Abramovich e Chelsea: 10 anos de casamento e uma revolução
Completar 10 anos de casamento nos dias de hoje é um feito. Um clube completar esse tempo com o mesmo dono bilionário é também algo notável. O Chelsea chegou a essa marca com o russo Roman Abramovich. Há exatos dez anos, no dia 2 de julho de 2003, o clube era comprado pelo magnata do petróleo e dá para dizer que mudou completamente de patamar desde então. De um clube médio na Inglaterra, tornou-se um dos grandes da Europa, dentro e fora de campo.
Revolução russa
O primeiro contato de Abramovich com a Premier League não foi com o Chelsea. O homem que deu carona ao bilionário em sua primeira ida à Inglaterra o levou para o estádio Old Trafford, um dos mais tradicionais do país, que pertence ao Manchester United. Ele foi assistir ao emocionante jogo com o Real Madrid, na volta das quartas de final da Liga dos Campeões de 2002/03. A partida acabou 4 a 3 para o Manchester United, com Ronaldo Fenômeno marcando três vezes e David Beckham marcando dois. Os espanhóis avançaram. O russo ficou encantado com o que viu. Queria comprar um clube da Premier League.
Não demorou muito para que ele chegasse ao comando do Chelsea. É bom lembrar, o clube azul de Londres já tinha feito uma boa temporada em 2002/03, conseguindo o quarto lugar – e uma vaga na Liga dos Campeões. Gianfranco Zola era o ídolo do clube e Jimmy Floyd Hasselbaink ainda era o artilheiro – muito embora, naquele ano, Zola tenha feito mais gols.
O time tinha ainda Celestine Babayaro (quem jogou Winning Eleven de raiz lembra dele, lateral muito rápido), Marcel Desailly, campeão do mundo pela França, Winston Bogarde, lateral limitado, mas com passagem pelo Barcelona, William Gallas, aquele mesmo que depois iria para o Arsenal e Tottenham, Emmauel Petit, outro campeão mundial pela França em 1998, Eiour Gudjohnsen e dois dos senadores que estão por lá até hoje, John Terry e Frank Lampard. Tudo isso para dizer: o time estava longe de ser ruim. Era um time para brigar por vaga na Liga dos Campeões. Abramovich sabia que era um time com potencial. A partir de então, veio uma revolução.
Os gastos temporada a temporada

O russo pagou cerca de € 201 milhões para comprar o clube do antigo proprietário, Ken Bates. Uma quantia pequena pensando em quanto ele gastaria no clube nos anos seguintes – e talvez poucos imaginassem o impacto gigantesco que ele teria no futebol inglês. Abaixo, uma lista levantada pelo jornal inglês The Independent, com os gastos temporada a temporada:
2003-04
Transferências: € 170 milhões
Principais contratações: Damien Duff € 24 milhões, Hernan Crespo € 24 milhões, Claude Makélélé € 24 milhões, Juan Sebastian Veron € 21 milhões
Salários: € 162 milhões anuais
Prejuízo: € 125 milhões
Time: 2º na Premier League. Claudio Ranieri foi substituído por Jose Mourinho.
2004-05
Transferências: € 135 milhões
Principais contratações: Didier Drogba € 35 milhões, Ricardo Carvalho € 30 milhões, Paulo Ferreira € 20 milhões, Arjen Robben € 18 milhões
Salários: € 162 milhões anuais
Prejuízo: € 210 milhões
Time: Campeão da Premier League, campeão da Copa da Liga
2005-06
Transferências: € 82 milhões
Principais contratações: Michael Essien € 36 milhões, Shaun Wright-Phillips € 31 milhões
Salários: € 165 milhões
Prejuízo: € 116 milhões
Time: Campeão da Premier League
2006-07
Transferências: € 95 milhões
Principais contratações: Andriy Shevchenko € 42 milhões, John Obi Mikel € 23 milhões
Salários: € 194 milhões
Prejuízo: € 108 milhões
Time: Segundo lugar na Premier League, campeão da Copa da Liga e da Copa da Inglaterra.
2007-08
Transferências: € 64 milhões
Principais contratações: Florent Malouda € 22 milhões, Nicolas Anelka € 22 milhõesm, Branislav Ivanovic € 13 milhões
Salários: € 255 milhões
Prejuízo: € 98 milhões
Time: Segundo na Premier League, vice-campeão da Liga dos Campeões e Avram Grant entra no lugar de José Mourinho
2008-09
Transferências: € 35 milhões
Principais contratações: Jose Bosingwa € 20 milhões, Deco € 10 milhões
Salários: € 210 milhões
Prejuízo: € 55 milhões
Time: Terceiro colocado na Premier League, campeão da Copa da Inglaterra e Guus Hiddink substitui Luiz Felipe Scolari
2009-10
Transferências: € 25 milhões
Principal contratação: Yuri Zhirkov € 21 milhões
Salários: € 202 milhões
Prejuízo: € 81 milhões
Time: Campeão da Premier League, campeão da Copa da Inglaterra sob o comando de Carlo Ancelotti
2010-11
Transferências: € 112 milhões
Principais contratações: Fernando Torres € 60 milhões, David Luiz € 25 milhões, Ramires € 24 milhões
Salários: € 225 milhões
Prejuízo: € 80 milhões
Time: Segundo colocado na Premier League, Ancelotti demitido e substituído por André Villas-Boas
2011-12
Transferências: € 80 milhões
Principais contratações: Juan Mata € 26 milhões, Romelu Lukaku € 20 milhões, Raul Meireles 13,5 milhões.
Salários: € 195 milhões
Lucro: € 1,6 milhão
Time: Campeão da Liga dos Camepões, sexto lugar na Premier League, campeão da Copa da Inglaterra, Villas-Boas substituído por Roberto Di Matteo
2012-13
Transferências: € 105 milhões
Principais contratações: Eden Hazard € 40 milhões, Oscar € 31 milhões, Victor Moses € 11 milhões, Demba Ba € 9 milhões
Salários: € 180 milhões anuais
Prejuízo: balanço só será apresentado em fevereiro de 2014
Time: Terceiro colocado na Premier League, campeão da LIga Europa. Rafa Benítez substitui Roberto Di Matteo
Números totais da era Abramovich
Salários: € 1.73 bilhão
Transferências: € 748,7 milhões
Construção do centro de treinamento: € 23,31 milhões
Prejuízo: € 733,4 milhões
Arrecadação sobe aos céus

O Chelsea é um dos clubes que mais arrecada no mundo. E isso é parte do trabalho de Abramovich também. O relatório Football Money League, da Deloitte, elabora rankings de arrecadação dos clubes europeus desde a temporada 2000/01 e é um bom parâmetro para mostrar o quanto o clube subiu de patamar – e que também estava longe de ser um clube pequeno, algo fundamental para que o clube conseguisse subir tão rapidamente. Na temporada imediatamente anterior a Abramovich, 2002/03, o Chelsea tinha uma arrecadação de € 134,1 milhões. Com isso, era o décimo colocado na lista de maiores arrecadadores entre os clube europeus.
Na sua primeira temporada de Abramovich no clube, 2003/04, o clube subiu para o quarto lugar no ranking, com € 217,5 milhões, um aumento de 62%, o que é, por si, impressionante, já que o Chelsea não era uma potência do tamanho dos primeiros colocados do ranking, Manchester United, Real Madrid e Milan, todos com marcas consolidadas e com alcance mundial. Basta lembrar que naquela temporada, até Barcelona estava atrás (7º colocado). Na temporada 2011/12, a última com dados disponíveis (já que o balanço da temporada 2012/13 ainda não foi apresentado), o Chelsea apareceu em quinto lugar no ranking, com € 322,6 milhões, atrás de Real Madrid (€ 512,6 milhões), Barcelona (€ 483 milhões), Manchester United (€ 395,9 milhões) e Bayern Munique (€368,4 milhões). Considerando que três dos times à frente são marcas fenomenais e o Bayern foi o finalista da Liga dos Campeões (o que lhe dá uma grande arrecadação), ainda é um resultado para lá de interessante.
Gestão de um homem só

É impossível dizer que o Chelsea faz um trabalho ruim em termos administrativos. Abramovich elevou o padrão dentro do clube e criou um caminho a ser seguido por outros donos de clubes. Gastou muito dinheiro, no total ainda teve prejuízo, mas é evidente que o torcedor do Chelsea está feliz. O time se tornou um dos melhores da Europa, chegando sempre nas fases decisivas.
Talvez o principal ganho seja da marca. Se antes o Chelsea não era um clube mundialmente conhecido e sequer fazia cócegas em Liverpool e Manchester United nesse quesito, atualmente dá para dizer que o Chelsea tem uma projeção que atinge todos os continentes. José Mourinho conta que no seu primeiro ano como técnico da equipe, a pré-temporada nos Estados Unidos tinha alguns poucos torcedores acompanhando os treinos. No segundo ano, quando voltaram ao país da América do Norte, milhares acompanharam os treinos e jogos e os jogadores do clube se tornaram ídolos globais. O Chelsea é, hoje, um clube conhecido mundialmente.
Graeme Souness, ex-jogador do Liverpool que foi buscar Abramovich no aeroporto para levá-lo ao estádio, retratou o russo de um modo interessante no Mirror: “Você pode dizer tudo que quiser sobre Roman, mas ninguém realmente o conhece. O que eu gosto disso é que ele nunca diz nada em público. Nós todos temos que dar um palpite”, disse. “O que é indiscutível é que ele põe dinheiro no clube. Nunca se pode esquecer disso. Se você é um torcedor do Chelsea, está muito feliz com ele”, disse ainda o ex-jogador. “Ele tem o seu próprio estilo – e se ele não está feliz, ele irá mudar as coisas”.
Esse talvez seja o principal problema. Abramovich pode ser um cara tranquilo, quieto, que faz o que acha melhor. Mas em última instância, ele toma as decisões independente disso. Não há um conselho gestor, é ele com ele mesmo. Se Mourinho tem um problema com ele, o dono o demite e acabou. O estilo Juvenal Juvêncio nos tempos atuais de São Paulo torna as coisas muito pessoais. Ninguém pode se desentender com ele. Os projetos a longo prazo são cortados por problemas de curto prazo. Esse estilo é perigoso e cria um clima hostil para os treinadores que vão trabalhar no clube. Ganhar é uma obrigação sempre, o que é normal em clubes grandes, mas o alto grau de instabilidade e o grande número de trocas de técnico mostra isso.
Mesmo com os problemas, é impossível negar que o Chelsea ganhou outra projeção. É um time vencedor, que disputa com o Manchester United de igual para igual – algo que nos anos 1990 era impossível para o time. E em um mundo de donos de futebol que compram e vendem clubes como se fossem camisetas, é de se reconhecer que Abramovich e Chelsea é um casamento consolidado e muito estável. Não há qualquer vestígio que irá terminar tão cedo.



