A Inglaterra é só o que importa (agora)
Historicamente, o futebol inglês demonstra certas dificuldades em reconhecer a importância do que acontece além dos limites da ilha – em situações que, por vezes, sugerem arrogância. O English Team negou a Copa do Mundo até 1950. A própria Champions demorou a engrenar entre os clubes do país. Após seu primeiro (e único, até a chegada de Abramovich) título nacional, o Chelsea se recusou a participar da edição inaugural do torneio, em 1955/56, por avaliar que os torneios domésticos mereciam maior atenção.
Mais de cinco décadas depois, os Blues deverão adotar novamente a mesma postura. No entanto, não por opção própria, e sim por falta de competência. A eliminação precoce na Liga dos Campeões é um fracasso sem precedentes na história recente do clube. Desde 2003, os londrinos sempre passaram pela fase de grupos do torneio e só ficaram de fora das semifinais em três oportunidades. E, por mais que não seja tão valorizado pelos europeus, o Mundial de Clubes também tem um peso notável no saldo negativo da temporada.
Não faltava interesse ao Chelsea pelo título no Japão, principalmente pelo contexto do clube nas últimas semanas. A conquista seria uma forma de aliviar as cobranças sobre a nova geração que está sendo forjada pelos Blues. Também serviria para Rafa Benítez dar seguimento ao seu trabalho, com a pressão se limitando apenas aos torcedores, como foi desde a sua chegada. Afinal, não há melhor maneira de aplacar o desejo insaciável de Roman Abramovich por cabeças rolando do que com troféus.
O fato é que o Chelsea se perdeu em campo e não demonstrou o empenho necessário na decisão, incapaz de derrotar o Corinthians. A vitória fácil contra o Monterrey certamente relaxou o time, mas essa é uma justificava menor diante do nó que Benítez tomou em Yokohama. A velocidade na transição, que marcou os primeiros jogos do espanhol nos Blues, foi anulada pelos alvinegros, assim como os avanços pelas pontas. No primeiro tempo, os londrinos tiveram o domínio da posse de bola, mas só criaram chances reais de gol em dois lances isolados: uma bola parada e um contra-ataque.
Já na etapa complementar, quando o Corinthians se propôs a sair para o jogo, a situação foi ainda pior. O meio de campo não promoveu a proteção adequada no entorno da área, tornando inútil a compactação pregada por Benítez. O time não tinha saída de bola e só passou a pressionar quando os adversários voltaram a dar espaços. A insistência em Moses por tanto tempo, quando a equipe precisava de alguém que controlasse o ritmo, como Oscar, também foi crucial.
Se especulavam durante o Mundial que a Copa da Liga Inglesa era mais importante para o Chelsea, ela terá que ser a partir de agora. A sequência de sete jogos sem vencer na Premier League permitiu que Manchester United e Manchester City se distanciassem, tornando o título um sonho distante. A tendência é a de que os Blues releguem a Liga Europa e se concentrem na busca pela vaga na próxima Liga dos Campeões. Em tiros mais curtos, se pintarem, as conquistas nas copas domésticas serão bem-vindas.
A princípio, o Chelsea é favorito para se manter no Top Four, mas não pode cochilar. O momento é de se concentrar nas falhas que persistem e aproveitar a próxima janela de transferências para solucionar as lacunas do elenco, buscando uma alternativa a Fernando Torres, um volante de contenção e um zagueiro. É preciso deixar para trás os fracassos internacionais e, como no passado, pensar que não há nada mais relevante que o futebol inglês – onde ao menos haverá tempo para montar um time que funcione coletivamente.
Prêmio de consolação?
A dedicação às competições domésticas nesta temporada, porém, não deve ser exclusividade do Chelsea. Ao Manchester City, é a única opção que resta. O Arsenal também não deve ter um destino diferente, diante da falta de consistência do time de Arsène Wenger e das expectativas por um adversário duro nas oitavas de final da LC – entre as opções possíveis, o Málaga é a única convidativa. Somente o Manchester United parece ter condições de honrar a Inglaterra na Champions.
Já a Liga Europa, mesmo sendo costumeiramente ignorada pelos ingleses, terá quatro representantes do país nos 16-avos de final, um recorde desde que a competição passou a contar com fase de grupos, em 2004/05. Entretanto, somente dois destes devem ter algum empenho na campanha. O Chelsea provavelmente usará um time misto, como fizeram United e City na temporada passada. E o Newcastle, com um elenco pouco numeroso e correndo riscos na EPL, também deve priorizar uma campanha segura no torneio nacional.
Sobram Tottenham e Liverpool. André Villas-Boas já disse que quer o título para os Spurs, mesmo diante da possibilidade de brigar por um lugar no Top Four. Já os Reds não devem ignorar a possibilidade de ganhar um título para impulsionar o início de trabalho de Brendan Rodgers. Isso, é claro, se o time não engrenar na Premier League e vislumbrar a possibilidade de faturar alguns milhões a mais na próxima Liga dos Campeões.
Kick and Rush
– Seis pontos de vantagem. O Manchester United já começa a nadar de braçada na Premier League. No sábado, vitória fácil sobre o Sunderland, em que os 3 a 1 no placar até ficaram baratos. Por mais que a defesa não demonstre um encaixe tão bom, se Rooney e Van Persie continuarem decidindo como nas últimas partidas, é difícil imaginar quando os Red Devils perderão pontos.
– O Manchester City, por sua vez, parece ter acordado depois da derrota no clássico. Finalmente os Citizens conseguiram matar uma partida nos 45 primeiros minutos. Yaya Touré voltou a se sobressair – e deve ser o cara a chamar a responsabilidade na perseguição contra os Red Devils.
– No bolo de times que brigam por um lugar no Top Four, o Tottenham começa a se sobressair. A derrota no clássico contra o Arsenal parece ter mexido com os brios dos Spurs, que venceram quatro das cinco partidas na EPL desde então. E André Villas-Boas começa a contar com seus novos contratados. Hugo Lloris ganhou de vez o posto de titular, enquanto Clint Dempsey vem de ótima sequência.
– No sobe e desce da gangorra do meio da tabela, enquanto West Brom e Fulham despencam, o Norwich mantém a sequência impressionante. Nesta rodada, os Canaries completaram dez partidas de invencibilidade – a segunda maior marca entre as cinco principais ligas europeias, atrás apenas do Barcelona. A vítima da vez foi o Wigan, em mais uma ótima atuação dos meias Wes Hoolahan, Anthony Pilkington e Robert Snodgrass.
– Outro time que parece entrar nos eixos é o Aston Villa, capaz de vitória contundente sobre o Liverpool em Anfield Road. O nome da partida foi o Christian Benteke, capaz de dois belos gols e uma assistência de calcanhar. Pelo que tem feito, os € 8,8 milhões pagos em sua contratação parecem uma pechincha.
– Na parte inferior da tabela, o grande destaque foi o Queens Park Rangers, que finalmente venceu a primeira. Com apenas uma derrota desde a chegada de Harry Redknapp (para o United, diga-se), os londrinos contaram com uma atuação marcante de Adel Taarabt. A volta à lanterna, no entanto, pode ser confirmada em caso de empate do Reading contra o Arsenal nesta segunda.
– A FA reclamou da punição dada à Federação Sérvia sobre o caso de racismo nas eliminatórias do Campeonato Europeu sub-21. E com toda razão. É inadmissível que, em um caso de tamanha gravidade, uma multa e um jogo de suspensão para a torcida bastem. As medidas tomadas na própria Inglaterra sobre casos do tipo poderiam servir de exemplo.



