Faz sentido se irritar com o jogo do Arsenal? Dados sobre cera e bola parada explicam
Ritmo da partida dos Gunners de Arteta virou tema de debate e irritação entre adversários
A vitória por 1 a 0 do Arsenal sobre o Brighton, na última quarta-feira (4), reacendeu uma discussão que vem ganhando força nesta temporada da Premier League: o quanto os Gunners estariam manipulando o ritmo das partidas através de atrasos em bolas paradas.
A crítica mais direta veio de Fabian Hurzeler, técnico do Brighton. Após o jogo no Amex Stadium, ele não escondeu a frustração: “A Premier League precisa encontrar uma regra, porque o que o Arsenal fez ali não é futebol”, afirmou.
Segundo o treinador alemão, o time de Mikel Arteta estaria exagerando no tempo gasto para cobrar escanteios, laterais e tiros de meta, algo que, em sua visão, quebra completamente o ritmo do adversário. Essa leitura, porém, também abre espaço para debate.
Os dados que comprovam a irritação com o Arsenal
Segundo números da plataforma de estatísticas “Opta”, contra o Brighton, o Arsenal levou 30 minutos e 51 segundos somados para reiniciar o jogo após interrupções, o maior número do clube em uma partida em casa nesta temporada. Isso significa que o jogo teve, na prática, mais de meia hora a menos de bola rolando.
À primeira vista, parece muito. E, de fato, é um número alto. Mas o contexto ajuda a relativizar a crítica: 13 clubes da Premier League já registraram tempos maiores de reinício em jogos desta temporada, alguns deles em mais de uma ocasião.

Ou seja, o comportamento do Arsenal não é exatamente um caso isolado, por mais que tenha participado de outras três partidas com mais de meia hora de atrasos. Por exemplo:
- O Newcastle tem dois dos três maiores tempos de atrasos (37 minutos e 05 segundos e 35 minutos e 11 segundos);
- Sunderland tem três jogos em casa com mais de 31 minutos de paralisações;
- Bournemouth está envolvido em cinco jogos entre os mais parados, um em casa e quatro fora.
Ainda assim, durante o jogo no Amex Stadium, a percepção nas arquibancadas era clara. Logo nos primeiros minutos, um lateral demorado gerou vaias dos torcedores da casa. Em outro momento, cânticos de “Same old Arsenal, always cheating” (“O mesmo velho Arsenal, sempre trapaceando”, em tradução livre) ecoaram enquanto Jurrien Timber se preparava para cobrar um arremesso lateral.
Vencer também significa controlar o tempo
Na visão do repórter Stuart James, do “The Athletic”, há um fator importante que ajuda a explicar esse ritmo mais lento: o placar. O Arsenal estava vencendo fora de casa. “Times que estão em vantagem naturalmente desaceleram o jogo, algo tão antigo quanto o próprio futebol“, diz o jornalista.
E os números sugerem que o Arsenal tem motivos para isso: Nesta temporada, apenas o Manchester City passou uma parcela maior dos jogos em vantagem no placar (51%) do que os londrinos (45%).
Taking all delays into account, Arsenal spent an average of 31.4 seconds to get the ball back into play from corners, goal kicks, throws and free-kicks last night vs Brighton.
There have been 195 instances of a team taking longer than this in a Premier League match in 2025-26.
— Opta Analyst (@OptaAnalyst) March 5, 2026
Isso significa que, em boa parte das partidas, o time de Arteta está justamente na posição em que controlar o ritmo vira uma ferramenta estratégica.
Além disso, alguns atrasos têm explicações simples. Em determinados momentos do jogo contra o Brighton, tiros de meta demoraram mais porque os próprios jogadores da casa mandaram a bola para fora sob pressão. Outras pausas aconteceram por faltas: o Brighton cometeu 14 infrações na partida, uma das maiores marcas contra o Arsenal nesta temporada.
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A ironia das bolas paradas do Arsenal
Curiosamente, o debate sobre atrasos está diretamente ligado a uma das grandes forças do Arsenal nesta temporada. Os dados da Opta mostram que os escanteios do time levam em média 44 segundos para serem cobrados, o maior tempo da liga.
Já em laterais, os Gunners demoram em média 19,6 segundos para cobrá-los, o quinto mais demorado da Premier League. Curiosamente, no entanto, Raya é o terceiro goleiro que mais rápido repõe a bola em um tiro de meta: apenas 3,96 segundos de demora.

Do ponto de vista do Arsenal, existe uma explicação simples para essa paciência: ela funciona. A equipe já marcou 16 gols em escanteios na temporada, um número impressionante e que ajuda a justificar o cuidado quase cirúrgico na preparação dessas jogadas.
Para adversários e torcedores rivais, no entanto, a leitura é diferente: trata-se de uma forma de quebrar o ritmo do jogo. No fim das contas, a discussão talvez revele menos sobre regras e mais sobre perspectiva: para quem enfrenta o Arsenal, parece antijogo. Para o time de Arteta, é apenas gestão inteligente de uma partida que já está sendo vencida.
E enquanto a bola continuar entrando, seja em escanteios cuidadosamente preparados ou em ataques rápidos, dificilmente o Arsenal verá motivos para mudar essa abordagem.



