Um déja vu

“Foi, naturalmente, um final de semana maravilhoso. Se eu puder repetir aquele cenário, faria igual.” Frank de Boer falou tudo isso após a vitória do Ajax sobre o RKC, por 3 a 0, há quase três semanas, na 25ª rodada do Campeonato Holandês. O ex-jogador referia-se à possibilidade que se abriu com a vitória sobre os Católicos: o clube de Amsterdã repetir a história da temporada 2010/11. Aparentemente fora da disputa do título, os Ajacieden ganharam impulso, passaram PSV e Twente, e coroaram uma ascensão irresistível (venceram os últimos seis jogos) para conquistar a Eredivisie, acabando com um jejum de sete anos.
Pois a fase atual é muito semelhante. Após um reinício de campeonato preocupante, a equipe comandada por Frank já acumula sete triunfos na liga nacional deste ano. Some-se tal sequência ao equilíbrio altíssimo que o Holandês vive em 2011/12 – para se ter uma ideia, nunca, em tempo algum, a diferença entre o primeiro e o sexto colocado do campeonato foi de apenas cinco pontos.
O resultado é ver os Godenzonen, que chegaram a estar na sexta posição, ficarem a apenas um ponto do líder AZ. E tendo uma sequência aparentemente mais fácil, a sete jogos do final: enquanto o Ajax tem apenas Twente e Heerenveen como adversários duros, os Alkmaarders pegam Twente, PSV e Feyenoord. E não é só: a situação atual do time da estação Bijlmer Arena é comparável à de um ano atrás também pelo estilo que a equipe apresenta.
Soluções bastante improvisadas, por exemplo, vão funcionando bem no time de De Boer. Lesionado desde a intertemporada no Brasil, Van der Wiel deu lugar a Ricardo van Rhijn. O jovem de 20 anos, então, foi colocado na lateral direita. Teve algumas atuações bem preocupantes – por exemplo, contra o Utrecht, na última derrota Ajacied pela Eredivisie (2 a 0). Ainda é bem tímido no ataque, ficando mais na marcação. No entanto, vai ficando e se acostumando, enquanto só agora Van der Wiel volta aos gramados.
Ou, então, no ataque. Sulejmani lesionou o joelho, e está fora da temporada. Como jogar no 4-4-2 seria arrumar problemas à toa com a torcida e um certo Johan Cruyff, era necessário arrumar alguém para fazer o trio com Siem de Jong e Ebecilio. Derk Boerrigter também estava lesionado. Lodeiro, que causou boa impressão na parada de final de ano pelo bom desempenho nos treinos, entrou e foi bem discreto. Foi, então, a vez de Aras Özbiliz. E, embora ainda tenha algo a aprender, o armênio nascido na Holanda conseguiu tapar o buraco. Sem contar eventuais chances dadas a Jody Lukoki – autor de belo gol contra o ADO Den Haag.
É inevitável, também, dizer que a calmaria institucional no clube ajuda a minorar as tensões vividas. Agora, Johan Cruyff tem o poder que queria dentro do clube que o levou ao estrelato. Pode dedicar suas colunas semanais no diário “De Telegraaf” às análises diárias. E, enquanto procura alguém que possa servir como diretor técnico no clube (fala-se em Marc Overmars ou Edwin van der Sar), a preocupação pode ficar mais no que ocorre dentro das quatro linhas.
E, finalmente, a importância de determinados jogadores. Alvo de alguma insegurança após a saída de Stekelenburg, Kenneth Vermeer vai saindo a contento: faz bem o trabalho com bola nos pés, e aprende aos poucos a ser mais calmo debaixo das traves. No meio, embora ainda não seja o dínamo da equipe, Eriksen é o principal armador. Siem de Jong dá a técnica necessária. E Jan Vertonghen, bem, este começa a viver a situação que outros jogadores Ajacieden viveram: fica grande demais para a Eredivisie. Sua habilidade na saída de bola e a segurança nos desarmes já o fazem um dos zagueiros mais cobiçados na próxima janela europeia de transferências.
E do (quase) nada, fez-se a luz para o Ajax. Novamente. É quase um déja vu.



