Vexame contornado em Viena

Nem no seu desejo mais delirante, a seleção austríaca devia pensar poder bater a Holanda por uma diferença de três gols no amistoso entre os dois países ocorrido na semana passada. Só que quem olhasse para o placar do estádio Ernst Happel na última quarta-feira, depois de 45 minutos de jogo, veria o escore Áustria 3 x 0 Holanda.
No vestiário, o técnico Marco van Basten deve ter sentido a corda no seu pescoço. Seria a pior derrota da sua gestão. Nem tanto pelo placar, mas pelo fato da Áustria, uma das anfitriãs da próxima Eurocopa, ser considerada a pior equipe a participar do torneio – e ainda assim, só porque teve a vaga garantida por sediar a competição.
A Holanda jamais tinha revertido um 3 a 0 em seus 103 anos de seleção. Van Basten (que já anunciou sua saída da ‘Oranje’ para depois da Euro) provavelmente não estava preocupado com o emprego, já que está acertado com o Ajax, mas devia imaginar que o resultado definitivamente colocaria sua liderança em questão em uma sempre conturbada seleção. Arjen Robben, do Real Madrid, (que ficou irritadíssimo com a não-convocação) deve ter dado um sorrisinho irônico quando os austríacos fizeram o terceiro gol.
O 4 a 3 que a Holanda arrancou em Viena não foi só uma reação fantástica. Além de fortalecer a moral do grupo rumo à Euro e provar que tem bagagem para estar sentado no banco, o ex-atacante também chegou à sua 30a vitória em 45 jogos – marca que nem o lendário Rinus Michels tinha conseguido (levou 53 partidas).
Marco Van Basten tem jogadores de talento suficientes para uma grande seleção, mas até agora, não conseguiu um futebol convincente. O segundo tempo do Ernst Happel pode ser a injeção de ânimo necessária que o grupo precisa.
Mudanças
O 4-3-3 inicial tinha a seguinte escalação: Henk Timmer, Ooijer, Heitinga, Mathijsen, De Cler; Demy de Zeeuw, Van Bronckhorst, Van der Vaart, Van Persie, Huntelaar, Sneijder. Foi um desastre. Mathijsen na zaga central não deu a sustentação necessária e De Zeeuw mostrou-se ineficiente na marcação e na armação.
No vestiário, van Basten fez duas mudanças que fizeram toda a diferença: Bouma na zaga central com Heitinga (saindo Mathijssen) e Seedorf no meio-campo no lugar de De Zeeuw. O milanista, ao lado de van Bronckhorst e van der Vaart impuseram o ritmo que o trio de ataque precisava. E os gols vieram.
Desde o início de sua gestão, van Basten sempre forçou a mão em escalações que seguiam a linha de raciocínio do futebol holandês, com laterais na zaga, pontas como volantes e atacantes de mobilidade. A formação do segundo tempo contra a Áustria é exatamente o oposto disso: uma defesa toda feita por “especialistas”, um meio-campo com três armadores e um trio ofensivo com um centroavante (Huntelaar) e dois pontas (van Persie e Sneijder).
As críticas de Robben a van Basten podem custar caro a ele (especialmente porque não faltam atacantes habilidosos no grupo, como Ryan Babel, Huntelaar, Danny Koevermans e Kuyt, além dos meio-campistas que chegam no fundo como Sneijder e van Persie.
Mesmo com o mal-humor da imprensa holandesa (que criticou fortemente o técnico), o resultado deixa a Holanda com saúde para chegar à Euro. Com o time atual e eventualmente o acréscimo de van Nistelrooy, é possível sim uma performance de protagonista para a ‘Oranje’.



