Inglaterra

Arsenal, de distante a amante de agentes

Por Alcysio Canette*

Durante o comando de Arsène Wenger, não havia um clube europeu mais resistente a lidar com agentes do que o Arsenal. Não foram poucas as vezes que o clube simplesmente desistiu de um negócio ao saber que o atleta desejado era representado por tipos como Mino Raiola ou Jorge Mendes. A simples ideia de ter um negócio mediado por um desses super-agentes, procedimento comum em casos de jogadores representados por parentes ou empresários desconhecidos, fazia negócios serem abandonados.

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Contudo, o clube deu uma guinada em sua visão desde a chegada de Raúl Sanllehi ao cargo de diretor esportivo do Arsenal. O espanhol adora operar no mercado de transferências com seu livro de contatos aberto, buscando indicações de amigos agentes. Essa predileção pelos relacionamentos sobre a análise técnica e estatística foi o que provocou a saída de Sven Mislintat, que identificou talentos como Lucas Torreira, talvez a melhor contratação feita pelo clube nos últimos anos.

O ex-olheiro do Borussia Dortmund relatou em entrevista à revista alemã 11Freunde que, além de uma quebra de promessa da nova direção (ele era cotado para o cargo de Edu), houve também uma diferença de abordagem. “Anteriormente, tínhamos uma abordagem sistemática para as transferências, uma mistura de ver as coisas ao vivo e dados de qualidade e analistas de vídeo. Isso significava que atuávamos de maneira independente. Conhecíamos os mercados e os jogadores em todas as posições. No entanto, a nova liderança trabalha mais com o que lhes é oferecido por clubes ou agentes, por meio de suas próprias redes”, afirmou o alemão, atualmente no Stuttgart, segundo o Independent.

Por um lado, a lógica dos contatos possibilitou a contratação de David Luiz no fim da última janela de verão. Não fosse a relação próxima de Kia Joorabichian com Raúl e Edu, dificilmente um acordo teria sido fechado em pouco menos de seis horas e o Arsenal teria sido obrigado a reter Koscielny, que detestava o treinador e não queria mais servir aos seus comandos. Favor aparentemente devolvido agora em janeiro, com o clube graciosamente ajudando a levantar a bola de Lavyin Kurzawa, meio encostado no Paris Saint-Germain e também agenciado por Kia.

Outro caso, mais recente ocorreu na inexplicável “mediação” de Jorge Mendes no negócio com Nicolas Pépé. Ambos os dirigentes de Arsenal e Lille trabalharam juntos no Barcelona por anos e eram íntimos. Qual a necessidade da participação de Mendes, como relatou o jornalista francês Alexis Bernard, do site le10sport.com?

E, além de ter seu livro de contatos aberto, alguns agentes são mais próximos que outros, em especial Arturo Canales. Arturo começou sua relação com o Arsenal indicando Unai Emery, que viria a ser seu cliente no futuro, para substituir Arsène Wenger e está doido para tentar emplacar transferências de seus atletas.

Tudo começou com os constantes rumores de uma possível contratação de Samuel Umtiti, que não está lá super-feliz em Barcelona. O atleta já visitou jogos do Arsenal algumas vezes e é uma especulação constante no mercado. Contudo, parece ser difícil justificar à torcida do Arsenal o investimento na casa de £ 45 milhões em um jogador com um histórico de lesões no joelho tão constante. Em um clube com tantos problemas físicos recentes como o Arsenal, a ideia de trazer jogadores assim causa pânico coletivo nas arquibancadas.

Nessa janela de inverno, surgiu uma possibilidade criada pela necessidade. Com a lesão de ligamento cruzado de Calum Chambers e as dificuldades encontradas por Rob Holding em voltar à melhor forma após a sua cirurgia para a mesma lesão, aconteceu o que ninguém, tanto no clube, quanto na torcida, queria ver: Mustafi regularmente em campo.

Dessa maneira, por mais que Mikel Arteta defenda seu jogador e chame para si a responsabilidade de fazê-lo não cometer erros capitais constantemente, o Arsenal passou a buscar desesperadamente uma solução de curto prazo. Oportunidade perfeita para Arturo Canales mostrar sua boa vontade.

Inicialmente, surgiram ligações com Mykola Matviyenko, cujo negócio estaria sendo intermediado por Canales, mas o clube ucraniano não ficou nada contente com a oferta de empréstimo com opção de compra que o Arsenal estava disposto a fazer. Apesar de haver uma crise na defesa dos Gunners, o clube já conta com William Saliba para a próxima temporada e parece ter forte interesse em Upamecano, do RB Leipzig, então não há muito sentido em trazer um atleta em definitivo para a posição.

Dada a resistência dos ucranianos, Canales não desistiu e colocou Pablo Marí na jogada, esse oficialmente agenciado por ele. A posição do clube seguiu a mesma, ofertando um empréstimo com opção de compra. Nesse caso, parece ter havido algum ruído na negociação. Ou Canales não repassou as intenções reais do Arsenal ao Flamengo, ou alguém quis fingir que entendeu errado para poder tentar empurrar o negócio lá na frente. Esses detalhes, jamais saberemos.

Preocupa essa estreita relação de cumplicidade de Raúl com certos agentes. Vimos no passado o Barcelona com elenco cheio de contrapesos de negócios maiores, e o Arsenal tem margem de manobra financeira muito inferior à dos catalães. Após mais uma tentativa furada de Canales, espero que essa relação esfrie. Unai Emery já fez estrago suficiente.

*Alcysio Canette é advogado, membro da torcida Arsenal Brasil e apresentador dos podcasts Lado b do Rio, Lado b noticias e Piores Crimes do Mundo, pela Central 3.

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