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Apenas 11,7% da Premier League são pratas da casa, mas problema não é exclusivo dos ingleses

A fartura econômica inglesa é boa para os clubes, mas tem um custo. O novo acordo pelos direitos de transmissão da Premier League aumentou ainda mais a distância financeira dos britânicos para o restante do mundo, mas exacerbou um problema: a falta de espaço para jogadores das categorias de base do futebol inglês. O último relatório do CIES Football Observatory sobre a presença de “pratas da casa” em clubes das primeiras divisões europeias aponta uma queda preocupante por todo o continente, mas ainda mais alarmante na Inglaterra.

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Segundo o estudo, apenas 11,7% dos atletas da Premier League são das categorias de base dos clubes em que atuam. Para ser considerado um “prata da casa”, o estudo leva em conta as definições da Uefa e de maior parte das grandes ligas do continente para designar assim um jogador: atletas que, entre os 15 e 21 anos, fizeram parte das categorias de base de seu clube empregador por no mínimo três anos.

O problema de baixa representação dos “pratas da casa” é especialmente crítico na Inglaterra, pela tendência de piora nos números, mas não exclusivo dos ingleses. Na Itália, a representatividade é ainda menor, com apenas 8,6%. Mesmo a Alemanha, que tem apostado mais no desenvolvimento de atletas desde antes da derrota na Copa de 2002, não tem figuras muito boas: 13,3%. Dentre as cinco grandes ligas, a espanhola acaba sendo a única com mais de 20% de “pratas da casa” nas equipes: 23,7%.

Como são as mais ricas, é comum que as cinco principais ligas (inglesa, espanhola, alemã, italiana e francesa) tenham esse problema mais exacerbado, mas os números do estudo mostram que mesmo em um panorama continental a situação tem se agravado. Nas 31 principais ligas europeias, o número de atletas vindos das categorias de base de seu clube caiu pela primeira vez para menos de 20%, registrando 19,7% em 2015, em comparação com os 23,1% de 2009, ano em que a CIES começou a fazer esse tipo de levantamento.

Preocupada com o desenvolvimento de novos atletas e com o desempenho da seleção inglesa em competições internacionais, a FA já lançou alguns planos que visavam uma maior utilização de jogadores das categorias de base, sobretudo os ingleses, mas a maior competitividade dos clubes da Premier League no mercado de transferências internacional aumentou o número de atletas estrangeiros, diminuindo o número de jogadores da base.

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De acordo com o CIES Football Observatory, 59,9% dos atletas da Premier League são estrangeiros. Esta é a segunda maior proporção entre as primeiras divisões europeias dos 31 países analisados e está atrás apenas da liga cipriota. Em comparação com outros países com ligas de grande porte, o número fica mais facilmente mensurável: Itália (56,5%), Alemanha (45,9%), Espanha (39,9%) e França (30,5%).

O número alto de estrangeiros, no entanto, se traduz também em uma maior representação de atletas de alto nível. Notáveis 41,1% dos jogadores do Campeonato Inglês estão nas seleções de seu país, enquanto Alemanha e Espanha, por exemplo, apresentam números bem inferiores: 30,9% e 19,9%, respectivamente.

Diante das exigências criadas recentemente pelas campanhas de maior utilização de atletas das categorias de base na Inglaterra, o resultado é tem sido uma maior movimentação desses jogadores entre clubes e divisões inglesas. Eles até têm sido utilizados, entretanto, o espaço que têm ganhado não é exatamente aquele idealizado pela Federação Inglesa ao anunciar suas medidas, mas sim em equipes de menor competitividade técnica, onde, consequentemente, terão seu desenvolvimento limitado.

Em um plano mais amplo, a queda da representação de atletas das categorias de base em suas próprias equipes aponta uma rotatividade cada vez maior entre os clubes na Europa, com jogadores trocando de clubes com maior frequência mesmo nos estágios iniciais de suas carreiras. Se, por um lado, isso aumenta o leque de ensinamentos que esses garotos poderão absorver com suas experiências, por outro, dificulta a criação de uma identidade em diferentes clubes e diferentes ligas.

Cada país deve ter sua preocupação pontual, de acordo com suas questões particulares, mas coletivamente este panorama gradativamente mais preocupante eventualmente levará à adoção de algum plano mais severo por parte da Uefa. A entidade tem uma exigência de oito atletas “pratas da casa” nos elencos de 25 jogadores inscritos para suas competições. Por “prata da casa”, a Uefa quer dizer atletas que, entre os 15 e 21 anos, tenham passado três temporadas em algum clube do mesmo país daquele em que atua. Ainda assim, exige que pelo menos quatro desses oito tenham necessariamente jogado por três anos nas categorias de base do próprio clube empregador.

Mesmo essas especificações não têm sido suficientes para atenuar o problema, sobretudo pela não obrigatoriedade de escalar esses jogadores nas partidas da Champions League e da Liga Europa. A própria entidade reconhece que faltam incentivos para que os clubes desenvolvam seus próprios jogadores em vez de contratar atletas prontos de outras equipes. Diante dos números apresentados pela CIES, a urgência para se criar esses estímulos deverá ser ainda maior. Uma questão que o poder econômico, aparentemente, não ajuda a resolver.

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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