Tenha juízo
Ficar por cinco partidas sem vencer logo no início de um ano não é a melhor maneira de começá-lo. O Twente já sabia disso na última rodada do Campeonato Holandês, quando entrou em campo para enfrentar o Heerenveen. Pior: vinha de dois empates contra equipes que pelejam contra o rebaixamento, Zwolle e Willem II. Pelo que se observou na turbulenta semana passada, era vencer ou vencer.
E o time não venceu. Pior: saiu atrás, até conseguiu o empate, mas teve de se submeter a mais um gol de Alfred Finnbogason – aliás, o atacante islandês é o único motivo de alegria numa temporada apagada dos frísios. Mas isso é outra história. Com a derrota por 2 a 1, eram seis jogos sem saber o que era vencer. Isso, para uma equipe que encerrara 2011 como vice-líder da Eredivisie.
A situação de Steve McClaren, já aflitiva, ficou insustentável. Para ele próprio: o técnico inglês pediu a demissão na terça-feira, após reunião no final de semana com o presidente do clube, Joop Munsterman, e o diretor geral, Aldo van der Laan. A partir do momento em que sentiu que não teria garantias de continuidade no cargo após a temporada atual, McClaren pensou que era melhor “não ficar no caminho da evolução da equipe”, conforme citou ao site do clube, no anúncio da demissão.
A decisão foi lamentada por Joop Munsterman (“É triste dar adeus ao técnico que nos levou ao título em 2010”) e pelo capitão da equipe, Wout Brama (“Respeito a decisão de McClaren. Como jogadores, precisamos seguir em frente, e está claro que precisamos de melhores resultados”). Mas era naturalmente compreensível: o trabalho do “Sr. Guarda-chuva” – apelido dado na campanha do título, em 2009/10, pelo hábito de segurar um guarda-chuva vermelho nos jogos sob chuva – estava dando certo sinal de fadiga, com o péssimo hábito de recuar logo após fazer gols, para garantir resultados.
Ainda assim, a saída é uma mostra de que o Twente começa a sofrer de um mal que não o vitimava até há algum tempo: a irregularidade no trabalho dos treinadores. O clube continua sustentável, internamente. Os jogadores se conhecem, há alguns atletas que formam a espinha dorsal há alguns anos (Douglas e Brama são só os exemplos mais conhecidos), o clube tem grande êxito na contratação de jogadores razoáveis a baixo custo (Tadic, Castaignos, Fer e Chadli são boas mostras), sabe vender atletas na hora certa (Bryan Ruiz, Stoch, Tioté)… e dava tempo aos técnicos, para desenvolverem seu trabalho.
Dava. Já não é mais assim, desde 2010, quando McClaren deixou a histórica primeira passagem por Enschede rumo ao Wolfsburg. É certo que o sucessor de McClaren não deixou o clube contra a vontade: tendo comandado a equipe na conquista da Copa da Holanda, e ficando a uma vitória de um bicampeonato que seria ainda mais histórico na Eredivisie, Michel Preud’homme jogou isso para o alto por uma oferta generosa do Al-Shabab (Emirados Árabes).
Mas a segunda demissão já foi estranha: Co Adriaanse mantinha o Twente disputando seriamente a ponta do campeonato, em 2011/12, mas foi demitido sem mais nem menos no final do ano retrasado, por estar montando um esquema tático considerado ofensivo demais. Daí, McClaren voltou. Manteve a equipe em alta por um tempo, mas o mau final da temporada passada – sexto lugar na temporada normal, eliminação para o RKC nos play-offs por Liga Europa – já baixara um pouco o clima de “2010 repetido” vivido no Twente.
E, agora, McClaren caiu novamente. Enquanto um trio de ex-jogadores do Twente terá a missão de solucionar os problemas e tentar levar a equipe ao título (Alfred Schreuder, auxiliar de McClaren, será o técnico, ladeado por Youri Mulder e Boudewijn Pahlplatz), o clube só contratará um novo técnico após a temporada – Bert van Marwijk é o nome mais cotado.
Enquanto isso, o Trio de Ferro volta a se ver em boas condições para a arrancada final. O PSV já se garantiu na final da Copa da Holanda, no meio de semana, ao vencer o Zwolle – e continua firme na liderança da Eredivisie, a despeito da derrota para o Feyenoord. O Stadionclub, por sua vez, enfim ganhou de um time que disputa o título, e se reanimou para tentar acabar com o jejum de 14 anos sem títulos nacionais.
O Ajax pode ter perdido a chance de alcançar o PSV, ao empatar com o ADO Den Haag (e, de quebra, ter sido eliminado pelo AZ, na Copa da Holanda), mas também sonha com o tricampeonato. Para isso, terá de vencer justamente… o Twente. Que, se quiser continuar como símbolo de um futebol holandês mais equilibrado, terá de tomar juízo.



