Após dois anos vazios, Van Gaal deixa United com legado minúsculo para a fortuna que gastou

As vaias em Wembley, a despeito do título da Copa da Inglaterra, ressaltavam o fim de um período lamentado pela maioria dos torcedores do Manchester United. Nesta segunda, enfim, a diretoria dos Red Devils confirmou a demissão de Louis van Gaal. Em dois anos, o treinador holandês colecionou resultados medíocres e raras alegrias, por mais que tenha sido campeão justo em seu último jogo. Ponto final que não corresponde ao resto da história. Afinal, diante da bonança financeira e dos £250 milhões gastos em transferências, conquistar um título secundário e classificar-se à Liga Europa são objetivos muito abaixo das exigências em Old Trafford. Trabalho contestável em vários pontos, que agora abre as portas para a chegada de José Mourinho, cujo anúncio oficial deve acontecer nos próximos dias.
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Em sua carta de despedida, Van Gaal ainda lamentou. Disse estar orgulhoso da conquista na Copa da Inglaterra e do privilégio de treinar o Manchester United. Porém, não escondeu a sua insatisfação de não completar os três anos previstos em seu contrato. “Eu acredito que as fundações estão firmemente colocadas para fazer o clube avançar e conquistar grandes sucessos. Espero que a FA Cup dê ao clube uma plataforma para se construir na próxima temporada e recuperar o sucesso que esses torcedores apaixonados desejam”, escreveu. Um discurso que não gera comoção, especialmente quando se olha para trás.
Van Gaal desembarcou em Old Trafford escorado pelo ótimo trabalho na seleção holandesa. Era um nome bem cotado para um período de transição, especialmente após a desastrosa passagem de David Moyes. Só que as suas credenciais nunca se provaram com os Red Devils. As decisões confusas permearam o seu trabalho, em diversos aspectos: nas contratações que não vingaram, nas opções táticas, no relacionamento com o elenco, no trato com a imprensa. E essa falta de padrão se refletiu diretamente em campo, com os resultados muito abaixo do esperado. A temporada atual, aliás, foi ainda mais decepcionante, considerando a eliminação na fase de grupos da Liga dos Campeões e a campanha errante na Premier League, que não permitiu nem uma colocação dentro do Top Four – por mais que a concorrência também não embalasse.
Ter David De Gea como grande destaque individual no último biênio é emblemático. Graças ao goleiro, o desempenho do United não foi ainda pior. E isso porque Van Gaal também teve problemas com o espanhol, diante da negociação de sua renovação de contrato e da venda não concretizada ao Real Madrid. No mais, o United do treinador holandês se marcou como um time de números péssimos no ataque; sem opções ofensivas, mesmo gastando tanto em reforços; de um sistema defensivo fragilizado e pouco organizado. O caos imperou ao longo de tantas atuações pouco empolgantes. E, não fosse a diferença do elenco para a maioria dos concorrentes, o provável é que as campanhas fossem ainda piores.
O rendimento de diversos jogadores também depõe contra Van Gaal, em especial os que chegaram sob grande preço. A lista de reforços que não vingaram como esperado é longa, encabeçada nesta temporada por Memphis Depay. E a recuperação de Ángel Di María no Paris Saint-Germain, especialmente, acaba ressaltando a inabilidade do holandês em arredondar o time durante estas duas temporadas. Mesmo com tantos jogadores técnicos para o meio-campo, o símbolo de sua passagem foi Marouane Fellaini, o homem de confiança cujas deficiências resumem também muitos problemas coletivos.
Não dá para dizer, todavia, que tudo foi perdido neste intervalo. Van Gaal ao menos merece elogios por uma de suas habilidades conhecidas há tempos: a capacidade para lançar jovens jogadores. Ainda que o valor de sua transferência seja contestável, Anthony Martial viveu uma boa temporada de estreia. Jesse Lingard mereceu certo destaque e se mostrou decisivo na Copa da Inglaterra. Já a grande descoberta foi Marcus Rashford, o garoto de 18 anos que se tornou a grande sensação dos Red Devils. Um legado para o futuro.
José Mourinho não tem bem o perfil de treinador duradouro, que marca tanto a história do Manchester United, como Sir Alex Ferguson e Matt Busby. De qualquer maneira, é uma injeção de ânimo mais do que necessária neste momento, para mexer com os brios em Old Trafford. Há um elenco razoável para se trabalhar, por mais que diversas carências persistam. Um ponto de partida deixado por Van Gaal, até por todos os problemas da equipe. Independente do sucesso derradeiro, a passagem do técnico holandês será mesmo lembrada como um tempo que os Red Devils prefeririam se esquecer que existiram.



