Inglaterra

Ifab mira ‘lesões estratégicas’ e testa nova regra contra cera de goleiros

Projeto-piloto busca frear pausas estratégicas após atendimento a goleiras, alvo frequente de críticas no futebol inglês

A prática de goleiros — e goleiras — caírem no gramado para interromper o jogo e permitir instruções táticas pode estar perto de sofrer um freio. Uma nova medida para combater a perda deliberada de tempo será testada na próxima temporada da Superliga Feminina da Inglaterra (WSL), após discussão recente da International Football Association Board (Ifab), órgão responsável pelas regras do futebol.

A proposta surge em meio a críticas recorrentes sobre o uso dessa “artimanha” durante partidas. O debate ganhou novo fôlego após declarações de Fabian Hürzeler, treinador do Brighton, que acusou o Arsenal de recorrer a tal tática na vitória por 1 a 0 sobre sua equipe, no Amex Stadium, na última quarta-feira (4).

Segundo o técnico alemão, o goleiro David Raya caiu três vezes durante o jogo, provocando paralisações que permitiram que os jogadores de linha se aproximassem da área técnica para receber orientações.

Por que as ‘lesões’ de goleiros entraram no radar da Ifab?

David Raya, goleiro do Arsenal, caído no gramado
David Raya, goleiro do Arsenal, caído no gramado (Foto: Ian Stephen/Every Second Media/Imago)

A regra em teste prevê que, sempre que o goleiro receber atendimento médico em campo, sua equipe terá de retirar um jogador de linha por um minuto. A ideia é impedir que as interrupções se transformem em pausas estratégicas sem qualquer consequência esportiva.

Hoje, quando um jogador de linha recebe atendimento dentro de campo, precisa permanecer fora por 30 segundos antes de voltar — período que a Fifa já estuda ampliar para um minuto. No caso das goleiras, porém, a pausa costuma ocorrer sem que o time fique temporariamente desfalcado, o que abre espaço para reorganizações táticas e momentos de descanso coletivo.

A Ifab ainda discute como será escolhida a jogadora que deixará o campo no teste da WSL. Uma das possibilidades é que o próprio treinador da equipe afetada indique quem será retirada durante o minuto de penalidade.

Hürzeler, que já havia levantado o tema na coletiva pré-jogo, defendeu que iniciativas do tipo também sejam consideradas em outras ligas, incluindo a Premier League.

— Acho que só uma equipe tentou jogar futebol hoje. Faço uma pergunta: vocês viram algum goleiro cair três vezes durante o jogo da Premier League? Não?

Para ele, a situação passa diretamente pela forma como as regras são aplicadas. “No fim das contas, tudo se resume às regras. Se a Premier League, se o árbitro, permite tudo, fica difícil; aí eles criam as próprias regras. Então, no momento, tenho a impressão de que eles estão seguindo as próprias regras, independentemente de como estejam jogando”, prosseguiu.

— Eu nunca serei esse tipo de treinador que tenta vencer dessa maneira. Quero me sair bem, quero que meus jogadores continuem melhorando, continuem jogando futebol em campo e, no final, claro, todas as equipes vão administrar o jogo e perder tempo. Mas acho que tem que haver um limite, e esse limite tem que ser definido pela Premier League, tem que ser definido pelos árbitros. No momento, eles simplesmente fazem o que querem — concluiu Hürzeler.

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Casos recentes ampliam pressão por mudança

Casos semelhantes já provocaram debates recentes no futebol inglês. Em novembro, Daniel Farke, treinador do Leeds United, sugeriu que Gianluigi Donnarumma, goleiro do Manchester City, teria simulado uma lesão durante uma partida da Premier League e também pediu mudanças nas regras.

No futebol feminino, o tema também é recorrente. Após empate sem gols entre Manchester United e Arsenal, em janeiro, a zagueira Dominique Janssen praticamente admitiu que a goleira de sua equipe, Phallon Tullis-Joyce, havia fingido lesão. “Phallon se jogou no chão para que pudéssemos discutir mudanças táticas”, disse.

O Manchester United não é o único alvo das críticas. Ao longo das últimas temporadas, diferentes treinadores da WSL reclamaram da prática. O Chelsea, por exemplo, foi frequentemente acusado de recorrer ao recurso durante a passagem de Emma Hayes pelo comando da equipe — embora a própria treinadora também tenha criticado o Arsenal por situação semelhante.

“(Manuela) Zinsberger (goleira do Arsenal) pediu três tempos técnicos durante o jogo”, disse Hayes, atualmente técnica da seleção dos Estados Unidos. “Para mim, esse é um problema que precisamos resolver em toda a liga. Não é só hoje. Eu disse isso ao quarto árbitro”.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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