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Dívida de gratidão do Chelsea com Cech era tão grande que lhe permitiu ir para o Arsenal

Abrir mão de um dos melhores goleiros do mundo não é fácil para time algum, sobretudo se estamos falando de alguém que passou bastante tempo no clube e se tornou um ídolo. Para uma equipe rival, tanto pela história quanto pela concorrência por títulos, menos ainda. Após onze anos, treze troféus e uma coleção imensa de grandes atuações, Petr Cech deu adeus ao Chelsea para assinar com o também londrino Arsenal, catapultando os Gunners um patamar acima. A decisão de deixá-lo sair não foi simples, e se fosse por Mourinho este seria o último desfecho aceitável para a situação do tcheco, mas a dívida de gratidão de Roman Abramovich com um dos pilares de seu projeto era grande demais. Foi justamente seu trabalho e tudo o que representou para o clube que permitiram que Cech partisse para um rival.

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No mês passado, durante entrevista coletiva, Mourinho deixou clara qual era sua posição em relação ao goleiro. Apesar de ter tirado dele a titularidade para dar espaço para o crescimento e estabelecimento do jovem Courtois, o português ainda queria o tcheco no elenco. Talvez em uma tentativa de mostrar apreciação por Cech, afirmou que tinha os dois melhores goleiros da Premier League à sua disposição. “Se coubesse a mim, se fosse minha a decisão, a decisão seria para ele ficar, é isso. Depois disso, sair, mas não para a Inglaterra. A opção que eu não gostaria é que ele fosse para um clube inglês”, comentou o técnico.

Cech sabe que Mourinho estava certo. Era mesmo, afinal, um dos melhores goleiros da liga, e a reserva é muito pouco para quem tem condições de ser titular em qualquer time do mundo. A opção pelo Arsenal como nova casa era a mostra de seu desejo por competitividade, por se manter em exposição no campeonato que mais garante isso no mundo. A transferência para um dos times que têm chance de vencer a Premier League era importante profissionalmente para o jogador, e, entendendo isso e reconhecendo a contribuição e os esforços do arqueiro na trajetória de mais de uma década, Abramovich interveio para garantir que o desejo do ídolo fosse atendido. Antes mesmo da decisão ter sido tomada, Mourinho já sentia que estava perdendo seu goleiro reserva: “Uma coisa é o José Mourinho, e a outra é o senhor Abramovich, e outra coisa é a diretoria, porque a diretoria é um pouco de mim e um pouco de outras pessoas”.

Em uma carta aberta sincera e emocionante aos torcedores do Chelsea, Cech explicou os motivos que o levaram a deixar o clube e assinar com o Arsenal, confirmando as impressões que todos tinham e agradecendo ao dono dos Blues a compreensão durante as conversas. Não escondeu a decepção por ter perdido espaço, como nunca o fez, e foi bastante sóbrio em seus argumentos. No final, claro, um grande agradecimento à torcida, que, em boa parte, entendeu a escolha, embora o número de descontentes de coração partido que agora odeiam o tcheco também não seja pequeno.

Confira trechos da mensagem de Cech aos torcedores do Chelsea:

“Pensei que isso nunca aconteceria, mas chegou a hora de dizer tchau ao Chelsea. O clube pelo qual eu vivi cada minuto desde julho de 2004, o clube no qual eu pensei que penduraria minhas luvas e chuteiras e encerraria minha carreira um dia. Mas a vida nem sempre acontece da maneira como você pensa.

(…) No último verão, as coisas mudaram, e eu entendi que não era mais o goleiro titular, mas não senti que era o momento certo para partir. Durante a temporada, ficou claro que minha situação não melhoraria, e,  já que sei que não estou em um estágio da minha carreira em que eu queira estar no banco, tomei minha decisão de seguir em frente em busca de novos desafios.

Meu tempo limitado de jogo me deu a chance de refrescar minha cabeça e descansar mentalmente, além de me fazer perceber o quanto eu gosto de jogar futebol no mais alto nível, porque eu senti muita falta dos dias de jogo em que não estive envolvido. Tenho o mesmo comprometimento com o futebol, a mesma motivação e a mesma fome  por sucesso que tinha no início de minha carreira e amo os desafios trazidos pelos jogadores de alto nível que você enfrenta na Premier League, simplesmente a melhor e mais competitiva liga no mundo (…)”

Aos 33 anos, apesar de ter perdido espaço nos Blues e passado maior parte da temporada passada no banco, Cech chega ao Arsenal para fazer a diferença. É a primeira vez em um longo período que os Gunners terão um goleiro de primeiro nível garantindo segurança lá atrás. Essa é apenas uma das coisas que faltaram ao time nas várias temporadas de frustração na busca pelo título da Premier League, mas ter garantido o tcheco já é um baita passo, representa uma possibilidade maior de sonhar e por em prática. Mesmo na condição de substituto, o goleiro foi capaz de contribuir com o Chelsea na campanha do título inglês em 2014/15, com grandes atuações contra Everton, Arsenal e Leicester, principalmente. Mourinho chegou a dizer que,  sem o arqueiro, bastante eficaz quando chamado, talvez não tivesse chegado à conquista.

Estatisticamente falando, Cech está perto de se consolidar como o melhor goleiro que a Premier League já viu. É o segundo com o maior número de jogos sem sofrer gols, 168, de um total de 333. O aposentado David James lidera o ranking, com 170, mas tendo uma quantidade consideravelmente maior de partidas no currículo: 572. No Arsenal, com algumas boas temporadas restantes antes de chegar a hora de se aposentar, Cech deverá superar e abrir larga vantagem no quesito. É o que seu talento e sua sede por sucesso indicam. Qualidades essenciais para alguém que queira escrever seu nome na história de uma liga como a inglesa. Qualidades de que precisa qualquer clube que queira experimentar como é estar no topo, e não há nada que os Gunners desejem mais do que apagar os fracassos na história recente com títulos no futuro próximo.

Se todo time campeão tem um grande goleiro, o Arsenal começa a próxima temporada com um dos melhores que há por aí. O preço que o Chelsea se dispôs a pagar para retribuir a dedicação de seu ídolo, reforçando significativamente um rival e concorrente, poderá sair bem caro, mas demonstra uma estima ímpar por uma figura que ajudou a construir a imagem que os Blues têm hoje. Se é que era possível, apenas aumenta o tamanho dos feitos de Cech no Stamford Bridge.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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