Holanda

De volta à seleção holandesa, Van Gaal já deixou sua marca

Em 15 de agosto de 2012, Louis van Gaal reestreou pela seleção holandesa com alguns desafios, que iam além do amistoso contra a Bélgica, em Bruxelas. O técnico tinha de reorganizar o espírito de uma equipe alquebrada pela participação vexaminosa na Euro. Tinha de renovar parte do elenco, já que alguns personagens fundamentais dos últimos anos (Van Persie, Huntelaar, Van der Vaart) entrariam na faixa dos 30 anos – e alguns, como Van Bommel, já não estariam mais à disposição. Tinha de trazer de volta um estilo mais ofensivo do que o pragmatismo polêmico visto sob Bert van Marwijk. Enfim, Louis tinha todos esses desafios, além do campo.

Nesta sexta, completam-se exatamente 366 dias da derrota por 4 a 2 para os belgas. E outra data Fifa marcou o primeiro ano da segunda passagem do técnico pela Oranje. Apesar de ter sido bastante mediano, com poucos momentos de emoção, o 1 a 1 contra Portugal revelou algo já visto durante o ano que passou, tanto nos outros amistosos quanto nas eliminatórias para a Copa de 2014: sim, Van Gaal conseguiu êxito em boa parte das coisas que tinha para fazer.

E um bom exemplo disso está na equipe que foi a campo em Faro para enfrentar a seleção das quinas. Pode-se dizer, sem medo de errar, que boa parte dela jogará também as próximas partidas das eliminatórias, em setembro, contra Estônia (dia 6) e Andorra (dia 10) – que muito provavelmente ratificarão a presença holandesa na Copa. E que vários dos jogadores que aí estão viajarão para o Brasil, na metade do próximo ano.

Apesar de continuar instável, a defesa está relativamente definida. No miolo de zaga, o Feyenoord tomou conta: De Vrij e Martins Indi são os donos da titularidade. E é justo: apenas razoável tecnicamente, De Vrij não é de firulas, e se firmou ainda mais com o bom Europeu sub-21 que fez. Martins Indi caiu um pouco em comparação com a temporada passada, mas ainda tem margem de evolução, além de ser inegavelmente melhor nos avanços ao ataque.

Na lateral esquerda, a coisa também parece mais bem definida do que estava. Aproveitando a indolência de Jetro Willems em 2012/13, Daley Blind tomou conta da lateral esquerda. Mais focado, mais experiente, sabendo dosar apoio e marcação, o jogador do Ajax não demorou muito para dominar o posto, aproveitando também as contusões que infelicitaram Erik Pieters.

No meio-campo e no ataque, também há cada vez menos questionamentos. Embora ainda possa mudar do 4-3-3 velho de guerra para um 4-2-3-1, conforme a necessidade do jogo, Van Gaal colocou por terra o esquema de proteger a zaga com uma dupla de volantes, comum sob Van Marwijk. Claro, isso sobrecarrega a linha de quatro defensores. Mas no amistoso contra Portugal, a defesa aguentou bem a pressão dos Tugas durante o segundo tempo – levou o gol de empate apenas numa jogada de bola parada, e no final do jogo.

Na dupla de volantes, um nome já é certo. Kevin Strootman sabe marcar bem, e inicia a saída de bola com eficiência. Capitão da seleção sub-21 no Europeu da categoria, é nome certo para 2014, salvo acidentes. Como parceiro, ainda há várias possibilidades, mas Jonathan de Guzman conseguiu despontar há algum tempo, como um dos destaques no Swansea. O papel de principal armador não chega a ser uma grande polêmica, mas precisa de uma resolução. Quanto aos nomes, não há dúvida: Sneijder ou Van der Vaart (Adam Maher certamente é o reserva deles, mas ainda lhe falta a cancha necessária para ser o titular).

Em condições normais, o meio-campista do Galatasaray seria o camisa 10, mas Van Gaal anda seriamente desconfiado de sua motivação. Ao deixá-lo de fora da convocação para o amistoso da quarta passada, foi enfático: “Primeiro, ele precisa ficar em forma. Precisa ter isso em mente”. Após o amistoso, novamente deu um puxão de orelhas: “Espero que ele tenha visto esse jogo, mas não preciso falar nada para ele. Já fiz isso em junho. Se ele entrar em forma, provavelmente terá de estar no time”. Enquanto isso, Van der Vaart vai seguindo entre os titulares.

No ataque, os protagonistas começam a atingir um estágio bastante auspicioso. Embora esteja longe de ser brilhante com a camisa da seleção, Van Persie anda demonstrando mais vontade, o que já basta para deixá-lo no meio do trio de atacantes, superando Huntelaar. Pela direita, a disputa promete ser boa: Robben voltou a estar motivado e a ser mais confiável, mas não é o chamado titular absoluto. Uma falha dele bastaria para colocar nomes como o de Ruben Schaken novamente na disputa. Curiosamente, quem mais parece certo entre os titulares é Jeremain Lens, que continua indo bem pela Oranje, tendo sido um dos destaques contra Portugal.

As indefinições começam na lateral direita: Van Rhijn e Janmaat disputam a posição cabeça a cabeça, mas o defeito de um é a qualidade de outro: escolher um deles significa perder em apoio ou marcação. Isso possibilita experiências como a feita por Van Gaal contra Portugal, convocando e escalando Paul Verhaegh, de 28 anos, do Augsburg-ALE, que só jogara pela seleção sub-21 campeã europeia em 2006. E ainda há a possibilidade de Van der Wiel, embora este ainda precise crescer mais no Paris Saint-Germain, onde anda discreto.

Por fim, há a grande pergunta que Van Gaal ainda não respondeu: quem será o goleiro? Stekelenburg dependerá de suas atuações no Fulham, após o fracasso retumbante na Roma. Krul ainda tem boas possibilidades, mas alguns contratempos no Newcastle, como contusões, perturbam o seu caminho. Sendo assim, há Michel Vorm, já com alguma experiência na Oranje (era reserva na Copa de 2010 e na Euro 2012) e bem no Swansea. Ou Kenneth Vermeer, que tem qualidade no jogo com os pés. Mas nenhum deles traz segurança total à torcida. Isso, sem contar algumas apostas, como Jasper Cillessen ou Jeroen Zoet. É uma questão séria, que precisa ser resolvida até 2014.

De todo modo, são apenas duas posições num time de onze jogadores. Se não há certeza sobre o titular nas outras nove, há certezas dos nomes a serem utilizados. De mais a mais, a Holanda já mostra um espírito altivo: não perdeu os últimos amistosos contra equipes grandes (mas também não ganhou – 1 a 1 contra Itália e Portugal, 0 a 0 contra a Alemanha). Apresenta um estilo inegavelmente mais ofensivo, o que agrada mais à torcida holandesa. Está com a classificação à Copa bem encaminhada. E renovou a maioria de seus jogadores. Um ano depois de seu retorno, Van Gaal pode descansar: cumpriu a maioria de suas tarefas. Fazer boa campanha? Aí já não depende dele.

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