Vai ser assim

“Nós gostamos de jogar do jeito que o Barcelona joga. Só eles fazem isso melhor do que nós. Aliás, na Espanha, eles têm a melhor seleção. Quando você vê o Barcelona jogando, é muito criativo. Mas o que você vê ali, ou na Espanha, ou, espero, na Holanda, tem a ver com o momento em que se perde a bola. Então, como um time, você vê o Barcelona exercer presão para tomar a posse de bola o mais rápido possível.”
Quem disse estas palavras foi Bert van Marwijk, em entrevista à revista “World Soccer”, no guia da Copa do Mundo produzido pela publicação com base na Inglaterra. Lendo-as hoje, com dois jogos da Holanda já realizados na Copa do Mundo, dá para se acrescentar um “por incrível que pareça”, na frase inicial deste parágrafo. Afinal de contas, a Holanda está se notabilizando por jogar um futebol pragmático. Absolutamente exato. Como, talvez, nunca tenha feito em momento nenhum da sua história.
Claro, não é uma mudança que ocorreu da noite para o dia. Já se notavam traços dela na Euro 2008: ao contrário do que muitos falam, o time de Marco van Basten não sufocava o adversário como a equipe de 1974, mas valia-se de um contra-ataque rapidíssimo e letal para derrotar seus adversários. Exatamente o oposto do que o ideário do Futebol Total prevê.
E é isso que a Oranje exibiu em sua segunda partida, contra o Japão. Não chegou a esquecer completamente sua característica de toque de bola: teve 61 por cento da posse dela contra a equipe de Takeshi Okada. No entanto, assim como contra a Dinamarca, raramente tentou dar movimentação a ela. Preferiu se conter, esperar por um lampejo de habilidade de um dos principais jogadores.
E ele veio, num chute de Wesley Sneijder que contou com a ajuda do goleiro nipônico, Kawashima, e da tão falada bola. E o time conseguiu a vantagem que esperava desde o primeiro tempo, quando tentou entrar na boa defesa japonesa – sem êxito, até pela ótima atuação de gente como Marcus Tulio Tanaka. Além disso, novamente, houve a versão holandesa do “drama de Lampard e Gerrard”: armadores de ofício, Sneijder e Van der Vaart novamente colidiram em suas funções, tornando o desenvolvimento das jogadas holandesas bastante truncado.
Este foi o defeito holandês anterior ao gol: o de demonstrar, mais uma vez, não saber desenvolver o estilo primordial de jogo contra defesas fortes. Mesmo assim, um defeito minimizado, pela principal característica positiva que o pragmatismo trouxe à Holanda: o de saber, pelo menos, procurar alternativas quando o jogo é difícil. Coisa que, por exemplo, a Espanha não soube fazer contra a Suíça.
Porém, a falha após o 1 a 0 é que necessita de correção para os jogos que estão por vir. Ao invés da eficiência vista contra a Dinamarca – quando pode até não ter jogado, mas também não deixou o time de Morten Olsen trazer grande perigo -, o que se viu em Durban foi um time sufocado na defesa, sem transmitir a menor segurança de que sairia de campo com a vitória. E ainda perdendo chances de matar o jogo no contra-ataque, como as duas com Afellay, nos instantes finais.
Mas a vitória está aí. Por obra da Dinamarca, a classificação para as oitavas de final também foi assegurada. Se Van Marwijk ainda parece compreender as críticas pela falta de ofensividade vista, Sneijder prefere rezar pela cartilha… pragmática (“Vencemos os dois primeiros jogos. Não importa como jogamos”). É assim que a Holanda aposta que conseguirá, enfim, o que tanto busca: o título mundial. Mas, a continuar assim, os torcedores que esperam por um futebol ofensivo deverão procurar outra equipe. E, uma hora, esse pragmatismo falho pode encontrar um rival que aproveite as chances e acabe com o sonho. Mais uma vez.



