Inglaterra

Armadilha anti-Chelsea

Depois de 86 jogos, o Chelsea voltou a perder em casa pela Premier League. Considerando que o adversário era o Liverpool, o resultado é até normal (anormal é ficar quase 5 anos sem perder em casa). De qualquer modo, não foi simplesmente um confronto entre dois grandes times em que um ganhou por o acaso ou sorte. Houve muito mérito do técnico espanhol Rafa Benítez e dos jogadores que tiveram papel mais importante na estratégia adotada pelos Reds.

Desde o começo da temporada, já se havia identificado um buraco no modo como Felipão montava o Chelsea. O técnico vinha usando o 4-1-4-1, esquema em que um volante isolado dava proteção à defesa e tinha de dar conta da linha de armação com dois meias internos e dois externos. Era uma saída possível para um elenco com falta de volantes depois da contusão de Essien, mas havia uma falta de gente para lutar pela bola no meio-campo.

Pode-se argumentar que a Espanha foi campeã européia usando essa formação em alguns momentos. No entanto, dos quatro homens de armação utilizados, três (Fàbregas, Xavi e Iniesta) eram volantes de formação e marcavam bem. O que não ocorre com a linha composta por Kalou, Deco, Lampard e Malouda. Assim, Obi Mikel ficava sobrecarregado, ainda mais considerando que os laterais também avançam bastante. Essa falha de montagem não causa muitos apuros contra equipes mais fracas. Mas, diante de adversários mais fortes, pode ser fatal.

Já havia sido assim contra o Manchester United. Naquela partida, Alex Ferguson posicionou Park Ji-Sung nas costas de Bosingwa, explorando o lado direito que Obi Mikel não tinha como cobrir. O Chelsea acabou arrancando um empate no final, mas ficou uma lição que Rafa Benítez aprendeu bem.

Sem Fernando Torres, contundido, o técnico espanhol resolveu mudar o esquema da equipe. Usou um 4-2-3-1, em que Xabi Alonso e Mascherano protegiam a defesa. Com dois volantes eficientes, o Liverpool pôde usar uma linha de três armadores interessantes, em que Gerrard ficou no meio com mais liberdade que o normal e Riera e Kuyt ficaram abertos pelas pontas, mas sem esquecer de marcar.

O encaixe dos dois esquemas foi muito favorável ao Liverpool. Com uma linha defensiva que não avançava e dois volantes determinados na marcação, o setor ofensivo do Chelsea não tinha espaço. Além disso, Kuyt e Riera caíam pelas pontas, deixando os laterais dos Blues (Bosingwa e Ashley Cole) no dilema de ficar atrás e não ajudar o ataque ou avanças e abrir espaço em suas costas. Afinal, Obi Mikel, sozinho, não tinha como dar conta de três jogadores na armação.

O Chelsea tomou a iniciativa, mas não demorou para o Liverpool se mostrar mais estruturado. Tanto que o gol saiu com 10 minutos de jogo, justamente em uma bola que espirrou na entrada da área e ficou com Xabi Alonso, que veio de trás sem marcação para finalizar. A bola desviou em Bosingwa e tirou Cech da jogada.

A partir daí, ficou muito claro o duelo entre os dois esquemas. Os londrinos claramente não se adaptavam à marcação adversária e trombavam em todos os avanços. As oportunidades que surgiam eram sempre bagunçadas, sem que houvesse uma articulação mais lógica. Não à toa, Reina teve pouco trabalho.

Felipão pode ter perdido o duelo com Rafa Benítez, sobretudo no primeiro tempo, mas não é bobo. O brasileiro tentou mudar o esquema do Chelsea jogar de maneira que desestabilizasse a barreira vermelha. Belletti entrou no lugar de Malouda para ficar como meia direita e Di Santo, substituto de Kalou, se transformou em segundo atacante. Assim, os Blues passaram a jogar no tradicional 4-4-2.

A iniciativa até se justificava. Com a companhia de Belletti, Bosingwa teria mais proteção para apoiar o ataque. Além disso, haveria mais um homem no meio da defesa adversária para buscar uma sobra de bola e, eventualmente, empatar a partida. Mas, aí, o Chelsea padeceu pelo seu principal desfalque: há uma diferença entre Drogba e o descompromissado Anelka ou o inexperiente Di Santo.

Desse modo, o duelo tático ainda ficou nas mãos do Liverpool. O que dá a medida da capacidade de Rafa Benítez, mas não pode esconder os méritos dos jogadores-chave do esquema. Xabi Alonso e Mascherano foram supremos na marcação, dominando o meio-campo e sabendo conduzir a bola até o setor de armação. Riera e Fábio Aurélio, pela direita, e Arbeloa e Kuyt, pela esquerda, anularam as jogadas pelas laterais do Chelsea. Além disso, Carragher e Gerrard tiveram importância fundamental pelo espírito de liderança, ponto crítico para manter a concentração tática em um duelo desse nível.

O fim da invencibilidade em casa não tira o Chelsea da luta pelo título. No entanto, coloca o Liverpool nela. Afinal, ficava sempre a sensação de que os Reds estavam em um nível abaixo de Blues e Manchester United. No entanto, depois de bater essas duas equipes neste início de temporada, fica difícil imaginar o que o time de Merseyside precise provar para ser colocado entre os favoritos.

Tottenham muda tudo

Em geral, quando o mercado está fechado, não dá para um clube ganhar um dinheirinho com transferências. Pois o Portsmouth inovou. O clube do sul da Inglaterra acertou um negócio de £ 5 milhões com o Tottenham. Como? Vendendo o técnico.

Foi assim que Harry Redknapp deixou o Pompey para substituir Juande Ramos no Tottenham. E tão estranho quanto o modo em que os clubes se acertaram foi o momento: no sábado à noite, horas antes de as duas equipes disputarem seus compromissos pela 9ª rodada da Premier League.

Apesar da esquisitice, há algo de muito ético na maneira como tudo aconteceu. Desde a semana passada, parecia meio evidente que não havia como Ramos continuar no comando do Tottenham. O próprio espanhol admitiu isso depois de sua equipe perder pela sexta vez em oito rodadas.

Daniel Levy, presidente dos Spurs, identificou em Redknapp a possibilidade de comandar uma estrutura convencional no futebol do clube. Assim, entrou em contato com o Portsmouth e disse que estaria interessado no técnico, perguntando o que seria possível fazer para tirá-lo de Fratton Park. Peter Storrie, diretor de futebol do Pompey, afirmou que £ 5 milhões bastariam. E o negócio foi fechado.

Redknapp afirmou que é a oportunidade de treinar um grande clube antes de encerrar a carreira. Para o Pompey, é a chance de ganhar um dinheiro com o qual o clube não contava. Além disso, a perda do técnico talvez nem seja tão sentida, pois o time faz uma campanha apenas regular considerando o elenco que tem em mãos.

Além de Ramos, Levy fez o óbvio: demitiu Damien Comolli. O ex-diretor esportivo tem muita responsabilidade na péssima campanha do Tottenham. Afinal, foi ele quem comandou as polêmicas ações do clube no mercado de verão. Em sua conta estão, por exemplo, a venda da dupla de ataque Robbie Keane e Berbatov para contratar Pavlyuchenko, que não tem experiência na Premier League.

Era sabido que Ramos e Comolli não se entendiam, com o segundo não contratando os jogadores pedidos pelo primeiro. Assim, a saída do diretor esportivo era lógica. Como o espanhol também se equivocou na montagem do time e no gerenciamento do elenco, também saiu.

O impacto imediato das saídas foi positivo: o Tottenham fez 2 a 0 no Bolton, primeira vitória dos londrinos no campeonato. Mas, em médio prazo, o máximo que dá para esperar dessa equipe é se consolidar no pelotão intermediário enquanto espera a reabertura da janela de transferências, em janeiro. Afinal, contratações antes disso, só se for do técnico.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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