Holanda

Virando a mesa

Ao contrário do que possa parecer, Johan Cruyff tem uma influência menor, hoje, do que já teve no futebol holandês. Apesar de ainda ser uma eminência parda, cada vez mais o “Nummer 14” é visto como alguém cuja visão de futebol ficou anacrônica. E, cada vez mais cansada da incômoda fama de sempre decepcionar na hora da decisão, a Holanda tem fechado um pouco os ouvidos para Cruyff e sua política do “jogar bem sempre, mesmo com derrota”.

No entanto, ao mesmo tempo em que parece querer livrar-se de sua influência pesada, a Holanda continua acompanhando as ideias do maior jogador de sua história. E olha com um pouco de inveja para a Espanha. Principalmente para a Catalunha. Afinal de contas, no Barcelona, onde também foi histórico, Cruyff teve liberdade para impor sua ideia principal: a de que deve haver uma única filosofia de jogo, baseada na coletividade e no ofensivismo, em todas as equipes do clube, da base ao profissional. E que ela deve ser seguida independente dos resultados. Ideário que tem sido aplaudido à exaustão nos últimos anos, com os resultados e as atuações dos Blaugranas.

Porém, ao mesmo tempo em que tornou-se um oráculo barcelonista – e, de certa forma, ditou até o estilo do time que conquistou o título mundial no ano passado -, Cruyff continuou exercendo seu papel de eminência parda também no país natal. Embora tenha seu eixo central de vida em Barcelona e não em Amsterdã, suas colunas semanais no diário “De Telegraaf” são sempre formadoras de opinião. Não por acaso, foram elas que detonaram o processo que o Ajax vive hoje.

Processo esse que, enfim, deverá ter uma participação maior do jogador supremo da história dos Godenzonen. Se, em 2008, na sua primeira tentativa de participar um pouco mais dos rumos do clube onde iniciou-se, Cruyff parou na aversão da diretoria e do então técnico Marco van Basten aos seus planos de reestruturação, agora o jogador começa a se impor decisivamente. A prova veio nesta semana: após discutir sobre como realizar as mudanças no organograma Ajacied, o ex-jogador viu toda a diretoria do clube entregar seus cargos – incluindo aí o presidente Uri Coronel.

Aqui já se disse, mais ou menos, o que ocorreu: logo após a derrota do Ajax para o Real Madrid, na fase de grupos da Liga dos Campeões, Cruyff escreveu uma coluna no “De Telegraaf” dizendo que, além do time haver sido superado facilmente no Santiago Bernabéu, os jogadores precisariam participar mais dos rumos internos. Pedido atendido: nas eleições do Conselho Deliberativo, conseguiram cadeiras ex-atletas do clube, como Aron Winter, Barry Hulshoff, Keje Molenaar e Peter Boeve.

Mas não bastava para Cruyff. Era preciso mais. E ele começou a participar diretamente da reformulação, sendo um dos integrantes de um conselho superior do clube, sendo bem recepcionado por Uri Coronel e pelo diretor geral, Rik van den Boog. E, finalmente, o “Pitágoras de Chuteiras” começou a abrir o jogo. Sugeriu que a reformulação técnica do clube fosse comandada por um triunvirato, formado também por ex-jogadores: a saber, o atual técnico dos profissionais, Frank de Boer, Dennis Bergkamp (treinador da equipe A1 do Ajax) e Wim Jonk. Assim, o diretor técnico atual, Danny Blind, seria realocado, no novo organograma. A diretoria foi contra.

Bastou para que os ex-jogadores fossem totalmente contrários. A começar, claro, pelo principal catalisador disso tudo, que tachou a decisão da diretoria de “inconcebível, inaceitável e incompreensível. Se preciso, a diretoria e o conselho deverão ser substituídos”. Bergkamp foi pelo mesmo caminho: “Estou chocado. Nós arriscamos nossos pescoços pelo Ajax, porque queremos alcançar algo para o clube.” E o problema durou até a última quarta, quando veio o anúncio: a diretoria sairia, querendo “dar espaço para o impasse se resolver” Sem contar a pressão que seria ir de encontro às opiniões do principal atleta que o Ajax já teve, como Uri Coronel afirmou: “Johan Cruyff não é mais um. Aqui, ele é um semideus, ou talvez um deus completo.”

Cruyff se disse surpreso com a decisão. No entanto, é óbvio que a saída de toda a diretoria atual (que fica apenas até a escolha dos substitutos) foi um alívio para o ex-jogador. Afinal de contas, ele sempre se notabilizou por ter opiniões fortes, temperamento altamente sensível e pelo desejo de fazer as coisas sempre do seu jeito. E, agora, poderá fazer isso no Ajax. Se dará tão certo quanto deu no Barcelona, difícil dizer (e difícil acreditar que sim, diga-se de passagem). Mas será interessante ver.

Mais possível do que nunca

Já se vê, há algum tempo, que a seleção da Bélgica está de ânimo totalmente renovado. O time apático e desunido dos últimos anos deu lugar a uma equipe esforçada, com alguns lampejos de habilidade. Mesmo assim, parecia que a tarefa de conseguir uma vaga na Euro 2012 era ingrata: ter de superar Alemanha e Turquia, no Grupo A. Pois, pelo visto, os comandados de Georges Leekens estão querendo protagonizar uma ótima surpresa.

Com a nova geração (Defour, Vertonghen, Witsel) sendo aliada às novidades (Ogunjimi, Vossen, Chadli, Mignolet), os Diabos Vermelhos estão tendo ótimas atuações. Provaram isso no 2 a 0 contra a Áustria, e no 4 a 1 contra o Azerbaijão. Resultados que levaram a equipe ao segundo lugar da chave na qualificação, superando a Turquia no saldo de gols.

E que motivam as alegres frases de Leekens; “Quem pensava que isso estaria acontecendo, há seis meses atrás? As pessoas nas ruas estão muito orgulhosas de sua terra.” Um pouco de exagero, é verdade. Mas há razões para otimismo. E para crer que a Bélgica possa conseguir uma vaga na repescagem. E continuar sonhando com o retorno a uma Euro, após 12 anos. É mais possível do que nunca, agora.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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