. Mesmo desgastado pela idade, Cannavaro ainda é tecnicamente superior a Skrtel ou Carragher. Xabi Alonso e Mascherano realmente formam uma boa dupla de volantes, assim como Gerrard é um grande líder e Torres um excelente atacante. Mas Kuyt e Babel não melhores que Robben, Sneijder ou Raúl. Em resumo, no papel o Liverpool é, com alguma generosidade, tão bom quanto o Real Madrid. Com um olhar mais crítico, os Blancos estão um ou dois degraus acima.
Seria tão simples ver o mundo assim… Bem, mas o futebol não é batalha naval, em que o que está escrito no papel é a verdade absoluta para o embate. Assim, os Reds massacraram o Real Madrid: 1 a 0 no Santiago Bernabéu, gol do limitado Benayoun, e 4 a 0 em Anfield, onde até o contestado Dossena fez gol. Dias depois, esse mesmo time do Liverpool foi capaz de um placar ainda mais significativo. Em Old Trafford, meteu 4 a 1 no Manchester United (Dossena fez mais um!), dando a impressão de que o Campeonato Inglês ainda não está definido.
É impossível ignorar o poder de um time capaz de fazer oito gols em menos de uma semana, enfrentando os atuais bicampeões de Espanha e Inglaterra. Ainda mais se essa equipe não tem um time dos mais impressionantes. Sinal de como os vermelhos conseguem encontrar forças para crescer nos momentos decisivos, apresentando um futebol mais competitivo do que se supõe.
As duas goleadas têm pontos em comum. Os principais foram o modo como a liderança de Gerrard faz todo o time encarnar o espírito vencedor do clube liverpudliano e como Fernando Torres, quando inspirado, é um dos atacantes mais perigosos do mundo. Aliás, ambos deram razões de sobra para serem considerados dois dos jogadores em melhor fase no planeta.
Com um goleiro seguro, uma defesa determinada até a medula, um meio-campo batalhador e com alguns momentos de brilho e um atacante decisivo, o Liverpool se torna um adversário duro para qualquer um. Só assim para uma equipe de elenco reduzido e que teve vários problemas de contusão durante a temporada poder ganhar duas vezes de Manchester United, Real Madrid e Chelsea.
O futebol apresentado pelos Reds nesta semana foi um dos pontos altos da atual temporada europeia. Se jogasse sempre nesse nível, o clube de Merseyside seria favorito a quebrar o tabu de quase duas décadas sem título nacional. No entanto, a realidade é um pouco diferente.
O Liverpool trabalha muito em cima da sensação de decisão para mostrar seu melhor futebol. Não é apenas questão de motivação: é o modo como o time montou seu jogo, dependendo de algumas figuras-chave (que jamais são poupadas nesses confrontos) e de um adversário que tenha uma certa responsabilidade de tomar a iniciativa.
É isso que deve ser fatal aos Reds. A vitória contra o Manchester United reduziu a diferença entre ambos para 4 pontos, dando a sensação de que o título inglês está aberto. Não é bem assim. Os Red Devils têm um jogo a menos (contra o Portsmouth, provável vitória) e podem aumentar a vantagem para sete pontos. Ou seja, continuam fora do alcance.
Isso ocorre porque os liverpudlianos insistem em perder pontos contra os times pequenos. Nessa partidas, a equipe precisa mudar suas características de jogo e, principalmente, poupar jogadores importantes. Sem tantas opções no banco, soçobram. Isso ficou evidente no final de fevereiro, quando os Reds empataram com o Stoke City em casa e perderam do Middlesbrough (dois times na zona de rebaixamento).
Sendo realista, é mais fácil ver o Liverpool levantando o troféu da Liga dos Campeões do que o da Premier League. Em um torneio de mata-mata, só com jogos decisivos, os Reds se sentem mais confortáveis e competitivos. Aí sim, é viável imaginar mais atuações irresistíveis como as das duas goleadas desta semana.
Torresdependência?
Os acachapantes 4 a 1 sobre o Manchester United despertaram mais uma vez a ideia de que o Liverpool depende de Fernando Torres, um dos destaques da partida. E nos ingleses já imaginam que, se ele não tivesse se contundido no início da temporada, o time de Merseyside estaria mais forte na briga pelo título. Será mesmo?
Com o espanhol, os Reds tiveram 9 vitórias e 7 empates em 16 jogos, aproveitamento de 70,8%. Nesse universo, houve ótimas apresentações dos vermelhos, como as vitórias sobre Everton (2×0), Manchester City (3×2 de virada), Chelsea (2×0) e Manchester United (4×1). No entanto, houve tropeços indesculpáveis, como os 0 a 0 contra Fulham e Stoke City.
Sem Torres, o retrospecto não é muito diferente. Foram 8 vitórias, 3 empates e 2 derrotas em 13 jogos. Apesar de as únicas derrotas terem sido sem o atacante ibérico, a quantidade de empates é menor e o aproveitamento geral fica muito parecido: 69,2%. Sem o espanhol, o Liverpool obteve grandes resultados, como vitórias sobre Manchester United (2×1), Chelsea (1×0) e Newcastle (5×1 fora), e também perdeu pontos irrecuperáveis, como em outro 0 a 0 com o Stoke City e na derrota para o frágil Middlesbrough.
O único dado que chama a atenção é que os liverpudlianos venceram todas as seis partidas em que o ex-Atlético de Madrid fez gol. Ou seja, o Liverpool não depende de Torres, porque o espanhol não é efetivo sempre e teria grande chance de manter a mesma média de desempenho se estivesse em campo toda a temporada. O que faltou, portanto, foi ter opções ofensivas para as partidas em que Torres não pôde decidir.
Aston Villa sem gás
Há três semanas, este colunista apostaria sem pudor que o Aston Villa ficaria com a quarta vaga inglesa na Liga dos Campeões. Graças a Deus não apareceu ninguém desafiando. Nas últimas três rodadas, os Lions fizeram apenas um ponto e desperdiçaram toda vantagem que tinham sobre o Arsenal.
A má fase é até compreensível. Com um elenco sem tantas opções, o Villa sentiria o desgaste da temporada na reta final. O problema é que isso tem ocorrido um pouco mais cedo – e contra adversários mais fracos – que o esperado. Assim, há tempo de sobra para uma arrancada dos Gunners ter efeito.
Contra o Tottenham, o time de Birmingham não teve uma atuação particularmente ruim. No entanto, os jogadores-chave (Barry e Ashley Young) já não têm tanta volúpia para decidir. Além disso Agbonlahor se afunda em uma má fase que lhe rendeu vaias da torcida neste domingo.
Mais que a nova cara da tabela de classificação, o que dá motivos para pessimismo no Aston Villa é o ambiente. Vaias da torcida e o acúmulo de tropeços indesculpáveis tiram a confiança do elenco. Esse ritmo acelerado, em que bons resultados animavam o time a buscar novas vitórias, é que colocou o Villa na disputa pela vice-liderança em determinado momento da competição. Se isso for perdido, será impossível se manter à frente de um time tecnicamente mais preparado como o Arsenal.



