Holanda

Velhos problemas

Quando chegou ao Feyenoord, na preparação para a temporada 2009/10, o técnico Mario Been parecia ter carta branca para tentar salvar a situação do Stadionclub. A tal ponto que, no dia de abertura da temporada para o clube (quando o Feyenoord organiza uma recepção especial aos jogadores contratados, realiza eventos ao redor do De Kuip e tudo o mais), não era raro ver camisetas com a efígie de Been retratada como a famosa foto de Che Guevara feita por Alberto Korda, com as inscrições “O Salvador”.

Não era segredo que Been talvez inserisse mais ânimo no elenco. Afinal de contas, como declarado torcedor do clube mais famoso de Roterdã, ele certamente faria de tudo para dar uma satisfação à Het Legioen, talvez a torcida mais fanática (no bom e no mau sentido) da Holanda. E conseguiu: dando respaldo a alguns novatos, e conseguindo diminuir o espaço de veteranos que já não rendiam mais tanto, como Makaay e Landzaat, Been levou o Feyenoord a um elogiável quarto lugar na Eredivisie. Tudo fazia crer que, enfim, o integrante mais opaco do Trio de Ferro, nos últimos tempos, iria começar a fazer campanhas mais dignas.

Nove rodadas da Eredivisie 2010/11 depois, o cenário é: Feyenoord na 14ª posição, com apenas oito pontos conquistados. O time não sabe o que é uma vitória há cinco rodadas, desde que aplicou 4 a 0 no Vitesse, no quarto giro. Afinal, o que mudou de lá para cá? Por que o time que parecia ter tudo para, pelo menos, manter-se perto dos líderes está fazendo uma campanha tão ruim no Campeonato Holandês?

A rigor, a razão é a mesma pela qual a equipe era vitimada em campanhas anteriores: a crise financeira profunda pela qual passa o clube. De nada adianta Mario Been estar no Feyenoord, se o clube continua sem muito dinheiro para contratar. As únicas vindas em definitivo para o elenco foram de Adil Auassar e Ruben Schaken, que foram bem no VVV, na última temporada. As restantes, ou foram por empréstimo (casos de Michael Lumb e Fedor Smolov) ou vieram do clube-satélite Excelsior (Kamohelo Mokotjo). E o clube continua sem dinheiro. A tal ponto que, sem ser utilizado, Lumb deve voltar ao Zenit.

Sem dinheiro, Mario Been acaba tendo de escalar um time formado predominantemente por jovens. O que poderia ser até saudável, se alguns veteranos fossem colocados em setores estratégicos, para acalmar a equipe – e também se eles estivessem rendendo bem. O único caso assim era Van Bronckhorst, que se aposentou. Havia ainda Makaay, também de carreira encerrada. E Landzaat, que não teve o contrato renovado e achou guarida no Twente. Com a saída dos veteranos, a garotada teve de se virar sozinha. Ou melhor, com dois “tios”: Tim de Cler, de 31 anos, e o veteraníssimo Rob van Dijk, de 41.

Exemplo disso se via no clássico contra o Ajax, no qual seis dos onze titulares tinham 20 anos, ou menos (na lateral-direita, Stefan de Vrij; no meio, Leroy Fer, Kelvin Leerdam e Georginio Wijnaldum; no ataque, Luc Castaignos e Smolov). Pior: ainda que transpirem garra – e até algum talento, no caso de Fer, Wijnaldum e Castaignos -, os novatos ainda não conseguiram tomar o papel de protagonistas da equipe. E os reservas mais usados continuam na mesma linha: o sul-africano Mokotjo, meia, tem 19 anos, mesma idade de Ricky van Haaren (lateral-direito) e Jerson Cabral (atacante). E o lateral Bruno Martins Indi, português, tem 18.

Com isso, falta até calma para conseguirem resolver algumas partidas e para sair de situações de risco. Com tanta gente nova sendo jogada aos leões, não é raro ver-se ocasiões como o NEC aplicando 3 a 0, ou o empate com o De Graafschap. E, mesmo quando a equipe joga bem e cria chances para vencer, como na última rodada, contra o Twente, acaba sendo golpeada por um gol – no caso, exatamente de um ex-Feyenoorder, Landzaat, que definiu o jogo.

O único consolo, para este time, é que, ao contrário de outros, sobra vontade. E não é necessário muito mais para que a Het Legioen, admiradora dos atletas com muita disposição, abrace os garotos. Por isso, a esperança de tempos melhores continua, como se vê em declarações como esta, de Leroy Fer: “Sei que, se permanecermos jogando como contra o Twente, os resultados virão.” Seria bom se isso começasse nesta 10ª rodada, exatamente contra o líder PSV. 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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