Inglaterra

Com duas vitórias em 24 jogos, a passagem de Zola pelo Birmingham foi um desastre

A tabela da segunda divisão inglesa mostrava, em 14 de dezembro, o Birmingham City na oitava posição, a um ponto da zona dos playoffs de acesso, e a três da terceira posição. Faltavam 25 rodadas. A mesma tabela, nesta terça-feira, coloca o clube no 20º lugar, a três pontos da zona de rebaixamento. Faltam três rodadas. O que transformou, em apenas quatro meses, um time que brigava por uma vaga na Premier League em outro totalmente diferente que mal consegue se manter na Championship? Aconteceu uma passagem desastrosa de Gianfranco Zola como técnico, que pediu demissão na última segunda-feira, depois de apenas duas vitórias em 24 jogos.

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Zola foi um dos jogadores mais talentosos do futebol inglês na virada do século, mas se tornou mais um exemplo de que a qualidade com a bola nos pés não necessariamente significa qualidade com a prancheta na mão – e, para falar a verdade, as estatísticas mostram que essa relação poucas vezes é verdadeira. Seu primeiro trabalho foi no West Ham, com um promissor nono lugar, melhorando uma posição em relação à temporada anterior. Valeu um novo contrato de quatro anos para o italiano. No entanto, a época seguinte terminou com os Hammers na 17ª posição, apenas cinco pontos e um posto acima da zona de rebaixamento. Valeu a primeira demissão da carreira do italiano.

A passagem pelo Watford foi parecida. O time do coração de Elton John havia acabado de ser comprado pelos italianos da família Pozzo, dona também da Udinese e do Granada. Zola foi contratado para tocar o projeto que visava o retorno à primeira divisão e começou muito bem. Ficou em terceiro lugar na Championship 2012/13, a dois pontos da vaga direta para a Premier League. Venceu o Leicester nas semifinais dos playoffs e foi derrotado pelo Crystal Palace, na prorrogação do jogo que valia o acesso, com um gol de pênalti. E aí, as coisas desandaram de novo. Zola pediu demissão em dezembro, após cinco derrotas seguidas em casa, sem vencer desde outubro e em 13º lugar.

O seu terceiro projeto foi o Cagliari, clube em que encerrou a sua carreira, em 2005, depois de ajudá-lo a subir à primeira divisão italiana. Assumiu em dezembro de 2014, no lugar de Znedek Zeman. Ficou três meses e comandou apenas dez jogos, com duas vitórias, dois empates e seis derrotas. Zeman, que continuava na folha salarial do clube da Sardenha, apesar da demissão, foi chamado de volta, e o Cagliari acabou rebaixado. Em seguida, Zola treinou o Al-Arabi, do Catar, durante uma temporada completa. Ficou em oitavo lugar na liga com 14 equipes, exatamente a mesma posição do ano anterior, com exatamente o mesmo número de pontos (35), e foi demitido, em junho de 2016.

Livre no mercado, Zola foi anunciado pelo Birmingham, uma semana antes do último Natal, em uma decisão que chocou todo mundo envolvido com o clube. Porque o italiano, apesar de um ou outro bom momento, tinha muito mais nome do que um currículo sólido como treinador e substituiria um profissional que vinha fazendo um excelente trabalho. Gary Rowett foi contratado em outubro de 2014, logo depois de o Birmingham levar 8 a 0 do Bournemouth. Era vice-lanterna. Rowett conseguiu 14 vitórias, 13 empates e oito derrotas nas rodadas seguintes. Terminou aquela Championship em décimo lugar e na mesma posição na temporada seguinte.

Rowett armou um time organizado, difícil de ser batido, brigador e forte na defesa, com resultados acima da capacidade financeira do Birmingham, que gastou zero libras em reforços na temporada 2014/15 e £ 2,5 milhões na seguinte. Na janela de verão do ano passado, antes da atual Championship, desembolsou £ 2,3 milhões em transferências. Apenas Ipswich, Brentford, Preston North End, Blackburn, Nottingham Forest, Rotherham, Wigan, Burton Albion e Barnsley, entre as 24 equipes do campeonato, investiram menos, e nenhuma delas estava tão próxima da ponta quanto o Birmingham no momento em que Rowett foi demitido.

O que aconteceu foi algo infelizmente comum nos clubes ingleses. A empresa Trillion Trophy Asia, do chinês Paul Suen Cho Hung, tornou-se sócia majoritária do clube em outubro e decidiu seguir “uma nova direção”. Derrotas por 3 a 0, em casa, para o Barnsley, e por 4 a 0, para o Newcastle, pouco depois da aquisição, foram determinantes para a mudança de comando. Zola foi contratado para implementar um estilo diferente de futebol: mais ofensivo, com mais posse de bola, e considerado mais vistoso pelos novos donos.

“Os resultados são importantes, independente do estilo de futebol em que você decide jogar”, afirmou o técnico italiano em seus primeiros dias no cargo. “Acho que podemos juntar as duas coisas: conseguir resultados com o time jogando de certa maneira. Esse será o desafio e espero poder fazer isso. Será uma mudança de estilo, claro, mas não será dramático”.  Continuou em entrevista ao Guardian: “No fim do dia, mesmo que eu coloque o time jogando no tiki-taka, se eu não conseguir resultados, você sabe o que acontecerá. Todos têm que conseguir resultados do jeito que acha melhor. Gary fez isso do seu jeito. Eu vou tentar fazer do meu. Esse é meu desafio. Vamos ver o que acontece”.

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Vamos resumir a situação: o 14º elenco mais valioso da Championship, acostumado a jogar de certa maneira há duas temporadas, com atletas contratados e desenvolvidos de acordo com uma certa filosofia, passa por uma troca de comando, na qual o treinador que vinha conseguindo bons resultados é substituído por outro, mais famoso, sem grandes trabalhos na bagagem, e que na primeira conversa já quer mudar o que vinha dando certo, com um giro de quase 180 graus no estilo de jogo. Sem uma pré-temporada, no meio do campeonato, em um período bem movimentado do calendário. Qual você acha que foi o resultado?

Zola até teve dinheiro para gastar, na primeira janela em que o Birmingham teve acesso aos bolsos do novo dono. Torrou mais de £ 5 milhões – quase o dobro dos mercados anteriores – em quatro jogadores: o meia-esquerda Kerim Frei, o lateral-esquerdo Cheick Keita, o atacante Lukas Jutkiewicz e o lateral-direito Emilio Nsue. E, então, começou a confusão tática: tentou usar o 4-2-3-1 no seu primeiro jogo, perdeu do Brighton e voltou para o 4-4-2; insistiu no esquema com três meias armadores por mais quatro jogos e seguiu sem vitórias. Já estava há dez partidas no cargo, sem ter sentido o cheirinho dos três pontos e eliminado da Copa da Inglaterra pelo Newcastle. Armou um novo sistema, com três meias centrais, um armador e dois atacantes. Enfim, ganhou um jogo. Do Fulham, por 1 a 0. Essa formação durou somente mais duas partidas, com duas derrotas. O Birmingham de repente passou a atuar com três zagueiros. Foi goleado pelo QPR e ganhou do Wolverhampton.

O técnico havia dito que a mudança de estilo não seria dramática. Mas foi. Zola pegou o time com menos posse de bola nas últimas duas edições da Championship – 45,1% e 44,8% – e o orientou a propor o jogo. Pior do que isso, demorou muito tempo para perceber que seus jogadores não tinham nada para propor. Foi tentar uma abordagem mais cautelosa, ainda com três zagueiros, mas agora mais protegidos, apenas na sua 18ª partida e ficou satisfeito com os empates contra Cardiff City e Newcastle. No entanto, em sua derrota derradeira, na última segunda-feira, para o Burton Albion, em casa, por 2 a 0, teve 59,1% de posse de bola e acertou apenas dois chutes a gol.

Seria até legítimo que os novos donos do Birmingham buscassem um estilo de jogo mais adequado aos seus gostos. Mas foi um erro colossal dar início a esse projeto, de maneira drástica, no meio da temporada, interrompendo um bom trabalho. Ainda mais com um técnico que ainda pode se tornar bom, mas, neste momento tem apenas trabalhos medianos e ruins. O resultado: desperdiçaram uma temporada que poderia ter sido muito melhor do que foi.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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