Antes periferia menosprezada, sul de Londres se tornou o grande celeiro do futebol inglês

Ao longo das últimas décadas, a Inglaterra enfrentou sérias dificuldades na formação de jogadores. A abertura das fronteiras a partir da Lei Bosman e o enriquecimento dos clubes com a criação da Premier League ajudou a fortalecer os elencos, mas muito mais pela contratação de estrangeiros do que pela prospecção de talentos locais. Assim, os dirigentes do país passaram a regulamentar mecanismos que garantissem os pratas da casa nos principais times. E alguns rincões do país passaram a se destacar no fornecimento de promessas. Hoje, não há celeiro maior do que uma região na periferia de Londres, antes marcada pelo desdém, mas responsável por uma verdadeira seleção de jovens destaques.
Atualmente, 14% dos jogadores ingleses da Premier League nasceram ao sul do Rio Tamisa, em um raio de 15 km. Somente a região de Croydon viu surgir 5% dos nativos da liga – enquanto a população local representa apenas 0,6% do total da Inglaterra. Um número bastante significativo, ainda mais considerando que a região nem sempre teve tanta fama no esporte quanto o industrial nordeste da metrópole. Entre os nomes mais badalados do sul londrino, vários jovens com passagem pela seleção inglesa, ao menos nas categorias de base: Chris Smalling, Nathaniel Clyne, Wilfried Zaha, Victor Moses, Ruben Loftus-Cheek, Jordan Ibe e Ryan Bertrand. Principal clube local, o Crystal Palace se aproveita do nascedouro, embora o Chelsea seja outro clube que também explore bem os prodígios que eclodem na região.
Há algumas décadas, David Bowie chegou a argumentar que Croydon era “tudo aquilo que não quero na minha vida, tudo aquilo que quero me manter longe”. A cidade suburbana na megalópole inglesa chegou a ser incluída em um projeto público ambicioso, que visava transformá-la em uma “nova Barcelona” – baseado nas mudanças vividas na cidade espanhola a partir do final da década de 1980. Planos tratados de maneira sarcástica, que nunca se concretizaram. Mas, pelo menos na formação de jogadores, dá para dizer que a região se aproxima um pouquinho de Barcelona.
Segundo Barney Ronay, que apresenta a região no jornal The Guardian, há alguns motivos para explicar a vocação do sul de Londres para revelar talentos. Antes marcada pelo preconceito e pela pobreza, a área se desenvolveu bastante nas últimas décadas, com a expansão das áreas mais valorizadas de Londres. E, com melhores condições de vida, os jovens locais viram as portas se abrirem. Além disso, em uma região com forte presença de imigrantes, sobretudo de origem africana, a mistura também contribui – não só culturalmente, assim como geneticamente.
Obviamente, o dinheiro que pinga cada vez mais na Premier League tende a inflacionar o mercado de transferências, mas também garante maior aporte financeiro na formação de atletas – o que se reverte ao trabalho feito no sul londrino. Faz a roda girar. Com tantos bons exemplares, a região já se mostrou interessante para o investimento em categorias de base. O que pode manter a aura de Barcelona em seus arredores por algum tempo.
O texto acima foi baseado na coluna “All hail the concrete Catalonia! South London’s golden square of talent”, de Barney Ronay, no Guardian. Para informações complementares, também vale a leitura.



