Inglaterra

A vida pós-Scolari

Guus Hiddink completou cinco jogos à frente do Chelsea. Nesse período, o clube londrino teve 100% de aproveitamento e deu passos importantes em três competições: saiu em vantagem nas oitavas de final da Liga dos Campeões, chegou às semifinais da FA Cup e recuperou a vice-liderança da Premier League. Sinal de genialidade do técnico holandês? Nem tanto.

O técnico não teve tempo de implementar sua filosofia de jogo nos Blues. Nesta mesma coluna, há três semanas, estava escrito: “A preferência clara é por equipes que atuem de modo compacto, com movimentações em bloco quando possível e setores do campo (defesa, meio-campo e ataque) sem definição tão clara. A posse de bola também é valorizada, como modo de impor ao jogo seu ritmo, ao invés de se pautar pelo do adversário. Como comandante de um grupo, ele mostrou ter alguma habilidade ao levar uma seleção holandesa rachada entre brancos e negros às semifinais da Copa de 1998”.

Para que tudo isso acontecesse, o holandês precisaria de quase uma pré-temporada. É óbvio que ele não teve. Por isso, sua estratégia foi partir para a solução mais simples e prática: atender aos desejos dos jogadores. No caso, colocar Anelka e Drogba como dupla de ataque e voltar ao 4-4-2.

Com essa simples mexida, o time não se tornou particularmente mais envolvente ou taticamente melhor resolvido. O francês e o marfinense não parecem formar uma dupla das mais harmoniosas, pois ambos jogam muito fechados pelo meio. Além disso, o ex-Bolton (e PSG, Real Madrid, Arsenal, Liverpool, Manchester City e Fenerbahçe) se contundiu e, na partida contra o Coventry City, a equipe jogou no 4-1-4-1 que marcou a era Scolari, mas teve futebol mais convincente. No entanto, ao definir a formação principal com dois atacantes, Hiddink uniu o time.

Fica cada vez mais claro que um dos grandes problemas enfrentados por Felipão em Stamford Bridge era uma divergência interna. Jornalistas ingleses consultados pela Trivela revelaram que há indícios de que jogadores, liderados por Drogba, Ballack e Cech, teriam pedido a cabeça do brasileiro a Abramovich. O marfinense desmentiu a versão em entrevista ao Guardian, mas não escondeu seu descontentamento com o trabalho de Scolari.

É infantil achar que os jogadores do Chelsea teriam entregado jogos para derrubar Big Phil. No Brasil, fala-se muito sobre isso “em off”. Ainda assim, é algo mal visto no meio futebolístico. Na Inglaterra, entregar o jogo seria caso de demissão – e “excomunhão esportiva” – sumária. Ninguém faria isso, até porque outros jogadores azuis se mostraram simpáticos ao técnico gaúcho. Terry e Lampard foram dois deles, o que foi demonstrado na vitória sofrida diante do Stoke City.

O que parece claro que é o elenco estava dividido entre os prós e contras Scolari, com lideranças poderosas dos dois lados. E essa cisão é suficiente para quebrar a concentração e o poder de organização de qualquer equipe. Hiddink, ao impor um regime de treino mais europeu e colocar Anelka e Drogba juntos no ataque, ganhou o apoio dos descontentes. Como é um comandante inteligente e respeitado pelo mundo, não desagradou os que eram a favor do brasileiro.

Por enquanto, a recuperação do Chelsea não é sinal da genialidade técnica e tática de Guus Hiddink. O que se viu foi apenas o time voltar a jogar dentro de seu potencial, numa momentânea autogestão. Foi assim que os Blues chegaram à final da LC passada, mesmo tendo o desconhecido Avram Grant no comando. Resta ver onde essa política pode levar na atual. O jogo contra a Juventus em Turim é um excelente teste.

Arsenal respira

O clima não era dos melhores em Ashburton Grove. O Arsenal via o Aston Villa se distanciar na classificação do Campeonato Inglês e dar a sensação de que ficaria com a quarta vaga inglesa na Liga dos Campeões. Bastaram duas rodadas para os Gunners voltarem ao páreo, e com perspectivas otimistas para o fim da temporada.

Com um empate inesperado em casa para o Stoke City e uma derrota para o Manchester City, o time de Birmingham permitiu que sua vantagem para os londrinos caísse a três pontos. Mais importante que isso, porém, foi o modo como o time de Arsène Wenger começa a se remontar.

Arshavin ainda não atuou em todo seu potencial, mas deu um pouco de poder de armação à equipe. Além disso, o departamento médico trouxe boas notícias. Eduardo da Silva retornou aos gramados em grande forma, mostrando a confiança e o oportunismo que os Gunners precisavam desde a contusão de Adebayor. A volta de Walcott também pode dar mais leveza e rapidez em jogadas pela direita. Ainda falta Fàbregas voltar, mas a previsão é que isso ocorra em poucas semanas.

Desse modo, o Arsenal saiu da pasmaceira em que vivia. Depois de uma incrível sequência de cinco empates seguidos (Everton, West Ham, Tottenham, Sunderland e Fulham), sendo quatro por 0 a 0 (os quatro últimos da lista), os londrinos venceram com facilidade o West Bromwich e seguiram em ascensão na vitória sobre o Burnley na FA Cup.

Como essa recuperação se deu diante de adversários frágeis, é preciso um pouco de resguardo. Mas como a diferença para o Aston Villa caiu para três pontos, não é inviável pensar em uma recuperação nas últimas dez rodadas da Premier League. Até porque o time das Midlands pode estar sentindo falta de um elenco mais completo.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo