Holanda

Utrecht: o “melhor do resto” pode ser o fiel da balança

Ajax, PSV e Feyenoord, como em 2012/13. Ou Ajax, Feyenoord e PSV, como em 2011/12 e 2013/14. Ou PSV, Ajax e Feyenoord, como na temporada passada. Ou Feyenoord, Ajax e PSV, como na atual temporada do Campeonato Holandês. A ordem dos fatores até altera um pouco o produto, mas como qualquer acompanhante mediano de futebol sabe, os três grandes holandeses voltaram a monopolizar a disputa do título há alguns anos, depois de um período de brusca queda do Feyenoord (e de ascensão para AZ – esta, sustentável – e Twente – esta, artificial). A todos os outros 15 participantes da Eredivisie, resta buscar ser o que os holandeses – e vários outros países – chamam de “best of the rest”. Em bom inglês, “o melhor do resto”.

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A cinco rodadas do fim da temporada regular, sabe-se que o título é assunto para Feyenoord e Ajax discutirem (ainda mais depois das goleadas que ambos deram na 29ª rodada deste meio de semana), e que dificilmente o PSV perderá a terceira posição. Sendo assim, resta a disputa pelo posto de “melhor do resto”. E em poucas temporadas o ocupante da quarta posição da tabela do Holandês foi tão merecedor. Se muita gente elogia quando um clube aposta firmemente no trabalho de um técnico e consegue campanhas regulares, apostando na continuidade de um grupo, o Utrecht preenche à perfeição essas duas características.

Além de terem uma das torcidas mais fanáticas do país, para o bem e para o mal – situada normalmente atrás de um dos gols do estádio Galgenwaard, a Bunnikside é respeitada pelo que pode fazer nas arquibancadas e nas brigas -, os Utregs também têm o saudável hábito de ser um clube com ambiente sob medida para o desenvolvimento de bons jogadores. Com a torcida compreendendo o status de “médio perfeito” (o clube dificilmente será campeão, mas fica constantemente numa parte segura da tabela), a pressão já é menor, e é possível para gente que chega lá usar o clube como catapulta para cenários mais nobres. Que o diga Dries Mertens, que só é um dos destaques do Campeonato Italiano, revelando inesperado talento para balançar as redes no Napoli, porque chamou atenção nos dois anos que passou no Utrecht, entre 2009 e 2011 – indo de lá para o PSV, e aí a história ficou mais conhecida.

Essa “falta de pressão” também foi usada a favor do clube quando a diretoria colocou todas as fichas na contratação de Erik ten Hag, para treinar a equipe a partir da temporada 2015/16. Era geral o descontentamento com o trabalho e o estilo tático do antecessor Rob Alflen, e sua saída também representou o ponto final do curto trabalho de Co Adriaanse como conselheiro técnico. Para marcar a mudança, Wilco van Schaik, presidente do clube, arriscou trazendo Ten Hag da equipe B do Bayern Munique – como a coluna já até comentou, há pouco mais de um ano.

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De lá para cá, Ten Hag se notabilizou por ser um dos técnicos holandeses mais modernos dos últimos tempos. No país do 4-3-3 com dois pontas ofensivos, o treinador do Utrecht experimentou vários esquemas, de acordo com o que tinha em mãos, até cair num 4-4-2 em losango. Acertou na mosca exatamente por isso: saiu da “camisa-de-força” tática e foi humilde para ajustar seu estilo aos jogadores que tem em mãos. E já dera relativamente certo na temporada passada: terminando em 6º lugar ao final das 34 rodadas, a equipe foi aos play-offs por uma vaga na Liga Europa. Só aí veio uma decepção: a perda da vaga para o Heracles Almelo, com uma derrota por 1 a 0 em casa na decisão. Assim como foi triste a derrota na final da Copa da Holanda, para o Feyenoord, frustrando o que poderia ter sido o primeiro título do clube desde 2003/04.

O começo da temporada atual foi até mais preocupante: sem vitórias nas seis primeiras rodadas da Eredivisie (três empates e três derrotas – entre as quais, um 5 a 1 para o Groningen em pleno Galgenwaard). Tudo bem: não se cogitou demissão, o trabalho continuou. E aos poucos, o Utrecht foi evoluindo. Conseguiu uma sequência positiva – dez jogos sem perder, com seis vitórias e quatro empates – justamente na virada para o returno, período em que outros candidatos a “melhor do resto”, como AZ e Heerenveen, fraquejaram. Até houve uma eliminação inesperada na Copa da Holanda (pegou mal cair para o Cambuur, da segunda divisão, nas quartas de final). Ainda assim, a regularidade na liga levou à quarta posição atual, da qual ninguém reclama.

E não reclamam pelo que se vê em campo: uma equipe entrosada, com a base vinda desde a temporada passada. Na defesa, há uma boa dupla de zagueiros: Mark van der Maarel é o grande líder do grupo, enquanto Willem Janssen (volante recuado) traz experiência. E se o goleiro Robbin Ruiter foi vitimado por uma grave concussão cerebral, da qual só agora se recuperou, o reserva David Jensen segura bem o rojão. No meio-campo, não bastasse o crescimento de Sofyan Amrabat como volante, a inteligente contratação de Wout Brama trouxe mais cadência ao setor. Enquanto isso, Nacer Barazite e Yassin Ayoub, já muito bons na temporada passada, seguiram sendo pontas-de-lança valiosos no “losango”, ajudando tanto na criação quanto na finalização.

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Finalmente, no ataque, Richairo Zivkovic e Gyrano Kerk disputam a posição de parceiro para Sébastien Haller. Este dispensa apresentações: o francês, mais uma vez, faz temporada elogiável. Já tem 13 gols no campeonato – o último deles, no 2 a 1 sobre o Excelsior, tornou “Séb” simplesmente o maior goleador estrangeiro da história do Utrecht na Eredivisie. São 41 gols, um acima do belga Stefaan Tanghe. Pode-se dizer: já demora a transferência para o exterior que Haller tanto quer e merece. Tanto que a crise do começo da Eredivisie é atribuída ao desânimo do atacante, por ver frustrada uma negociação.

De quebra, o Utrecht pode bater no peito e dizer que foi adversário duro para o trio de grandes da Holanda. Contra o Ajax, vendeu caro as derrotas (no turno, em Amsterdã, abriu o placar antes de levar a virada para 3 a 2; no returno, só foi vencido por 1 a 0, graças a um golaço de Lasse Schöne, em chute preciso no ângulo aos 38 do 2º tempo). Contra o PSV, na partida de estreia nesta temporada, também fez 1 a 0 e tomou a virada (2 a 1), enquanto o returno rendeu um triunfo mais sossegado dos Boeren (3 a 0). O Feyenoord até pode dizer que teve sorte contra os Utregs: no primeiro turno, perdia por 3 a 1 até os acréscimos, quando Nicolai Jorgensen e Michiel Kramer conseguiram um milagroso empate para o líder da competição.

E agora, que só três pontos separam Feyenoord de Ajax na disputa do título, o Utrecht pode ser um “fiel da balança”, uma casca de banana no caminho do Stadionclub rumo ao fim do jejum. Por mais que a partida da 32ª rodada, no domingo de Páscoa, vá ser em De Kuip, a equipe sonha se consolidar como a melhor do resto, como apregoou Willem Janssen: “Se terminarmos logo atrás dos três grandes, já nos servirá como um título. Teremos mostrado uma performance fantástica, além de darmos mais dinheiro ao clube, pelo ranking de desempenhos para a tevê. E pelos play-offs para a Liga Europa, poderemos dar o próximo passo”. Se há um clube médio pronto para esse próximo passo na Holanda, é o Utrecht.

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