Arsenal sofre gols demais de fora da área: azar, falhas de Raya ou problema defensivo?
Gunners concedem poucos chutes, mas sofrem uma quantidade anormal de gols de longa distância
O Arsenal vinha de sete vitórias consecutivas em todas as competições quando foi surpreendido pelo Brighton. A derrota por 3 a 0, além de encerrar a sequência perfeita, expôs novamente um fenômeno curioso na equipe de Mikel Arteta: os Gunners parecem atrair golaços de longa distância.
Pascal Gross e Charalampos Kostoulas marcaram com finalizações de fora da área antes de Chema Andrés fechar o placar de cabeça. Com isso, três dos quatro gols sofridos pelo Arsenal na Premier League nesta temporada vieram de chutes de longa distância. A derrota para o Brighton já havia exposto justamente essa fragilidade recente.
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A estatística também chama atenção quando David Raya é analisado individualmente. Dos 160 gols que sofreu na Premier League, 33 vieram de fora da área — 20,6%. Entre os goleiros que já sofreram pelo menos 100 gols na competição, apenas Hans Segers, ex-Tottenham e Wolverhampton, apresenta proporção superior, com 22%.
Mas o que explica isso? O Arsenal defende mal os adversários? Os 1,83m de Raya fazem diferença? Ou os campeões ingleses simplesmente estão sofrendo uma quantidade anormal de grandes finalizações?
Arsenal passou a sofrer muito mais gols de fora da área
A tendência nem sempre foi tão acentuada. Em 2023/24, apenas quatro dos 29 gols sofridos pelo Arsenal na Premier League vieram de fora da área, o equivalente a 13,8%. Na temporada seguinte, foram novamente quatro em 34: 11,8%.
O número começou a crescer em 2025/26. Seis dos 27 gols sofridos pelos Gunners vieram de longa distância, elevando a proporção para 22,2%.
Agora, no início de 2026/27, três dos quatro gols sofridos pelo Arsenal no campeonato saíram de fora da área. É uma amostra pequena, mas representa 75%. Entre os últimos 18 gols sofridos pela equipe na Premier League, sete foram marcados a pelo menos 16,5 metros do gol.
Contra o Brighton, o fenômeno ficou ainda mais evidente. O Arsenal terminou a partida com mais gols esperados que o adversário — 1,58 xG contra 1,33 —, mas foi punido pela qualidade das finalizações. Arteta classificou o jogo como uma “grande lição” depois de ver sua equipe ser castigada por dois chutes de fora da área. A leitura do treinador após a derrota reforçou que o problema não se resumiu ao placar.
| Saison | Gols encaissés | De l’extérieur de la surface | Proportion |
|---|---|---|---|
| 2023/24 | 29 | 4 | 13,8 % |
| 2024/25 | 34 | 4 | 11,8 % |
| 2025/26 | 27 | 6 | 22,2 % |
| 2026/27* | 4 | 3 | 75 % |
*Données de la saison 2026/27 après les premières journées de Premier League.
Altura de Raya explica o problema?
David Raya mede 1,83 m e é o goleiro titular mais baixo da atual Premier League. Jordan Pickford, com 1,85m, é quem mais se aproxima do espanhol, enquanto alguns goleiros da competição chegam perto ou ultrapassam os dois metros.
À primeira vista, a relação parece tentadora. Afinal, o único goleiro com percentual superior ao de Raya em gols sofridos de fora da área, Hans Segers, também tinha menos de 1,83 m. Mas as evidências disponíveis não confirmam que a altura seja determinante.
Um estudo publicado em 2025 pelo “International Journal of Sports Science & Coaching ” analisou 1.751 finalizações no alvo nas edições masculina e feminina da Champions League de 2023/24. Os pesquisadores não encontraram correlação entre a altura dos goleiros e o desempenho calculado a partir dos gols esperados após a finalização.
Isso não significa que Raya esteja automaticamente livre de responsabilidade. Posicionamento, tempo de reação, antecipação e até a visibilidade no momento do chute podem ter mais peso do que alguns centímetros de altura.
Também seria estranho reduzir o debate a uma suposta fragilidade estrutural do espanhol. Raya terminou a última temporada entre os grandes destaques do Arsenal, com números que mostravam justamente sua importância para a segurança defensiva do campeão inglês.
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Arsenal fecha mal quem chuta de longe?
O jogo contra o Brighton fornece argumentos para essa tese. Gross e Kostoulas tiveram espaço demais antes de finalizar, e Arteta criticou justamente a forma como sua equipe abordou a partida.
O Brighton recuperou a bola nove vezes no terço defensivo do Arsenal, maior número registrado por um adversário contra os Gunners em um jogo de Premier League desde o Liverpool, em dezembro de 2023. Essas perdas dificultaram a reorganização defensiva e deram aos donos da casa situações mais confortáveis para finalizar.
O problema é que os números de longo prazo não mostram um Arsenal habitualmente passivo. Na última temporada, os Gunners permitiram apenas 8,16 finalizações por partida, o menor número da Premier League. Além disso, 38% dos chutes adversários vieram de fora da área, maior proporção do campeonato.
Há uma explicação lógica: a estrutura defensiva de Arteta normalmente dificulta a entrada dos adversários na área e os obriga a tentar soluções de maior distância.
A equipe também utilizou a linha defensiva mais alta da liga, enquanto apenas o próprio Brighton permitiu menos passes adversários por ação defensiva. Os indicadores apontam, portanto, para um time agressivo sem a bola, e não para uma equipe que regularmente oferece liberdade aos finalizadores.
🤯❌ Brighton have just SMASHED Arsenal, despite losing the game on xG. pic.twitter.com/tMzHtATP7F
— FotMob (@FotMob) September 19, 2026
Os números dão força à hipótese do azar
O dado mais impressionante aparece quando se analisa não apenas de onde os adversários chutam, mas a qualidade dessas finalizações depois que a bola sai do pé.
Até 19 de fevereiro da temporada 2025/26, Raya havia enfrentado apenas 13 chutes no alvo de fora da área na Premier League. Seis terminaram em gol.
Segundo o modelo de gols esperados pós-finalização do “FotMob”, o xGOT, aqueles 13 chutes valiam juntos apenas 1,25 gol esperado. Em outras palavras, um goleiro médio seria esperado sofrer pouco mais de um gol. Raya sofreu seis.
A diferença chegou a aproximadamente 4,75 gols acima do esperado. Os adversários converteram 46,2% das finalizações no alvo de fora da área contra o Arsenal, enquanto a qualidade e a colocação dos chutes apontavam para uma taxa esperada de apenas 9,6%.
O contraste com as finalizações dentro da área é significativo. No mesmo período, Raya sofreu 14 gols em 45 chutes no alvo de curta distância que acumulavam 15,67 xGOT. Nesse cenário, portanto, o espanhol evitou aproximadamente 1,7 gol em relação ao esperado.
Isso enfraquece a teoria de um problema geral de Raya. Não por acaso, ele também apareceu entre os principais goleiros da temporada passada, justamente por seu rendimento em situações de maior volume e dificuldade.
O Arsenal certamente poderia ter pressionado melhor Gross e Kostoulas contra o Brighton. Mas a tendência de longo prazo sugere algo mais complexo: a equipe normalmente concede poucos chutes, protege bem sua área e força os adversários a finalizar de longe. O problema é que uma quantidade anormal dessas tentativas está terminando no ângulo.
Há espaço para correções defensivas, especialmente na proteção após perdas de bola. Mas, pelos números disponíveis, a sequência também carrega uma dose considerável de variância — ou, em termos menos técnicos, azar.