Um exemplo

Não se pode dizer que 2009 terminou como um ano completamente perdido para o futebol belga. Afinal de contas, Dick Advocaat assumiu a seleção impondo respeito, e a própria geração de jogadores conta com gente de talento, como Vermaelen e Fellaini. No entanto, a situação interna continuou no mesmo diapasão decepcionante em que vem, há alguns anos.
A última prova veio ainda antes de que 2010 começasse. É verdade que o Excelsior Mouscron já era ameaçado pela falência há muito tempo – tanto é que, já na temporada passada, havia vendido jogadores que vinham se destacando pelo clube (como Adnan Custovic, hoje no Gent), e o clube já estava sendo comandado por dois interventores, André-Marie Verplaetse e Geert de Mets.
Todavia, as discussões entre clube e prefeitura de Mouscron continuaram – bem como a dívida, que chegou a € 12 milhões de euros. A cada momento, a crise parecia aumentar ainda mais: chegou a ser descoberta uma fraude, no pagamento de impostos, que forçaria o pagamento de uma dívida, no valor de € 1,6 milhão. Descobriu-se que Philippe Dufermont, o antigo presidente do clube, ainda não ocupava o cargo quando as dívidas foram feitas. Mas era só mais uma gota, no oceano de problemas que vitimava os Hurlus.
Até que, sem salários, os jogadores do Excelsior negaram-se a jogar a partida contra o Cercle Brugge, pela 19ª rodada. No jogo seguinte, contra o Kortrijk, os interventores anunciaram que os aspirantes ajudariam a formar elenco suficiente para a partida. Porém, a Sporta, federação belga de atletas profissionais, proibiu a medida, e os profissionais negaram-se a jogar em solidariedade. Mais um WO.
No domingo, 27 de dezembro, o holandês Hans Galjé, treinador da equipe, até dizia que o clube se esforçaria para estar em condições de jogo na 21ª rodada, contra o Westerlo. Mas, na segunda, no início da tarde, Geert de Mets e André-Marie Verplaetse anunciaram que não haveria condições. O regulamento era claro: com três desistências em jogos da Jupiler League, o clube em questão estava desistindo em definitivo do campeonato. E foi o que aconteceu: o Excelsior foi excluído, e os jogadores estavam livres para procurarem outro clube.
Mas, antes disso, já houvera a campanha decepcionante nas Eliminatórias para a Copa de 2010. A equipe que pareceu promissora, especialmente após vender caríssimo a derrota para a Espanha, em Bruxelas, ficou bastante distante da sonhada volta para o Mundial após duas derrotas para a Bósnia – que colocaram ponto final na permanência de Rene Vandereycken no cargo de técnico.
Ficaria, então, a cargo do auxiliar Franky Vercauteren a tarefa de levar a seleção, de modo melancólico, nas últimas rodadas das Eliminatórias. Mas foi ainda pior, com a goleada sofrida para a Espanha e a derrota para a Armênia, resultados que tornaram impossível a classificação para a Copa de 2010 – e também adiantaram a já acertada vinda de Dick Advocaat.
E os clubes?
Com relação a clubes, o Standard até começou melhor em 2009. Todavia, aos poucos, o Anderlecht foi melhorando, até conseguir tomar a liderança da Jupiler League 2008/09. Teve início uma eletrizante briga pelo título entre ambos – coroada com os dois jogos-desempate, já que Rouches e Mauves terminaram empatados ao final das 34 rodadas. Aí, o time de Laszlo Bölöni conseguiu diminuir os problemas que vitimaram-no durante todo o segundo turno, indo rumo ao bicampeonato.
Mas o início da atual edição da liga mostrou um Anderlecht muito melhor e mais centrado – até pela participação do Standard na Liga dos Campeões. Porém, os Paars-wit sofreram um duro baque, com as graves lesões de Wasilewski e Polak. No entanto, a equipe de Ariël Jacobs conseguiu se reerguer, e manteve a liderança, dependendo dos gols de Romelu Lukaku, promessa que quer virar uma realidade. Mesmo assim, Club Brugge e Gent aparecem como possíveis rivais à conquista que escapa do time do Constant Vanden Stock desde a temporada 2006-07.
O Standard teve uma participação digna na Liga dos Campeões. Chegou até mesmo a sonhar mais com uma eventual classificação do que o AZ. Não conseguiu, mas mereceu a classificação para a Liga Europa – e até tem possibilidades de classificação, contra o Red Bull Salzburg.
E assim seguiu o futebol belga em 2009. Num cenário de desorganização interna, que influi nos feitos externos – algo visto até pelo formato pouco razoável do campeonato. Mas com esperanças de reerguer-se, um dia.



