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Caso Januzaj mostra como é difícil definir o que é nacionalidade

A disputa para saber qual será a camisa de seleção que Adnan Januzaj vestirá continua intensa. O jogador é um desses casos de multinacionalidade e já falamos que ele não quer ser da tão falada nova geração belga, país onde nasceu. Também não parece muito disposto a jogar pela Inglaterra, onde vive atualmente jogando pelo Manchester United. O meia pode jogar pela Turquia e também pela Sérvia, além da Albânia. Agora, quem quer o jogador é a Croácia, país com o qual ele teria ligação por parte da sua mãe.

Antes de sairmos falando sobre os absurdos de naturalização, é preciso parar e pensar. A questão de nacionalidades é algo muito delicado para quem, como Januzaj, vem de uma família da região dos Bálcãs. Ele nasceu em Bruxelas, na Bélgica, mas isso porque a sua família é kosovar de etnia albanesa. Só aí, já são três nacionalidades. Mas por Kosovo não ser um país, oficialmente, o território onde nasceram os pais é de disputa com a sérvia, embora seja, na maior parte, de albaneses. Por isso, ele pode defender a Sérvia, mas isso nunca vai acontecer, até porque sérvios e albaneses vivem uma guerra histórica no Kosovo. O jogador tem avós turcos, o que também daria direito a ele jogar pela Turquia.

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A informação nova desta quinta-feira é que Januzaj também poderia jogar pela Croácia. “Um dos técnicos da Albânia me disse que a mãe de Adnan é da Croácia”, afirmou o técnico da seleção sub-21 croata. Há quem diga que o próprio Januzaj tenha dito que quer jogar pelo Kosovo e não por outra seleção qualquer. Sobre isso, José Antonio Lima escreveu no Esporte Fino sobre a importância que o meia pode ter na causa do Kosovo.

De qualquer forma, é irresponsável dizer que o caso de Januzaj é mais um que mostra como defender uma seleção virou um negócio. Na verdade, é justamente o oposto disso. Entre todos os interessados em ter o futebol de Januzaj na sua seleção, o único que pode ser acusado de fazer um uso, digamos, comercial disso é a Inglaterra, país com o qual o jogador não possui qualquer vínculo. Nisso, a FA tem que ser criticado por querer capitalizar em um caso que a nacionalidade está borrada.

Januzaj é fruto de um mundo em transformação e onde o conceito de nacionalidade é bastante complicado de definir. Basta lembrarmos um caso recente envolvendo o Brasil: Thiago Alcântara. O meia, atualmente no Bayern de Munique, é filho do brasileiro Mazinho, ex-Palmeiras e Seleção Brasileira. Nasceu em Bari, na Itália, mas foi criado na Espanha. Morou também no Brasil durante alguns anos. Qual é a sua nacionalidade? Ele escolheu a Espanha, onde passou a maior parte da vida. Quem poderia questioná-lo por isso?

Januzaj é um jogador que, aos 18 anos, vive um dilema parecido. O seu pai, segundo a BBC, é o responsável por impedi-lo de defender as seleções de base da Bélgica desde que ele ainda era um prodígio adolescente. Não se sabe a razão disso, mas considerando a origem do seu pai, kosovar de etnia albanesa, é possível que as proibições fossem para que ele não defendesse a Bélgica e, assim pudesse defender a Albânia ou até uma futura seleção do Kosovo. Os pais de Januzaj fugiram da barbárie de uma guerra civil. Esse é um fato que pode exaltar o sentimento de nacionalidade kosovar e é possível que Januzaj tenha ouvido muito sobre isso, mesmo sem nunca ter morado no Kosovo.

É bom lembrar que se, um dia, a seleção do país for criada, todos aqueles que tiverem a nacionalidade kosovar poderão defendê-la, mesmo que já tenham jogado por outro país, como é o caso de Xherdan Shaqiri, do Bayern de Munique, que tem origem kosovar, mas defende a Suíça, país onde foi criado.

A Fifa é uma zona e que permite casos bizarros de nacionalização de jogadores, como no caso de Diego Costa, que defendeu a seleção principal do Brasil em um amistoso e pode receber autorização para jogar pela Espanha mesmo assim, ou de Thiago Motta, que jogou a Copa Ouro pelo Brasil, mas alegou que por o Brasil ter levado uma seleção sub-23, o torneio deveria ser considerado como de categoria de base – ainda que os demais times fossem os times principais. A Fifa aceitou a argumentação e ele defende a Itália atualmente.

Só que ainda que a Fifa torne o processo mais restrito, a questão das nacionalidades em um mundo em transformação como esse, ainda mais em uma região de tantos conflitos como os Bálcãs, será complicado definir nacionalidades. E isso deve continuar. Gibraltar recentemente ganhou o direito de disputar as Eliminatórias da Eurocopa como um país. Em breve, podemos ter uma situação similar com a Catalunha. Casos assim podem suscitar esse debate sobre nacionalidade mais uma vez.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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