Inglaterra

Charlie Watts também tinha sua paixão pelo futebol, a ponto de sonhar com a carreira de jogador antes de ganhar sua primeira bateria

Torcedor do Tottenham, o baterista dos Rolling Stones cresceu praticando futebol e críquete

O Rolling Stones sempre mereceu os palcos mais grandiosos para os seus shows. E algumas apresentações lendárias da histórica banda aconteceram em estádios de futebol. Era uma maneira de Charlie Watts, por linhas tortas, realizar seu sonho de infância. Antes de conhecer a bateria, o músico era fanático pela bola. Enquanto crescia no norte de Londres, nas proximidades do Estádio de Wembley, o garoto pensava em virar jogador de futebol. Isso até se apaixonar pelo jazz e, tempos depois, se tornar parte importante de um dos grupos mais icônicos do rock. Watts faleceu nesta terça-feira, aos 80 anos, mas sua história continua vivíssima através de sua família e de dezenas de clássicos da música.

Filho de um ferroviário, Charlie Watts nasceu e cresceu no norte de Londres. Em 1948, quando os britânicos reconstruíam o país após a Segunda Guerra Mundial, a sua família se mudou ao bairro de Wembley. O garoto era vizinho do estádio, em tempos nos quais a região era considerada afastada do restante da cidade e tinha muitas áreas verdes. Talvez a proximidade do templo do futebol tenha influenciado seu gosto pela modalidade, já que foi na escola local que o futuro baterista começou a praticar esportes.

“Eu me especializei em arte na escola. Se não tivesse me especializado, jogaria futebol o dia todo. Era apenas para isso que eu vivia – futebol e críquete”, contaria Watts, ao livro ‘The True Adventures of the Rolling Stones’, de Stanley Booth. A própria mãe do baterista, Lilly Watts, reiterou a história para o livro ‘Rolling Stones: Off The Record’, de Mark Paytress: “Ele amava esportes, especialmente futebol, e sempre chegava em casa com os joelhos sujos e as roupas enlameadas. Charlie era um garoto grande, com pernas fortes. Ele frequentemente pensava que poderia se tornar um jogador de futebol”.

O problema de Charlie era seu temperamento. Embora fosse bem mais introspectivo que seus companheiros de Rolling Stones, o baterista era conhecido na juventude por seu pavio curto e por muitas vezes arranjar brigas. Por causa disso, muitos treinadores preferiam manter o menino longe de suas equipes – conforme Heather Miller, no livro ‘The Rolling Stones: The Greatest Rock Band’. Os relatos, aliás, são de que Charlie era um bom jogador de futebol – embora muitas vezes preferisse jogar críquete.

A história de Charlie Watts mudou em 1955, quando tinha 14 anos e ganhou a primeira bateria de seus pais. Foi quando a bola deixou de ser a prioridade do adolescente, mergulhando de vez na música, em especial no jazz. Mas isso não o afastou totalmente do esporte, afinal. Watts continuava acompanhando jogos de futebol e de críquete, assim como corridas de cavalos e cachorros. Quando iniciava sua carreira como baterista nos anos 1960, pôde acompanhar também o ápice do time de coração: o Tottenham, campeão de tudo na Inglaterra durante aquele período áureo. Como um londrino nascido e criado no norte da cidade, ficava fácil de entender a relação.

Charlie Watts entrou para os Rolling Stones em 1963. Isso não o impediu de frequentar White Hart Lane e torcer pelos Spurs, mesmo vivendo na estrada com as turnês. Segundo algumas fontes, o baterista muitas vezes levou Mick Jagger para as arquibancadas, na intenção de fazer o vocalista apoiar também o Tottenham – certamente desavisado da fama que o parceiro ganharia tempos depois. Juntos, ao menos, viveram um show especial em 1982: puderam sentir a insanidade dos italianos em Turim pouco antes da final da Copa e do tricampeonato mundial. “Todos os dias eu via os jogos com Mick e no dia seguinte acompanhava as reportagens nos jornais”, contaria Watts, na época.

Outro episódio curioso dos Rolling Stones com o futebol aconteceu em 1986, durante a produção do clipe ‘One Hit’: a gravação aconteceu exatamente no dia em que Osvaldo Ardiles, grande ídolo do Tottenham, ganharia uma partida em homenagem do clube – inclusive com a presença de Diego Maradona. Charlie Watts tinha os ingressos, mas não pôde ir ao estádio por conta do compromisso com a banda. No fim das contas, o baterista mal aparece no clipe, bastante irritado com tudo.

Se a carreira de Charlie Watts como jogador não passou de um sonho de menino, o baterista pôde fazer vibrar multidões em diversos estádios ao redor do mundo. Com os Rolling Stones, tocou diversas vezes em Wembley. Estremeceu as estruturas de Maracanã, Pacaembu, Morumbi, Centenario, Monumental de Núñez, Santiago Bernabéu, Stade de France, Estádio Olímpico de Berlim, Ellis Park, Tokyo Dome, Rose Bowl e uma coleção de palcos consagrados do esporte. Ele mesmo, afinal, fazia parte de um time lendário – do rock. E viveu uma carreira bem mais longeva do que experimentaria nos gramados, arrastando legiões maiores de fãs. Certamente não foi uma troca ruim.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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