Futebol femininoInglaterra

“Certifique-se que seus parentes não tragam Ebola”: o caso de racismo escondido pela federação inglesa

“Nigéria? Se certifique que eles não tragam Ebola”. “Você já não foi presa antes? Quatro vezes, não foi?”. O que você leu foi dito por Mark Sampson, técnico da seleção inglesa, a duas de suas jogadoras, negras, segundo consta em reclamação formal feita por elas à Football Association (FA), relatado reportagem do jornal Guardian, que teve acesso ao processo movido por uma das jogadoras e revelou nesta segunda-feira. Uma história que envolve denúncias, processo na justiça que foi abafado pela FA e alegações de retaliação às jogadoras que denunciaram racismo. E que, ironicamente, começou em um programa feito pela própria FA para revisar a cultura e combater preconceitos, como o racismo.

LEIA TAMBÉM: A história do primeiro jogador negro do Liverpool: “Para mim, racismo era norma. Era a rotina”

Mark Sampson  acusado de diversos comentários racistas contra suas jogadoras. Ele teria dito a Eniola Aluko, jogadora da seleção inglesa, que se certificasse que seus parentes não trouxessem Ebola a um jogo em Wembley. Este é apenas um dos casos em que o treinador é acusado de ter feito comentários preconceituosos, mas mesmo denunciado pelas jogadoras, a Football Association (FA) o inocentou de qualquer acusação, depois de duas investigações. O escândalo veio à tona por um processo judicial movido por Aluko, que agora se torna público.

Sampson vem recebendo muitos elogios nos últimos anos. O comandante das Lioness, como são chamadas as jogadoras da seleção inglesa feminina, conseguiu resultados expressivos. As inglesas foram as terceiras colocadas na Copa do Mundo de 2015 e foram semifinalistas da Eurocopa de 2017. Um acordo que a FA acertou com Eni Aluko, sobre denúncia de racismo, trouxe à tona algo que a federação queria enterrar: denúncias de comentários racistas e, mais, de uma cultura de discriminação contra jogadoras negras que fizeram reclamações pelo tratamento que tiveram.

Segundo Aluko disse ao jornal britânico Guardian, a FA sabe dos comentários de Sampson desde novembro de 2016, mas escolheu ignorar, mesmo sabendo que o técnico foi acusado de um comentário racista anteriormente, contra uma jogadora de etnia mista. Ele perguntou a ela, em uma reunião com as jogadoras, quantas vezes ela tinha sido presa. Uma investigação interna inocentou Sampson, que teria dito: “Você já não foi presa antes? Quatro vezes, não foi?”. A jogadora era negra, de etnia mista, como dizem na Inglaterra. Uma investigação independente, paga pela FA, também chegou à mesma conclusão depois. Para Aluko, a investigação foi uma farsa e a FA admitiu que a jogadora que sofreu o abuso sequer foi entrevistada em nenhuma das investigações. Só uma das falhas da FA no caso.

“Se certifique que eles não trarão Ebola”
Eni Aluko (camisa 11) no jogo entre Inglaterra e Alemanha em Wembley, em 23 de novembro de 2014 (Photo by Paul Gilham/Getty Images)
Eni Aluko (camisa 11) no jogo entre Inglaterra e Alemanha em Wembley, em 23 de novembro de 2014 (Photo by Paul Gilham/Getty Images)

Aluko, atacante do Chelsea de 30 anos, é nascida em Lagos, na Nigéria, e se mudou para a Inglaterra com a família quando era criança. Ela se tornou uma das melhores atacantes do futebol inglês, conquistando títulos pelo Charlton, Birmingham e Chelsea, seu clube atual. Foi artilheira do campeonato inglês feminino em 2016. Defende a seleção inglesa desde 2004, quando ainda tinha 17 anos, e deixou de ser convocada em maio de 2016. Não foi uma data aleatória.

A atacante recebeu £ 80 mil da FA em um acordo após processo movido pela atleta pela discriminação sofrida. O acordo envolveu um contrato de confidencialidade, mas a jogadora conseguiu consentimento para contar o seu lado da história depois que a história veio a público. E os relatos são estarrecedores. Em longa entrevista ao Guardian, ela conta sobre o que aconteceu ao longo do tempo, com ela e outras jogadoras, e como o racismo é uma questão que prejudica quem se coloca a falar sobre o assunto. Na entrevista, ela relata que o comentário de Sampson sobre o Ebola foi feito antes de um jogo da seleção inglesa contra a Alemanha, em Wembley, em novembro de 2014.

“Nós estávamos no hotel. Todo mundo estava empolgado. Era um grande jogo. Na parede estava uma lista de família e amigos que iria nos assistir e eu estava do lado de Mark. Ele me perguntou se eu tinha alguém que iria estar lá e eu disse que minha família veio da Nigéria. ‘Oh, Nigéria? Se certifique que eles não trarão Ebola’. Eu lembro de rir, mas de um modo muito nervoso. Eu voltei para o meu quarto e eu estava realmente chateada. Seria mais fácil de aceitar se fosse só sobre mim. Muito já foi dito sobre mim naqueles dois anos, mas isso era sobre a minha família. Eu liguei para a minha mãe e ela ficou absolutamente enojada”, contou Aluko.

Sampson negou ter feito o comentário sobre Ebola, segundo a FA, e não quis se pronunciar sobre o assunto. A FA foi comunicada do episódio pela PFA (Professional Footballlers Association, Associação de Jogadores Profissional, em tradução livre) em uma carta enviada em novembro de 2016. A PFA descreveu a investigação interna como “não sendo uma busca genuína pela verdade” e “uma farsa que foi projetada para estabelecer a verdade, mas com a intenção de proteger Mark Sampson”.

Este foi apenas um dos episódios. Aluko conta que um dos funcionários da FA repetidamente falava com ela imitando sotaque caribenho, algo que também foi relatado na carta que a PFA enviou à FA. A federação inglesa disse que não conversou com a jogadora de etnia mista, vítima dos comentários do técnico, porque Aluko não revelou seu nome. A jogadora, porém, contou que fez a reclamação com detalhes precisos sobre a identidade da jogadora ao dizer que o incidente aconteceu na Copa da China, em 2015, envolveu uma meio-campista de etnia mista – a única no elenco –, que era novata na convocação, que foi criada em Londres e nomeou inclusive o clube pela qual ela jogava. O Guardian, usando essas informações, descobriu quem era e decidiu não divulgar o nome da jogadora, depois de um pedido dela e do clube pelo qual ela joga.

“A mais básica investigação, se eles quisessem descobrir a verdade, teria encontrado quem era”, afirmou Aluko. “Eles poderiam saber o nome dela em minutos se realmente quisessem”, contou ainda a jogadora. “A jogadora teve que escrever para confirmar que aconteceu. Ainda assim, a FA fez duas investigações e ninguém entrou em contato com ela. Eles estavam fazendo uma investigação, mas eles não se importaram em falar com a pessoa para quem um comentário com conotações raciais, na minha opinião, foi feito. Eu acho isso bastante surpreendente”, expressou Aluko.

Aluko foi à justiça depois de juntar provas que estava sendo discriminada e foi vítima de ameaças. A FA admitiu que os resultados da primeira investigação foram entregues a ela antes de entrevistar Lianne Sanderson, que foi nomeada como testemunha-chave da reclamação de Aluko. A explicação oficial dada pela FA foi que isso não aconteceu por problema de logística e agenda, além de pressão da PFA para que houvesse um processo rápido.

O início: um problema de combate ao racismo

Tudo começou em maio de 2016, quando, curiosamente, Aluko foi convidada a participar de algo chamado de “revisão de cultura”, uma forma de melhorar problemas como o racismo. A ideia do projeto é levantar os problemas, de forma anônima, para que possam ser combatidos preconceitos que existam dentro da FA e da seleção inglesa como um todo. Os relatos seriam mantidos anônimos para preservar as jogadoras de qualquer retaliação.

“A carta de Dan Ashworth dizia que eles queriam que eu participasse do exercício como uma ‘jogadora icônica da Inglaterra’. Eles sentiram que eu estava em posição, depois de 11 anos de seleção inglesa, em falar sobre a cultura. Por muitos anos eu fui a porta-voz da FA. Se você procurar no Youtube me verá em uma entrevista para o ‘Show Racism the Red Card’ vestindo uma camisa da Inglaterra em nome da FA. Eu nunca participaria de um exercício como esse e mentiria. Ainda assim, a ironia é que se eu tivesse mentido, isso teria me salvado. Se eu não fosse verdadeira, nós não estaríamos tendo essa conversa. Se eu tivesse dito ‘está tudo ótimo, tudo está fantástico, eu tive dois ótimos anos com Mark Sampson e a cultura é ótima’, isso teria me salvado. Dizer a verdade foi mais arriscado, mas eu disse a verdade porque eu pensei que era confidencial. Eu confiei na FA”, contou Aluko.

Quando aconteceu o comentário de Sampson sobre Ebola na sua família, Aluko relatou por mensagem para outra jogadora, a de etnia mista que também ouviu comentários racistas do técnico sobre ser presa. Foi essa jogadora que relatou, por escrito, as duas situações em reclamação para a FA, o que resultou em investigações da própria entidade. E ambas acabaram por inocentar Sampson, mesmo sem ouvir as partes atingidas ou sequer as testemunhas chave.

Após a denúncia, sacada da seleção
Mark Sampson, técnico da seleção feminina da Inglaterra (Photo by Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)
Mark Sampson, técnico da seleção feminina da Inglaterra (Photo by Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)

A sucessão de fatos que veio depois na vida de Aluko não parece uma coincidência, como ela mesma relata. Depois de participar do programa de revisão de cultura, ela receberia outra notícia. “Uma semana depois, eu recebi uma visita de Mark Sampson em Cobham, centro de treinamento do Chelsea. Eu achei que ele fosse falar sobre o meu papel na próxima concentração da Inglaterra. Me foi garantido que o relato era confidencial e que seria dado como anônimo, que então eu poderia falar livremente”, contou Aluko.

“Ao invés disso, ele me disse que iria me deixar fora da convocação. Quando eu perguntei por que, ele disse que era porque eu tive um comportamento inadequado para uma lioness [forma como jogadoras da seleção feminina são chamadas]. Eu fiquei chocada, mas eu disse: ‘Ok, você pode me dar alguns exemplos? Você precisa me dar alguns exemplos, porque até onde eu sei eu joguei 90 minutos no último jogo contra a Bósnia, eu acho que eu participei bem e ninguém me disse nada sobre ter um comportamento ruim’. O melhor que ele pode me falar é que eu parecia distante nas reuniões do time”, relatou a atacante do Chelsea.

“Então, para esclarecer, uma jogadora com 102 partidas pela seleção, alguém que foi descrita como um ícone do futebol inglês e a jogadora que venceu a Chuteira de Ouro [artilheira da liga inglesa] foi deixada de fora por parecer distante? Ou você acha que talvez ele tenha descoberto sobre as suas queixas?”, perguntou o Guardian. A resposta da atacante é bastante enfática. “Eu não acho que foi uma coincidência. Eu acredito que foi retaliação. Eu joguei pela Inglaterra por 11 anos e, uma semana depois de falar com a FA e participar da revisão de cultura, eu foi tirada do elenco da Inglaterra pela primeira vez na minha carreira. Eu estava jogando muito bem na época. Eu tinha marcado 12 gols em 16 jogos que fui titular pela Inglaterra com Mark Sampson. Eu não estava disposta a aceitar que meu comportamento era ruim porque não me deram exemplos de qualquer sinal de mau comportamento”, declarou Aluko.

“Eu mandei e-mail para Dan Ashworth e disse: ‘Dan, eu acabei de ter uma visita de Mark. Eu fiz parte do seu relato uma semana atrás. Eu tenho que perguntar se há uma relação aqui’. Ele disse: ‘Não’. Mas eu fui jogadora da Inglaterra até que eu falasse na revisão de cultura e decidi ser sincera. É importante mostrar isso porque algumas pessoas podem dizer: ‘Ela não foi convocada pela Inglaterra, é claro que ela dirá coisas negativas’. Foi o inverso”, explicou a jogadora.

Ataque à carreira como advogada, fora dos gramados

A questão não acabou com Aluko deixada de fora da seleção. “Eu estava em Barcelona, em um fim de semana de folga, visitando um amigo, quando recebi um e-mail, menos de 24 horas depois daquela reunião, dizendo que a unidade anticorrupção estava investigando meu trabalho como advogada de esportes. Eu trabalhei como advogada para uma agência de futebol e as regras da FA estabelecem que, se você é jogadora, você não pode representar outros jogadores. Mas eu não estava representando jogadores como um agente. Eu estava trabalhando como advogada, o que eu tenho feito por cinco anos e nunca houve um problema”, relatou Aluko, formada em direito pela universidade de Brunel, em 2008.

“Como parte da investigação eu tive que entregar documentos explicando qual era o meu papel na agência e qual era o meu papel no Chelsea. Sugerir que eu tinha alguma influência no Chelsea no que se refere à contratação foi ridículo. Eu encontrei com Bruce Buck [presidente do Chelsea] uma vez na minha vida. Eu coloquei isso em uma carta à FA, mas eles me disseram que, baseado na documentação que entreguei, eu estava violando as regras”, continuou Aluko. “As pessoas não sabem disso: eu perdi aquele trabalho. Eu tive que desistir, o que me doeu muito. Eu fui advogada de esportes por cinco anos e não era segredo para a FA. Se era alguma coisa, a FA celebrou isso. No entanto, de repente, eles decidiram que justificava uma investigação”, disse.

Perguntada se ela achava que o momento dessa investigação, ser notificada um dia depois da reunião com a FA, foi uma coincidência, Aluko seguiu sendo bastante enfática. “Não, eu acho que é muito mais sinistro. Suspeito que há coincidências demais. Eu não posso dizer quais são os motivos, mas pareceu uma ameaça para mim na época. Foi assim que me senti. No momento que você começa ameaçando assim [o meu trabalho como advogada], naquele mesmo momento que fui tirada do elenco da Inglaterra, é claro que eu me senti ameaçada”, contou a jogadora.

“O que eu achei que foi uma prática incrivelmente ruim foi que tudo foi tratado no mesmo e-mail. ‘Obrigado por nossa reunião e, aliás, outra investigação está sendo iniciada e é sobre você’. Se era uma investigação separada, por que não veio de um e-mail separado da unidade anticorrupção da FA? Ao incluir no mesmo e-mail eu senti que a mensagem era: ‘Nós somos um time aqui na FA’. É assim que eu vejo. E no minuto que você começa a ser punida por levantar reclamações, isso é culpar a vítima. Eu não posso chegar a nenhuma outra conclusão”, alegou Aluko. A advogada responsável pela investigação da FA, Katherine Newton, concordou que o momento da investigação foi “infeliz”, mas não considerou “de forma alguma um ato de retaliação” ou que estivesse relacionado a racismo.

A FA nomeou uma advogada independente para conduzir uma segunda investigação, mas Eni Aloko se recusou a participar. E a jogadora explicou seus motivos. “Eu disse não porque, a essa altura, eu não podia levar as investigações a sério. Eu não confio no processo. Como eu posso confiar no processo se a FA não se importou em falar com as pessoas chave? Naquele ponto, a investigação sobre o meu trabalho na agência estava acontecendo. Eu senti que o que quer que eu dissesse seria usado contra mim. Minha mentalidade na época foi: ‘Vocês irão tentar me derrubar’. Não foi: ‘OK, vocês querem saber o meu lado da história’. Foi: ‘Vocês tentarão usar isso contra mim’”, contou Aluko.

Jogadoras negras que passaram a ficar fora da seleção

“Raça, por alguma razão, é um assunto tabu que todo mundo evita falar. No minuto que você é corajoso o suficiente para falar sobre raça, você está em uma situação difícil. Isso, por si, é uma discriminação: o mero fato que eu estou nesta posição. Eu provavelmente não poderei jogar pela Inglaterra novamente. Eu perdi a minha carreira na seleção mesmo sendo a artilheira da liga na última temporada”, analisou a jogadora do Chelsea.

Uma das alegações de Eni Aluko é que as jogadoras que denunciaram racismo acabaram ficando fora. Ela é só um dos casos. A atacante relata casos de outras jogadoras que, depois de situações de questionarem situações discriminatórias, foram deixadas de lado. Ela relata que a jogadora, meio-campista, que ouviu do técnico a pergunta se ela tinha sido presa também não foi mais convocada.

“Nós sabemos que A Jogadora [que denunciou racismo por escrito] não foi convocada desde esse incidente. Lianne Sanderson não foi convocada desde que reclamou de por que sua 50ª partida foi esquecida na mesma viagem que a 100ª partida de uma jogadora branca foi lembrada. Lianne perguntou: ‘Por que eu?’. A 50ª convocação é uma celebração costumeira. É padrão. Há uma apresentação em frente ao time e você recebe uma camisa especial com “50ª partida” escrita nela. É algo grande. Ela perguntou por que ela foi esquecida e não foi convocada desde então”, relatou Aluko.

“Anita Asante desapareceu sem deixar rastros apesar de jogar em um dos melhores times da Europa [ela atua no Rosengard, da Suécia]. Danielle Carter marcou dois hat-tricks pela Inglaterra e não foi mais convocada. Por quê? Há muitas seleções nacionais que são muito brancas, não apenas a Inglaterra, e eu odiaria dizer que nós deveríamos ser convocadas porque nós somos negras ou de etnia mista. Mas somos todas maus caráteres? Somos todas jogadoras ruins? Essa é a pergunta que eu acho que as pessoas precisam se fazer, porque há um padrão emergindo aqui, claro como o dia, e eu acredito que essa é a cultura”, afirmou ainda Aluko.

“Eu não tinha ilusão, as pessoas não gostavam de mim e as jogadoras eram quase encorajadas a não gostarem de mim. Uma percepção foi criada ao meu redor que ‘ela é problemática, ela é uma sabe tudo’, ou ‘ela é um problema’, como foi dito por Mark Sampson depois de eu marcar um hat-trick em um jogo. Outras jogadoras marcaram hat-tricks pela Inglaterra e elas não foram descritas como problemas. Então, por que eu fui? Isso, eu acredito, é a definição de bullying: insultos, em termos depreciativos, dirigidos a uma pessoa com a intenção de enfraquecê-la em um grupo de pessoas. Infelizmente esse é um de muitos exemplos”, contou a jogadora.

“Eu joguei pelo Chelsea, no mais alto nível, e eu fui tirada do time pelo Chelsea antes, mas eu posso reconhecer algo tóxico quando eu vejo. Esta é uma cultura que sistematicamente descartou certos jogadores. Há muita conversa que é o time mais unido do mundo [a seleção inglesa feminina] – eu nunca me senti tão isolada quanto eu estava no time entre 2014 e 2016”, relatou a jogadora do Chelsea.

O acordo com a FA e o contrato de confidencialidade

Aluko aceitou um acordo com a FA depois de levar o caso à justiça. Perguntada pelo Guardian por que ela aceitou o acordo, que incluiu o silêncio sobre o próprio processo, ela respondeu que já tinha conseguido atingir o objetivo. “Quando você entra com uma ação, ela se torna pública e neste ponto começaram as discussões de um acordo. Por quê? Um, porque eu acredito que a FA não queria ir ao tribunal e, dois, eu acredito que eles não queriam que se tornasse público que eu registrei uma ação contra eles”, disse.

O acordo de confidencialidade, porém, só impedia a jogadora de falar enquanto os fatos não fossem públicos. Como a reportagem do Guardian descobriu sobre o processo – e o acordo –, a FA autorizou a atacante a falar a respeito. Em sua defesa, a FA disse que entrou em acordo para “evitar um racha” na seleção antes da Eurocopa feminina (que foi disputada em julho e julho de 2017). Mas isso, diz Aluko, não foi o que a motivou a assinar o acordo.

“Eu entrei em acordo baseado no que eu fui aconselhada pelo procurador, um especialista em discriminação, que disse que meu caso era extremamente forte. Eu entrei em acordo na base que, se eu fosse para um tribunal, eu teria vencido com as provas que tinha. O acordo foi baseado no que eu ganharia se eu tivesse vencido o processo. E eu acredito que a FA sabia que o caso era forte também”, explicou, dizendo por que acha que a FA aceitou o acordo.

“Sobre não falar a respeito do assunto, é importante dizer que toda a questão começou como um exercício confidencial pedido por Dan Ashworth [o  programa revisão de cultura]. Eu não tinha intenção ou uma agenda para conhecimento público ou exposição. Um dos termos do acordo foi: isso tem que ser mantido confidencial e, se tornar-se público, sou autorizada a falar sobre os fatos”, contou. “Felizmente, a posição foi esclarecida, legalmente, na última sexta-feira e me foi dito que eu poderia contar o que eu acredito ser a história completa”, completou Aluko.

Um caso como esse levantado por Aluko, a ponto de haver um acordo para que não viesse a público, não pode ser ignorado. É preciso que haja uma investigação de verdade sobre os fatos levantados por Eni Aluko e as outras jogadoras. Mark Sampson faz um grande trabalho na seleção inglesa e tem todos os méritos por isso. Porém, isso não o exime de atos racistas, que devem ser apurados. Dele e de todos os funcionários citados por cometerem atos discriminatórios. Há, no mínimo, muitos indícios que algo está errado na FA. E, mais do que isso, que a entidade não parece capaz de combater esses problemas de forma independente e autônoma.

Mostrar mais

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo