Inglaterra

Com Thiago, Liverpool desviou de sua política de contratações para ter uma arma que lhe estava faltando

O Liverpool negava. Era meio protocolar. Respeito pela campanha do Bayern de Munique que ainda estava em andamento na Champions League e cautela após a experiência com Virgil Van Dijk – quando foi acusado de aliciar o jogador pelo Southampton e precisou esperar seis meses para fechar a contratação. Mas todo mundo sabia que Thiago interessava e que o jogador desejava um “novo desafio”. A torcida, talvez motivada pelo tédio da quarentena, se antecipou e preparou uma música para a sua futura estrela. É cantada ao ritmo de Cuba, dos Gibson Brothers, e diz que Thiago “dança no meio-campo como ninguém”. A sabedoria da letra é que esse é justamente o ponto principal do negócio: as características quase únicas do campeão europeu darão uma nova arma ao já vasto arsenal do Liverpool.

Para buscar o que ainda não tinha, o Liverpool precisou desviar da sua política de contratações. Thiago, 29, é apenas o segundo jogador com mais de 26 anos contratado por Jürgen Klopp em Anfield. O outro havia sido Ragnar Klavan, uma solução de emergência para a equipe de apoio da defesa, em seu primeiro mercado completo. Ele também é o primeiro reforço estabelecido como estrela e de um clube do mesmo nível dos Reds desde a chegada do alemão. Mesmo nomes caros como Alisson e Virgil Van Dijk ainda não estavam na primeira prateleira. Thiago acabou de ser um dos melhores em campo em uma final de Champions League pelo Bayern de Munique. Ele não terá que ser lapidado em um craque por Klopp como o restante dos jogadores recrutados. Está pronto. O desafio será adaptar as qualidades de Thiago ao seu estilo de jogo.

As condições do negócio tiveram um peso importante nessa mudança de perfil. Thiago tinha apenas mais um ano em seu contrato. Segundo a The Athletic, estava disposto a renovar com o Bayern de Munique até surgir o interesse do Liverpool. Foi atraído pela perspectiva de trabalhar com Klopp e de testar suas habilidades na Premier League. Informou ao Bayern que queria um novo desafio, o que o dirigente Karl-Heinz Rummenigge havia tornado público. Os bávaros, de acordo com a reportagem, esperaram o interesse de outros clubes para tentar aumentar o preço, mas nenhum concreto apareceu. Sem poder de barganha, tiveram que aceitar a proposta de £ 20 milhões mais variáveis de desempenho que aproximam o valor a £ 30 milhões. Diante da capacidade de Thiago, preço baixo o bastante para o Liverpool, ainda cauteloso pelas perdas de receitas causadas pela pandemia, não se preocupar com a impossibilidade de uma eventual revenda no futuro.

Thiago é uma contratação para o presente que responde a uma necessidade urgente do Liverpool: como melhorar ou pelo menos apresentar novidades depois de duas temporadas da Premier League próximo aos 100 pontos e com títulos do Mundial de Clubes e da Champions League? O desgaste natural de um grupo de jogadores praticamente intacto e de um estilo de jogo que conquistou todos os títulos à disposição era a principal preocupação para a próxima temporada. Thiago, sozinho, não soluciona tudo, mas oferece uma dimensão diferente ao meio-campo do campeão inglês.

O setor é um dos pontos fortes do Liverpool. Contudo, desde a saída de Coutinho, e com a dificuldade de Naby Keita de ter uma sequência de boas atuações, ele ficou homogêneo em características. O trio preferido de Klopp, com Fabinho, Henderson e Wijnaldum, é excepcional na pressão e controla o jogo com força física. Ganha as bolas pelo alto e as divididas e tem chegada à área, com eventuais chutes de longa distância, especialmente do brasileiro. Keita, se conseguir se tornar mais constante, acrescentaria infiltração e dribles em espaços curtos. Thiago agora acrescenta a capacidade de ditar o ritmo da posse de bola e, a partir dela, abrir espaços com passes. Tem criatividade e imprevisibilidade que, embora em um pacote diferente, faltavam desde a venda de Coutinho.

Faz aproximadamente dois anos que o Liverpool não é mais um time estritamente heavy metal, estilo pelo qual Klopp ficou famoso no Borussia Dortmund. Conseguiu aprender a cozinhar as partidas e a manter a posse de bola, uma das chaves para ter alcançado tanta regularidade na Premier League. Quando encara defesas fechadas, tem alguns mecanismos para abrir espaço. O principal deles é conseguir sustentar tamanha intensidade e volume de jogo durante um determinado período de tempo, sem deixar o adversário respirar, que eventualmente as oportunidades aparecem. Há também, a bola parada, o recuo de Firmino para armar o jogo a partir da entrada da área e as investidas em diagonal de Mané e Salah, com dribles curtos e agressividade. A melhor qualidade de passe, no entanto, vem dos lados. Quando os pontas centralizam, o corredor fica aberto para Andrew Robertson e Trent Alenxander-Arnold. Não é à toa que ambos, especialmente o jovem inglês, são os principais assistentes do time.

A principal qualidade dos outros jogadores do Liverpool é atacar os espaços. Agora, em Thiago, tem um jogador que é especialista em criá-los. Consegue fazê-lo desde a saída de bola, com um controle quase perfeito e dribles curtos. Tem o passe longo que encaixa tão bem com um time de rápida transição e a virada de jogo que se tornou uma das características marcantes do campeão inglês. E tem, principalmente, o passe curto e criativo que consegue quebrar aquele impasse tão comum no futebol de hoje em dia, quando um lado tem toda a posse de bola e o outro se concentra em se fechar.

Cria da escola do Barcelona e pupilo de Guardiola, Thiago também sabe exercer o jogo de pressão que Klopp tanto exige e tem qualidades defensivas que muitas vezes passam despercebidas, o que o permite atuar até mesmo como primeiro volante, o que pode ser necessário porque, com a saída de Lovren, o alemão pretende usar Fabinho como quarta opção na zaga, se não aparecer nenhuma oportunidade de zagueiro no mercado. De qualquer maneira, ele mantém o equilíbrio do meio-campo independentemente de onde jogar. Klopp pode usá-lo também como camisa 10, caso queira recuperar o antigo 4-2-3-1 que o seu Borussia Dortmund colocou em prática com excelência e que de vez em quando foi usado em Liverpool.

O único porém de Thiago é a parte física. Houve momentos de sua carreira com muitas lesões, mas, desde que perdeu a temporada 2014/15 quase inteira, tem estado praticamente livre de problemas sérios. Fez pelo 40 jogos em quatro dos últimos cinco anos – e 32 no outro. Sua chegada não significa necessariamente a saída de Wijnaldum nesta janela. Há o interesse do Barcelona, mas, ainda sem propostas, o holandês pode decidir por cumprir o último ano de seu contrato em Anfield. Apesar de a perda de receita uma eventual venda pesar, talvez seja mais importante ter o holandês como uma opção extra de rotação para um calendário que foi condensado em menos meses por causa da pandemia.

Além de numericamente ser um corpo a mais nesse revezamento, Thiago oferece principalmente uma brisa de ar fresco em um time que compreensivelmente chegou ao fim da última temporada parecendo esgotado mental e fisicamente. Ele consegue dar ao Liverpool uma opção menos desgastante de controle e criação que pode ser muito importante em uma temporada tão exigente. Embora toda nova contratação tenha um nível de risco, esta parece ter sido das mais certeiras.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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