Inglaterra

Capello way of life

Emile Heskey nunca despertou suspiros dos amantes de futebol na Inglaterra. O atacante é inegavelmente útil, mas carrega a fama de tecnicamente limitado e, principalmente, azarado. Depois de algum destaque como jogador do Liverpool, entre 2000 e 2004, Heskey perdeu espaço e as convocações para a seleção inglesa se tornaram raras. Nem a falta de opções lhe valeu um lugar na Copa de 2006. Sven-Goran Eriksson preferiu Walcott, de 17 anos, e Crouch.

Aos 30 anos e defendendo o Wigan, a carreira de Heskey parecia não ter mais por onde crescer. Isso explica a surpresa que representou sua convocação por parte de Fabio Capello para as duas primeiras partidas do English Team nas eliminatórias para a Copa de 2010. Mais que isso, com o fato de ele ter sido escalado como titular.

Pode parecer mais uma esquisitice de técnico de futebol, mas o italiano mostrou que estava certo. Não que tenha descoberto um craque, mas sabia que precisava de um jogador com as características do atacante do Wigan para iniciar seu trabalho na Inglaterra. Algo que ficou ainda mais claro com a falta de criatividade mostrada pelo English Team na vitória surpreendentemente complicada contra Andorra, no último sábado.

Por ser um jogador mais fixo, fisicamente forte e de boa visão de jogo para fazer o trabalho de pivô, Heskey ficou como homem de referência no ataque inglês contra a Croácia. Enquanto o atacante trombava com os zagueiros croatas, Rooney não tinha mais a responsabilidade de ser o principal dianteiro da equipe. Com isso, ele teve mais liberdade para se movimentar pelos dois lados do campo e até para voltar, trabalhando em conjunto com os meias e ajudando a armar jogadas desde a intermediária.

Essa mudança no papel do jogador do Manchester United foi fundamental para a goleada por 4 a 1 em Zagreb. Rooney foi um monstro em campo, jogando solto e podendo apresentar sua velocidade e talento em várias funções que vão além de homem-gol. Também se beneficiaram dessa mudança Walcott e Lampard, que tiveram um companheiro mais qualificado para tabelas. O primeiro, inclusive, marcou três gols apenas aproveitando os espaços criados.

A Inglaterra, de fato, convenceu e encantou. E sem ter de usar o quinteto que supostamente levaria os ingleses o título mundial: Gerrard, Beckham, Owen, Lampard e Rooney (sendo que só os dois últimos jogaram em Zagreb). Ponto para Capello, que montou um time forte com jogadores menos estelares. Como Heskey.

A fluidez do jogo e a força apresentada nesta partida lembraram os 5 a 1 dos ingleses na Alemanha em Munique, pelas Eliminatórias da Copa de 2002. Aquele foi um resultado razoavelmente isolado, porque o futebol da Inglaterra não se manteve tão forte até o Mundial. Talvez isso ocorra de novo. Mas, como cartão de visitas, Capello impressionou.
 

O fim de King Kev

Kevin Keegan tinha a esperança de colocar o Newcastle na briga por um lugar na Copa Uefa. Para isso, queria que o clube mantivesse seus principais jogadores e trouxesse mais uns quatro jogadores acima da média. Mas, na reta final do mercado, recebeu apenas dois reforços, e nenhum deles de arregalar os olhos: o atacante espanhol Xisco e o meia uruguaio Ignacio González. Pior, a diretoria ainda ofereceu alguns de seus bons nomes no último dia da janela de transferências.

Foi a gota d’água. Keegan se sentiu desprestigiado e pediu o boné. Era uma saída que se ensaiava há alguns dias, e que chegou até a gerar desmentido do clube. Mas ficou realmente difícil de sustentar a situação, ainda mais por outros sinais de que a temporada 2008/9 seria muito difícil. Não apenas em campo, mas no gerenciamento da equipe.

No Brasil, causa certo desconforto casos como o de Vanderlei Luxemburgo, que é treinador e gerente de futebol dos clubes em que trabalha. No caso, a pulga atrás da orelha se justifica pelo histórico do técnico e pelo modo sempre suspeito como se dão as relações entre clubes, jogadores e empresários. Na Inglaterra, onde esse círculo tem mais transparência (ainda que existam casos “estranhos”, é inegavelmente menos que aqui) e o termo “trabalho de longo prazo” pode se referir a dez anos, é comum um mesmo profissional cuidar do comando do time e das contratações.

O Newcastle não é assim. O presidente Mike Ashley contratou o ex-jogador Denis Wise para ser o gerente de futebol, enquanto que Keegan seria responsável por treinar a equipe e, no máximo, sugerir nomes para o elenco. Esse modelo funciona na Espanha, mas os clubes têm uma complexidade política maior e esse gerente ajuda a dividir responsabilidade com o técnico, servindo de pára-raios.

O (agora ex) técnico dos Magpies não viu desse modo. Até porque ele achou que merecia mais consideração por parte de Ashley. Não sem razão. Quando jogador, Keegan fez três temporadas no Saint James’ Park, ajudando o clube a sair da segunda divisão e retornar à elite. Como técnico, começou a carreira no Newcastle e, em cinco anos, tirou o time da Segundona mais uma vez e chegou a lutar pelo título da Premier League.

Depois de dois anos e meio parado (entre 2005 e 2008), Keegan retomou sua carreira para tirar os Magpies do buraco no meio da temporada passada. Depois de algumas rodadas em ritmo lento, o clube ganhou corpo e deixou de ser forte candidato ao rebaixamento na primeira metade da liga para ter um final de campeonato tranqüilo.

Se a diretoria não teve tanto respeito a esse histórico, a torcida teve. No dia seguinte ao anúncio de demissão de Keegan, os torcedores do Newcastle iniciaram manifestações em favor do treinador, pedindo a saída de Ashley e Wise. Segundo eles, a dupla seria a real responsável pelas poucas perspectivas do time, por mais que faça investimentos pesados para, no mínimo, brigar por um lugar em competições européias.

O clube ainda não anunciou o novo treinador. No entanto, a crise prematura não dá muitos motivos para otimismo por parte dos torcedores. O que, convenhamos, não é uma grande novidade para o Newcastle.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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