A volta do menino dourado
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Quando o Real Madrid contratou Michael Owen, fui encarregado pelo editor do jornal de fazer a nota sobre o assunto. Era a primeira era dos “galácticos”, e comentei no curto texto que Owen era um “ex-galáctico”, para indignação do editor, fã do jogador. “O cara joga demais!”, ele disse. E eu pensei: “Jogava”. E jogava mesmo.
Michael James Owen estreou no time principal do Liverpool com 17 anos, em maio de 1997. Entrou no meio do jogo contra o Wimbledon, e marcou. Na temporada seguinte, sua primeira completa, foi o principal artilheiro da equipe, e repetiu o feito em todas as temporadas até 2004, quando deixou o time em direção à Espanha.
Na Inglaterra, estreou em 1998, e, no mesmo ano, foi destaque da campanha inglesa na Copa da França – seu gol contra a Argentina foi considerado o mais bonito da competição. Jogou e marcou também na Copa de 2002 – inclusive contra o Brasil, com assistência do “herói” Lucio –, e nas Eurocopas de 2000 e 2004, tornando-se o único inglês a conseguir marcar em quatro competições “grandes” consecutivas.
Em 2002 foi o “European Player of the Year”. Marcou 100 gols na Premier League. Comandou a campanha dos Reds em 2002/03, quando a equipe chegou a liderar a liga. O time, entretanto, acabou em quinto, e a estrela de Owen começou a se apagar.
Na temporada seguite, ficou fora numerosos jogos por lesão. A transferência para o Real Madrid, ao contrário do que previa aquele cara que eu mencionei lá em cima (eu vou falar o nome no final, pra manter o suspense), mostrou que o jogador nunca justificaria totalmente as expectativas. Owen jogou pouco, e não deixou saudades. Foi titular em apenas 15 partidas, e marcou 18 gols.
Owen queria sair, o Real Madrid queria que ele saísse, mas o Liverpool não o queria de volta. O Newcastle precisou ter paciência – e 16 milhões de libras – para ter o jogador. Que passou a maior parte do tempo em que esteve no clube no departamento médico.
Uma estrela em processo de apagamento, é portanto, a nova contratação do Manchester United. Um jogador de inegável talento, mas cuja condição física é um total mistério. Ainda que chegue de graça, não poderia chegar a um clube que precisasse dele todo jogo. O que, claramente, não é o caso do United.
E era o caso do Newcastle. Em St. James Park, Owen era necessário para salvar o time da forca. É razoável, portanto, supor que nunca teve tempo para se recuperar totalmente de suas lesões. É essa a única razão para acreditar que o o jogador poderá, em Manchester, fazer o que não fez em Newcastle: Owen é mais um no United, se ficar dois meses fora o time sentirá sua falta, mas poderá viver sem ele. Tendo-o inteiro, porém, terá a sua disposição um jogador de talento raro.
Owen, tecnicamente, é melhor do que Tevez. E não vai reclamar de ficar no banco. Para entrar no segundo tempo em uma situação de necessidade, como o argentino foi muitas vezes utilizado, é perfeito. E, se conseguir retomar a parceria com Rooney, Fabio Capello agradecerá.
Nenhum clube – o Real Madrid não é um clube, certo? – tem dinheiro para queimar, muito menos o endividado United. Os Devils, porém, têm condições financeiras de apostar, e é o que fazem todo ano. Algumas apostas são caras e não dão em nada, como é o caso de Nani. Outras, como Berbatov, por causa do preço ficam na fronteira entre um bom e um mal negócio.
Owen, entretanto, chegou de graça. Provavelmente tem um contrato em que receberá pelo que jogar. E seu futebol é reconhecidamente excelente se ele estiver bem fisicamente. Mal comparando, é como a aposta do Corinthians em Ronaldo, com a diferença de que as contusões de Owen não foram tão graves, e o inglês é mais jovem que o brasileiro.
A grande contratação da temporada? Dificilmente, assim como, ao contrário do que imaginava meu amigo Rodrigo Bueno, não foi no Real Madrid. Mas é a grande aposta do futebol europeu em 2009/10. Se der certo, Alex Ferguson terá dado mais um golpe de mestre. Se der errado, pelo menos foi muito mais barato do que o Nani.
Segundo escalão
Na penúltima parte da retrospectiva da temporada passada, falamos hoje de Everton e Aston Villa, que indicaram no ano que passou estar um passo à frente da maior parte dos rivais, mas ainda um degrau abaixo dos Top 4.
Aston Villa
Colocação final: 6º
Técnico: Martin O’Neill
Maior vitória: Wigan 0x4 Aston Villa (27/10)
Maior derrota: Liverpool 5×0 Aston Villa (22/3)
Principal jogador: Stiliyan Petrov
Decepção: Nick Shorey
Artilheiro: Gabriel Agbonlahor (12 gols)
Competição continental: Copa Uefa (Eliminado na primeira fase eliminatória)
Nota da temporada: 7
Por um bom tempo, parecia que esta seria a temporada em que o encanto dos quatro de cima da liga inglesa se quebraria. E que o responsável pela façanha seria o Aston Villa de Martin O’Neill. E assim seria se o campeonato tivesse um turno só. Os Villains, mesmo tendo começado o ano futebolístico com a saga da (não) saída de seu capitão Gareth Barry, chegaram ao meio da temporada se alternando entre a terceira e a quarta posições, e a consistência das atuações, somada à irregularidade do Arsenal, convenceu boa parte dos torcedores a analistas de que o time chegaria lá. De 7/2 a 4/5, entretanto, a vaca foi gloriosamente para o brejo: quatro empates e nenhuma vitória em nove jogos – incluindo derrotas em casa para Tottenham e Chelsea e os 5 a 0 em Anfield – decretaram que a Copa Uefa era onde chegaria o Aston Villa.
Se a expectativa não tivesse se elevado tanto, o sucesso seria imenso. O clube conseguiu mais pontos do que na temporada anterior, viu se firmarem jogadores como Ashley Young e Agbonlahor e sentiu o cheiro do objetivo. A trajetória ascendente é inegável, e o fato de que o clube nunca teve seu lugar na Liga Europa ameaçado é a prova disso. A queda acentuada na virada do ano, porém, não pode ser atribuída apenas à lesão de Laursen, e merece análise dedicada se o time quiser chegar a seus objetivos. Ainda assim, entra para a história recente do clube a temporada 2008/09.
Everton
Colocação final: 5º
Técnico: David Moyes
Maior vitória: Everton 4×0 Wigan (5/4)
Maior derrota: Everton 0x3 Portsmouth (30/8)
Principal jogador: Phil Jagielka
Decepção: Leighton Baines
Artilheiro: Cahill/Fellaini (8 gols)
Competição continental: Copa Uefa (Eliminado na fase preliminar)
Nota da temporada: 8
O Everton começou mal sua campanha de 2008/09: duas vitórias em nove partidas e uma derrota em casa para o Liverpool. A partir do final de outubro, entretanto, três vitórias seguidas catapultaram os Toffees para a sétima posição, e, a partir daí, só na 16ª rodada o time esteve abaixo disso. Na 17ª, entretanto, a equipe bateu o Manchester City fora de casa e começou uma série de sete jogos sem derrotas nas quais somou quinze pontos e cimentou sua vaga na Liga Europa. Três vitórias e um empate nas quatro últimas rodadas, entretanto, fizeram ainda mais, e o Everton chegou pelo segundo ano seguido à quinta posição, a quarta vez em cinco anos em que a equipe chega pelo menos ao sexto posto.
Além do bom final, os azuis de Liverpool comemoram também as bo as atuações de Marouane Fellaini, contratação recorde da história do clube. O belga foi titular em 28 partidas, e termina a temporada como co-artilheiro do time, com oito gols marcados. A força do Everton, entretanto, mais uma vez foi o coletivo, a consistência de seu onze principal. A boa forma da defesa, principalmente Jagielka e Lescott, também tem uma boa porcentagem do mérito pela boa colocação: fora de casa, o Everton teve a quarta melhor defesa da Premier League. É em David Moyes, porém, que os torcedores confiam. Pouco conhecido fora da Inglaterra, o treinador conseguiu, mais uma vez, chegar mais longe gastando menos. A assinatura de um novo contrato em novembro, que o manterá no clube por mais cinco anos, é também outro ponto alto da temporada.