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Caído dos céus?

O sonho de Abramovich está cumprido. Depois de nove anos perseguindo a Liga dos Campeões, finalmente a taça repousará em Stamford Bridge. Durante as temporadas passadas, os Blues se firmaram no topo do futebol europeu, mas precisavam do título que registrasse este protagonismo. O desempenho do Chelsea na LC ao longo das últimas temporadas passadas foi notável, seis vezes semifinalista – marca só acompanhada pelo Barcelona. E, justamente quando os londrinos pareciam contar com sua equipe mais fraca desde a chegada do magnata russo, a conquista aconteceu.

Antes da final, foram três ocasiões nas quais a eliminação parecia bem palpável. Ao fim da primeira fase, após o jogo de ida contra o Napoli e no momento em que foi sorteado na mesma chave que o Barcelona. Em todos eles, o time superou as expectativas, assim como faria na final. O futebol dos Blues não foi o mais agradável, mas foi o mais eficiente. Apesar de não ter vindo no melhor momento, o título premiou parte de uma geração que o merecia.

Selado e festejado o épico, é hora de começar a planejar a próxima temporada. O elenco atual pode ter mostrado seu poder em torneios de tiro curto – o Mundial de Clubes será o primeiro grande objetivo, consolidando a marca internacional do clube. Porém, precisa de mais se quiser aguentar a maratona da Premier League e reconquistar o título inglês após três anos.

O primeiro passo para o futuro do Chelsea será resolver a situação em seu comando. Roberto Di Matteo demonstrou suas qualidades ao redesenhar uma temporada que parecia desastrosa. E mesmo com a taça da Champions debaixo do braço, o suíço-italiano parece não gozar de total confiança de Abramovich. Para assegurar seu emprego, contudo, o treinador possui seus trunfos:

– Arrojo nas mudanças: Foram meses frustrados sem que André Villas-Boas conseguisse implantar seu sistema de jogo. Poucos jogadores que se adaptaram ao 4-3-3, no qual o português exigia um pouco mais de trabalho com a bola nos pés. Di Matteo não teve pudores para impor seu 4-2-3-1, que parece ter consertado o time em definitivo, aplicando um jogo bem mais vertical e característico ao passado recente do clube.

– Conhecimento do elenco: Mais que as alterações táticas, o treinador também trouxe grandes ganhos à equipe com o reposicionamento de alguns jogadores. Ramires rendeu demais como meia aberto pelos lados do campo. Lampard voltou a apresentar sua capacidade na cadência e na armação. Drogba foi utilizado nos momentos certos. Fernando Torres virou uma arma para tentar liquidar os jogos. E, na final, Ryan Bertrand foi uma jogada bem sucedida do comandante para anular o jogo do Bayern pelo lado direito da defesa.

– Dedicação defensiva: A evolução do setor em relação à primeira parte da temporada é notável. Sob as ordens de AVB, o Chelsea se notabilizou pelos espaços dados por sua defesa. A mudança tática feita por Di Matteo deu maior consistência à equipe, sobretudo pelo reforço dado na linha de combate do meio-campo. Cahill, Ivanovic e Cole vivem grande fase e David Luiz se recupera da desconfiança inicial. E, quando a situação apertou, Cech foi espetacular.

– Ataque fulminante: Os Blues demonstraram uma capacidade gigantesca de definir as partidas na Liga dos Campeões. Em seu blog, o jornalista Paulo Vinícius Coelho constatou: dos 11 gols da equipe com Di Matteo na competição, cinco foram marcados em contra-ataques e outros quatro em bolas paradas. Números que comprovam a contundência ofensiva, em partidas nas quais, em sua maioria, os londrinos atacaram menos.

– Paz com o senado: Os seis anos como jogador durante a era anterior a Abramovich deram a Di Matteo o status de homem da casa. E, com o mal estar gerado por Villas-Boas, o suíço-italiano foi visto como excelente alternativa pelos líderes do elenco. Especialmente na volta contra o Napoli, quando Terry orientava o time à beira de campo, fez-se imaginar que o novo comandante seria um fantoche. No entanto, o interino impôs seu estilo, aliando-se aos senadores. Depois da final, a manifestação dos jogadores em prol do interino foi natural.

– Aproveitamento da equipe: O sucesso do Chelsea na Champions é evidente. Já na Premier League, o treinador venceu cinco partidas, empatou três e perdeu três. Destes tropeços, o único injustificável foi contra o Newcastle, realmente superior. Já na Copa da Inglaterra, além do título, os Blues também emplacaram uma goleada sobre o Tottenham. Seu aproveitamento de 73% dos pontos disputados e sua média de 2,24 gols por jogo estão entre os maiores desde 2003.

– O que pesa contra Di Matteo: O apreço de Roman Abramovich por técnicos badalados é a primeira barreira diante da efetivação. Fabio Capello é o primeiro nome a surgir com força na imprensa inglesa – embora os senadores, sobretudo, Terry, devam preferir o interino. O passado modesto do suíço-italiano como técnico não ajuda, especialmente se a regularidade em torneios de pontos corridos não aparecer. E, caso fique, Di Matteo terá uma missão bem mais profunda apenas que ter sucesso nas competições. Já está na hora de conduzir a renovação na espinha dorsal dos Blues.

Drogba fica?

Além da interrogação no comando técnico, o outro grande enigma do Chelsea para a temporada que vem é a permanência de Drogba, cujo contrato se encerra no dia 30 de junho. O centroavante foi, sem dúvidas, o cara na conquista da Champions. Não tem mais condições físicas de outrora, mas comprovou que, se utilizado nas decisões, continua dando seu máximo.

O esforço do marfinense em campo foi notável durante os jogos mais importantes dos Blues. Entretanto, mais importante foi a velha capacidade de fuzilar o adversário em uma jogada. O gol contra o Bayern Munique saiu no único escanteio que os ingleses ao longo dos 120 minutos de bola rolando – foi o nono tento em nove decisões disputadas pelo clube. Em um movimento perfeito, não deu chances à marcação de Boateng, se antecipando no lance e indo de encontro às redes. Por fim, também espantou a desconfiança que pairava sobre seus pênaltis decisivos, especialmente pelo seu retrospecto com a camisa de Costa do Marfim.

Durante a comemoração na Allianz Arena, Drogba reverenciou o setor azul das arquibancadas. No palco da festa, fez questão de entregar o troféu nas mãos de Abramovich – talvez tentando convencer o chefe dos dois anos de contrato que ele quer. Entre os caminhos possíveis, o centroavante pode querer eternizar seu ápice nos Blues, partindo para algum paraíso financeiro e de menor nível técnico da bola. Ou continuar dosando seu máximo em Stamford Bridge e continuar alimentando seu mito.

O English Team da Euro

Roy Hodgson tinha pouquíssimas direções para onde correr. Sem tempo para testes, o técnico fará apenas um amistoso antes do prazo final dado pela Uefa para o anúncio dos convocados. Assim, o treinador preferiu não fazer invencionices e chamou logo de cara os 23 jogadores que farão parte do English Team na Eurocopa.

Foram poucas as novidades da lista. Alex Oxlade-Chamberlain dá continuidade à tradição inglesa de abrir vaga a um prodígio no elenco final. Mesmo reserva, o atacante de 18 anos foi ótima opção ao Arsenal ao longo da temporada e já tinha demonstrado desenvoltura com a camisa da seleção sub-21. Considerando a concorrência de Aaron Lennon e Daniel Sturridge, certamente não foi uma aposta arriscada.

No gol, John Ruddy justifica a presença pelo bom momento vivido ao longo da Premier League com o Norwich City, aliada ao problema crônico do país na posição. Hodgson foi um pouco mais ousado apenas na escolha de Andy Carroll, mas nem tanto assim. O desempenho geral do centroavante não foi bom na temporada, embora tenha apresentado um crescimento evidente nas últimas semanas. Peter Crouch e Darren Bent não vivem momentos tão bons para se considerarem indispensáveis.

A decisão mais polêmica ficou para a defesa. Estava claro que levar John Terry e Rio Ferdinand seria tarefa impossível e, no máximo, geraria um problema e tanto para o técnico gerir. Sem que os dois vivessem uma grande fase técnica, o treinador optou pelo zagueiro do Chelsea, mesmo tendo que lidar com um ego maior dentro do vestiário. No entanto, manteve a postura de Fabio Capello ao deixar o zagueiro sem a braçadeira.

Sob seu comando, Hodgson não terá um elenco espetacular, mas capaz de surpreender na Euro, ainda mais por desta vez não contar muito com o peso do favoritismo. Pela primeira vez em anos o English Team terá um goleiro em fase excelente, Joe Hart. E, na linha defensiva, o treinador ainda poderá apostar em três jogadores que tiveram ótimos resultados coletivos com o Chelsea.

As dúvidas no meio de campo ficam sobre como gerir o eterno dilema da utilização de Gerrard e Lampard. Por enquanto, o meia do Liverpool sai na frente, com a braçadeira de capitão, ainda que o Blue tenha fechado a temporada em melhor forma. De resto, a equipe conta com dois excelentes cabeças de área com Scott Parker e Gareth Barry, além de boas opções para os lados do campo.

Já no ataque, a grande questão é saber como suprir a ausência de Wayne Rooney. Sem ninguém que se assemelhe às características do camisa 10, Hodgson terá que solucionar a questão muito provavelmente pensando em duas formas diferentes para a equipe jogar, com e sem o atacante. O tempo urge, tanto para os ensaios quanto para o técnico ter o elenco sob suas mãos.

Curtas

Premier League

– O título do Chelsea na Liga dos Campeões e a convocação do English Team eram assuntos que não podiam passar batidos. O balanço da temporada, com isso, fica para a próxima coluna.

– A vitória do Chelsea em Munique teve seus ecos de dor em White Hart Lane. A queda de produção no segundo turno custará alguns milhões ao Tottenham, que deverá ignorar a Liga Europa por mais um ano. Pior que isto deverá ser a prenunciada venda de Luka Modric ou, especialmente, Gareth Bale. Sem esperar grandes contratações, Harry Redknapp terá que quebrar a cabeça para melhorar os resultados na próxima temporada.

– Destaca-se ainda a genialidade de Louis Saha e Steven Pienaar, que parabenizaram os Blues no twitter e agora estão sendo expurgados dos Spurs pelos torcedores.

– Nem mesmo o passado de Kenny Dalglish no Liverpool foi suficiente para segurá-lo no comando da equipe – algo compreensível pensando somente nos resultados, após o clube registrar seu pior aproveitamento no Campeonato Inglês desde 1953/54. O treinador possuía controle nos vestiários, mas o time não se encaixou ao longo da temporada e demonstrou poucas capacidades de reação.

– A bomba agora está nas mãos de John W. Henry, que chegou à direção dos Reds credenciado pelo bom trabalho nos Estados Unidos e, depois de 18 meses, vê seu planejamento voltar ao marco zero. Sem diretor de futebol ou chefe executivo, o americano terá que repensar sua estratégia em Anfield. Mais que um treinador, o clube precisa de um manager, na concepção mais completa do termo inglês.

Championship, League One e League Two

– Como apontou durante boa parte da temporada, o West Ham conseguiu o bilhete de volta à elite. Os londrinos tiveram confronto bastante equilibrado com o Blackpool, mas conseguiram sair com a vitória de Wembley aos 43 minutos do segundo tempo, com gol de Ricardo Vaz Tê. Alívio para os Hammers, que terão novamente o aporte financeiro da EPL e diminuem as preocupações com crises.

– Os dois times com melhor campanha na temporada regular disputarão os playoffs da League One. O Sheffield United venceu o Stevenage, após ter empatado no primeiro jogo. E o triunfo do Milton Keynes Dons não foi suficiente para atrapalhar a vida do Huddersfield Town.

– Por fim, na League Two, permaneceram os dois times com pior campanha. O Crewe Alexandra segurou o empate contra o Southend United e passou graças à vantagem obtida na ida. Já o Cheltenham Town voltou  a bater o Torquay United.

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Equipe Trivela

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