A culpa é do Manchester City

Aconteceu de novo. Em pleno Old Trafford, o Manchester City bateu o Manchester United por 2 a 1. Para se ter uma idéia da significância do fato, basta dizer que desde 1969/70 o City não vencia os dois jogos contra os Red Devils em uma temporada.
Mas esses dois resultados têm um significado que vai além do tabu, já que eles podem decidir o título do Campeonato Inglês. A conta é simples: com essas derrotas, o Manchester United deixou escapar seis pontos; hoje, a vantagem do Arsenal é de cinco. Se essa situação se mantiver até o fim, o desempenho contra o City (equipe que os Gunners derrotaram duas vezes) é que terá dado o primeiro lugar ao time de Londres.
A vitória do City neste fim de semana vai ser lembrada por muito tempo pelos torcedores dos dois times. Afinal, tratava-se de uma partida especial, que homenageava os mortos no desastre aéreo de Munique, 50 anos atrás (clique aqui para ler o especial da Trivela sobre esse acidente). Os Red Devils inclusive jogaram com uma camisa retrô muito bacana, igualzinha à dos anos 50, sem patrocinadores e com numeração de 1 a 11. O City também usou uma camisa especial, sem patrocínio.
A ironia é que, durante as últimas semanas, torcedores e dirigentes do United mostraram receio de que os fãs do City presentes no estádio não respeitariam o minuto de silêncio em homenagem aos mortos. Ao que parece, ninguém nem pensou na hipótese de o adversário ganhar o jogo! Aliás, vale dizer que o minuto de silêncio foi impecavelmente respeitado.
E agora, como está a disputa pelo título? Apesar dos cinco pontos de vantagem, ainda não dá para cravar que o Arsenal é favorito. Não é uma diferença tão grande, ainda mais lembrando que os dois primeiros colocados ainda vão se enfrentar mais uma vez, em Old Trafford. É provável que Alex Ferguson acerte sua previsão de que a disputa pelo título só será decidida na última rodada. O técnico do Manchester não apontou nenhum favorito, mas dá para fazer um bom palpite: quem cair fora da Liga dos Campeões primeiro leva a Premier League.
E Chelsea e Liverpool são cartas fora do baralho? Pelo que se viu no último domingo, quando os dois times se enfrentaram num 0 a 0 modorrento, é difícil que o título saia das mãos da dupla Manchester-Arsenal. O Liverpool, aliás, está completamente fora da disputa: com 19 pontos atrás do líder, tem mais é que ficar muito esperto para não ficar de fora da próxima Liga dos Campeões, já que está embolado com Everton, Aston Villa e Manchester City, times que vêm jogando um ótimo futebol nesta temporada.
Já o Chelsea, matematicamente, ainda está no páreo. Afinal, está a apenas oito pontos do líder e ainda tem pela frente jogos em casa contra o United e o Arsenal. Mas, pelo futebol que vem apresentando, não dá para imaginar como possa ficar com algum título que não seja o de uma das duas copas inglesas.
Boa estréia
Não podemos deixar de registrar a aguardada estréia de Fabio Capello no comando da seleção inglesa. Embora o mistão da Suíça não chegue a ser um adversário poderoso, a vitória por 2 a 1 foi um resultado encorajador – não pelo placar em si nem pelo futebol apresentado, mas pelos sinais para o futuro.
Depois de dois anos sem sal no fim da era Eriksson e mais dois anos desastrosos sob o comando de McClaren, o que os ingleses mais queriam eram mudanças. E foi isso o que Capello fez. Para sua primeira partida no comando, o italiano só colocou em campo três jogadores que estiveram na derrota para a Croácia, o último jogo de seu antecessor.
Esse foi o primeiro grande acerto de Capello. O italiano não só percebeu a sede de mudanças do país como também aproveitou um amistoso insignificante para fazer testes (ao contrário de McClaren, que decidia inventar justo nos jogos decisivos). Mesmo assim, o técnico levou a partida muito a sério, pois sabia que uma vitória seria importante para dar moral ao time – e, principalmente, aumentar seu próprio cacife. Por isso, fez poucas substituições ao longo da partida e exigiu bastante dos jogadores.
Aliás, esse é outro sinal encorajador de Capello. Segundo a imprensa inglesa, os bastidores da seleção mudaram bastante sob o comando do italiano. A informalidade exagerada e a liberalidade com relação aos jogadores da era McClaren sumiram. Capello exige que os atletas se tratem pelos sobrenome e compareçam pontualmente a todos os compromissos, incluindo até o café-da-manhã. Tal tipo de exigência só pode ser feita por um técnico muito respeitado pelos atletas – caso de Capello, e não de McClaren.
Já na primeira partida, o italiano tratou de começar a impor um padrão de jogo à equipe. Além de mudar o esquema tático para o 4-1-4-1, ficou clara a preocupação com estabelecer um jogo de passes mais cadenciado, valorizando a posse de bola – algo bem diferente do estilo ‘direto ao ataque’ tradicional dos ingleses. Capello também impôs sua marca na escalação: deixou de fora os figurões que não vêm jogando bem (ou seja, Beckham, Owen e Lampard), mostrando que prioriza mais a forma atual do que a fama. É provável que muitos deles retornem quando começarem os jogos para valer – ou seja, as eliminatórias para a Copa –, mas eles chegarão ao time já sabendo que precisam mostrar futebol para ficar no time.
No geral, o jogo contra a Suíça serviu para aumentar ainda mais a reputação de Fabio Capello na Inglaterra. Como esperado, o italiano mostrou que manja de tática, consegue impor disciplina e não tem medo de fazer as mudanças necessárias. E ainda por cima consegue resultados. Pelo menos por enquanto, os ingleses estão otimistas.
CURTAS
– A Premier League inventou uma idéia que é séria candidata a ser qualificada como a mais bizarra de todos os tempos.
– Os cartolas querem adicionar uma rodada extra ao Campeonato Inglês, que seria disputada no exterior.
– Ou seja, alguns times se enfrentariam três vezes na temporada, que teria 39 rodadas.
– Não precisa dizer que todo mundo esperneou horrores, desde o mais humilde faxineiro até o Primeiro Ministro.
– Pelo menos, a Premier League teve o bom senso de divulgar a idéia ao público antes de colocá-la em prática. Com a reação amplamente negativa de todos os setores (até de alguns países que poderiam receber os jogos extras), é difícil que ela vá adiante.
– Ponto para a Irlanda: depois de negociar com tranqueiras como Terry Venables e Kenny Dalglish, a federação contratou Giovanni Trapattoni para dirigir a seleção do país.
– Certamente, os jogos dos irlandeses vão ser ainda mais modorrentos que o último amistoso contra o Brasil. Mas pode ter certeza que, agora, as chances de a Irlanda chegar à Copa de 2010 aumentaram muito.
– Campeonato Escocês: a 25ª rodada não teve grandes surpresas, com Rangers e Celtic vencendo suas partidas facilmente.
– Aliás, falar em ‘25ª rodada’ é quase uma liberdade poética, já que só cinco times já disputaram 25 jogos (o Motherwell tem só 22!).
– O Rangers mantém a liderança com 56 pontos, quatro a mais que o Celtic. Os outros times já estão longe, muito longe.



